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Presidente Lula
aponta os responsáveis pela estagnação nas décadas de 80 e 90:
“Era proibido
falar que o Brasil pudesse crescer”
Presidente mostrou que o país
sofreu uma desindustrialização sob a política neoliberal
Em reunião da revista inglesa The Economist, em
Brasília, com a presença de líderes empresariais e políticos, o presidente Lula
apresentou uma radiografia da economia brasileira e apontou as perspectivas
favoráveis para o desenvolvimento do país. Ele criticou o descaso e a
insensibilidade de governos que o antecederam e creditou a eles a estagnação
vivida pelo país nas décadas de 80 e 90.
Lula chamou a atenção para as consequências
dramáticas da falta de investimentos em infra-estrutura e do enfraquecimento do
poder público. “Em 1970 São Paulo tinha apenas duas favelas. São Paulo tinha a
Favela da Vergueiro e a favela da Vila Prudente. Hoje, São Paulo tem mais de
dois milhões de brasileiros que moram em favelas”, destacou.
“A pobreza do nosso País se concentra muito
fortemente a partir da década de 80”, afirmou o presidente, lembrando que o
mesmo fenômeno ocorreu no Rio de Janeiro. “O Brasil passou praticamente 26 anos,
quase uma geração e meia, com a economia crescendo aquém daquilo que era
necessário crescer”, denunciou.
“Isso jogou a juventude brasileira na
marginalidade. A criminalidade atinge jovens em sua maioria entre 15 a 24 anos,
a 30 anos. Ou seja, são todos eles oriundos de 26 anos de atrofiamento da
economia brasileira”, prosseguiu.
Como mostrou Lula, o país sofreu uma
desindustrialização no período de predomínio da política neoliberal. “Eu, por
exemplo, sou de uma categoria econômica que, na década de 80, tinha praticamente
2 milhões de trabalhadores no Brasil, e caiu mais de 1 milhão”. “Este País
tinha, na década de 70, a segunda indústria naval do mundo, e na década de 90
nós tínhamos apenas 3 mil trabalhadores na indústria naval brasileira. Não
produzíamos mais navios, não produzíamos mais plataformas, não produzíamos mais
cascos”, disse. “O último investimento em infra-estrutura neste País aconteceu
exatamente no governo Geisel, que foi de 1975 a 1980, que fez esse crescimento
vigoroso baseado no chamado eurodólar, muito barato”.
ATITUDE
“Era preciso que nós, então, tomássemos uma
atitude de começar um novo processo. E foi o que fizemos”. “Nós precisamos de,
no mínimo, 10 ou 15 anos de crescimento sustentável para recuperar todo o tempo
que perdemos”, apontou.
“Hoje, a indústria naval brasileira já está com
mais de 40 mil trabalhadores, os nossos empresários do aço vão ter que produzir
muita chapa para atender a demanda de navios que estamos construindo, fazendo os
estaleiros que precisavam ser feitos”, salientou.
“Uma novidade”, prosseguiu o presidente, “é que
na década de 90 diziam que o Brasil não tinha competência para produzir
plataforma, era preciso importar. Pois bem, nós estamos construindo plataforma
no Brasil com 85%, de tudo que é montado nela, de componentes nacionais”.
Lula combateu a idéia de que o país não pode
crescer por causa da inflação.
“Era proibido falar que o Brasil pudesse
crescer, com inflação baixa. Todo mundo dizia que na hora que o Brasil começasse
a crescer, a inflação voltaria”, denunciou.
“A verdade é essa: neste País era proibido
crescer. Havia uma lógica de que se nós crescêssemos acima de 2% ou de 3%, a
inflação voltaria. Como havia uma lógica que se a gente combinasse o crescimento
da demanda interna com o crescimento das exportações, o Brasil não suportaria”,
prosseguiu.
“Quero dizer para vocês que já começamos a
crescer e vamos crescer mais em 2008. Vamos fazer mais políticas sociais em 2008
e queremos exportar e importar mais em 2008. Queremos consolidar o Brasil como
a principal potência dos combustíveis renováveis”, afirmou.
“Hoje, a nossa situação é de tranqüilidade.
Imaginem vocês se fosse na década de 90 essa crise imobiliária americana. O que
teria acontecido com o Brasil?”, indagou. “O sistema financeiro, que quis ganhar
dinheiro apostando em cassino, que pague a conta, não transfira a conta para os
países que passaram 30 anos sem crescer, que agora estão tendo a oportunidade de
crescer e não podem pagar essa conta”, defendeu. “E graças a Deus”, disse Lula,
“o sistema financeiro brasileiro não está metido nisso”. “Também, com os juros
que nós cobramos, não precisava investir”, acrescentou o presidente, recebendo
aplausos da platéia.
ALCA
Reafirmando o acerto na política de
fortalecimento do Mercosul, Lula lembrou das ameaças da Alca. “É importante
lembrar que nós fizemos uma campanha, em 2002, e a Alca era vida ou morte”.
“Quem não aceitasse a Alca era o demônio, porque a Alca era uma bênção de Deus
que ia salvar a América Latina.”
“Quando nós fomos a Cancún e propusemos o G-20,
pelo menos aqui no Brasil, se vendeu a idéia de que tinha sido uma fragorosa
derrota do Brasil”. “O dado concreto é que hoje é impensável se falar em
negociação comercial, dentro da OMC, sem levar em conta a existência do G-20”.
Sobre a educação, o presidente falou sobre os
investimentos maciços de seu governo e lembrou que de 1909 até 2003 foram
construídas no Brasil 140 escolas técnicas e que até 2010 estarão funcionando no
Brasil mais 214 escolas técnicas.
“O Brasil, ao longo de toda a sua história,
construiu 54 universidades federais. Nós vamos terminar o mandato construindo,
em oito anos, dez novas universidades federais e 48 novas extensões
universitárias, levando cursos universitários para o interior do País”.
Ele destacou os problemas de acesso ao ensino
superior. “No Brasil o pobre estuda na escola pública, no ensino fundamental, e
o rico estuda em escola paga. Quando chega na universidade, o rico vai para a
escola pública e o pobre vai para a universidade privada. Como o pobre não pode
pagar a mensalidade, ele fica fora”, disse.
“O que nós fizemos? Nós criamos um programa
chamado ProUni, fizemos uma isenção de imposto para as universidades privadas e
transformamos o equivalente do imposto em bolsas de estudo. Pasmem! Em três anos
já colocamos 360 mil jovens na universidade, jovens pobres da periferia e da
escola pública. Qual era a acusação que me faziam? ‘O presidente Lula está
nivelando o ensino por baixo, está rebaixando o nível do ensino no Brasil, na
medida em que criou o ProUni’. Três anos depois foi feita a primeira avaliação
dos cursos universitários brasileiros. Em 14 áreas, incluindo Medicina e
Engenharia, os melhores alunos avaliados foram, exatamente, os que iam nivelar
por baixo a educação no Brasil: foram os alunos do ProUni, da periferia deste
País”, destacou.
Lula criticou ainda a oposição na questão da
CPMF, e garantiu que não vai faltar recursos para os investimentos sociais.
“Vocês sabem que a oposição derrotou o imposto
que nós tínhamos sobre transações financeiras. E não derrotou porque era contra
o imposto. Não. Derrotou porque acharam que era demais garantir ao governo do
Lula ter 120 bilhões de reais até 2010, e era preciso diminuir”.
“Nós tínhamos aprovado um Programa de Saúde que
era uma revolução na Saúde e eu vou implementá-lo. O dinheiro vai aparecer, e
podem ficar tranqüilos que eu não vou aumentar tributo e o dinheiro vai
aparecer”.
SÉRGIO CRUZ |