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Bear Stearns
foi comprado por 1/5 do valor de seu prédio-sede
Na
madrugada do domingo, o JP Morgan Chase – ou seja, os Morgans e os
Rockefellers – aceitou comprar o 5º maior banco dos EUA por US$ 236 milhões,
mas não antes de receber US$ 30 bilhões dos contribuintes através do BC
norte-americano
A implosão da bolha especulativa de Wall Street
entrou em novo patamar, com o colapso da quinta maior corretora dos EUA, a
Bear Stearns, após dois dias de corrida dos especuladores ao seu “caixa” na
semana passada, e sua venda, por uma ninharia, US$ 2 a ação. O governo Bush
veio em socorro dos megaespeculadores, agraciando o JP Morgan Chase – isto
é, os Morgans e os Rockefellers – com US$ 30 bilhões de dólares dos
contribuintes, para a aquisição da Bear. Um ano antes, a ação da corretora
custava US$ 171. Ou, como registrou o “Washington Post”, na quinta-feira dia
13 a corretora ainda valia US$ 8 bilhões, contra os US$ 236 milhões do preço
final da transação. Nos dois dias de corrida ao banco, foram sacados US$ 17
bilhões. A situação ficou tão crítica que o Federal Reserve se reuniu em
pleno domingo, para aprovar o “empréstimo” – que terá como “garantia” papéis
podres do Bear -, e para reduzir em mais 0,25% a taxa de redesconto
(empréstimos interbancários). O próprio secretário do Tesouro, Henry Paulson,
participou intensamente dos acertos.
A semana já havia começado com emoções fortes
para a fina flor dos especuladores. Faliram o fundo Carlyle Capital, de US$
22 bilhões, um empreendimento comum do Carlyle Group, de Bush Pai, e dos
maiores bancos dos EUA, e a Thornburg, uma das maiores empresas de
hipotecas. Os rumores sobre o estado terminal – ou o desejo dos concorrentes
de que chegasse logo a esse estado – da Bear já haviam surgido na semana
anterior. Em sua “justificativa” para pôr US$ 30 bilhões nos bolsos dos
Morgan e Rockefellers, Paulson declarou-se “menos preocupado” sobre o
“perigo moral” de resgatar Wall Street, do que com “uma reação em cadeia de
falências se a Bear Stearns entrasse em colapso abruptamente”. Na véspera da
agonia da corretora de 85 anos que sobrevivera à Grande Depressão se tornar
indisfarçável, a agência de classificação de riscos, a Standard & Poors,
havia anunciado que “o pior” da crise das hipotecas “tinha passado”.
EXPEDIENTE
NOTURNO
Uma semana antes, o Fed havia anunciado uma
nova linha de empréstimos para os 20 maiores bancos e corretoras, de US$ 200
bilhões, pelo prazo de 28 dias, em troca dos papéis podres que ninguém quer,
na tentativa de adiar a ameaça de colapso vivida a cada overnight. Para o
Bear, não houve tempo. A propósito, parece que dar expediente aos domingos,
por causa da gravidade da crise, tornou-se parte das operações do BC dos
EUA. Em janeiro, também havia se reunido em pleno domingo, após os enormes
rombos divulgados pelo Citibank, o maior banco dos EUA, e pela Merryl Linch,
a maior corretora, para anunciar a redução da taxa básica de juros e do
redesconto interbancário.
Havia uma razão para, no auge da tensão, a
direção do Bear ter procurado o JP Morgan Chase: era o banco que fazia sua
compensação, e corretoras não têm direito legal a receber empréstimos em
caso de insolvência, só bancos comerciais. Daí ao beijo da morte, foi um
pulo. O empréstimo do Fed de US$ 30 bilhões ao JP Morgan Chase para repassar
ao Bear rapidamente tornou-se numa operação de tomada por uma bagatela.
Ao final, o valor de US$ 236 milhões é um quinto
do valor do prédio-sede na Madison Avenue – o que, na avaliação da revista
“The Economist”, significa que o valor do portfolio da Bear ficou reduzido a
“zero”.
“ESTADO
MÍNIMO”
A operação de troca de US$ 30 bilhões por
títulos podres é representativa de como os magnatas, especuladores e agiotas
em geral, e seus porta-vozes e mariposas, levam a sério suas propostas de
“Estado Mínimo”, “Não-Intervenção” do Estado na Economia, etc. Os magnatas
ficam com os lucros, e a sociedade banca os prejuízos. Ou como ironizou o
economista Paul Krugman, “cara eu ganho, coroa vocês perdem”. A Merryl Linch,
em seu último relatório, fez a estimativa de que o Fed já injetou US$ 1
trilhão para “deter a crise”, isto é, manter bancos, corretoras, fundos de
hedge e outras variadas pirâmides, à tona. Sobre quanto vai custar ao povo
dos EUA a atual crise, Krugman lembrou que a crise das empresas de poupança
na década de 80 custou 3,2% do PIB – “o equivalente a 450 bilhões hoje”. Ele
comparou, ainda, com o custo fiscal do estouro da bolha hipotecária do
Japão, estimada em “mais de 20% do PIB – o equivalente a US$ 3 trilhões para
os Estados Unidos”. O economista acrescentou que “entre 2002 e 2007, falsas
crenças no setor privado – a crença de que o preço das casas sempre aumenta,
que as inovações financeiras acabaram com os riscos, que uma classificação
triplo-A realmente significa que o investimento era seguro – conduziu a uma
epidemia de maus empréstimos”. Na base disso, denunciou, “a crença de Alan
Greenspan e seus amigos no governo Bush de que o mercado está sempre certo e
que a regulação é sempre ruim”.
Agora, com as demais corretoras tendo de
divulgar seus balanços do primeiro trimestre nesta semana, a pergunta que
agita os EUA é: qual será a próxima? A agência de notícias “Reuters” narrou
assim a situação desta segunda-feira dia 17: “as operações financeiras e os
empréstimos interbancários quase foram interrompidos, com os bancos cada vez
mais temerosos em negociar uns com os outros após o quase colapso do banco
de investimento Bear Stearns e em meio ao rumor de mais uma rodada de ajuda
coordenada pelos bancos centrais.
ANTONIO PIMENTA |