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Bittar limita
capital estrangeiro na TV paga mas quer reduzir as cotas de produção
nacional
O deputado Jorge Bittar (PT-RJ), relator da lei
geral de telecomunicações, anunciou que vai alterar o seu relatório, no
sentido de restringir a participação estrangeira na TV por assinatura,
limitando a 30% o capital estrangeiro nas empresas de produção e programação
de “conteúdo nacional”.
No texto anterior, criticado aqui no HP, ele
liberava essa participação “até o limite de 50%” do capital votante – o que
abriria às multinacionais a possibilidade de controlar integralmente esses
dois setores.
É importante ele ter percebido que a
titularidade do capital das empresas relacionadas com a produção de bens
culturais não tem como deixar de ter relação direta com os “conteúdos” que
produzem.
Falta, ainda, estender esse limite às
empacotadoras de canais e às distribuidoras que transmitem os pacotes aos
assinantes. Ele havia derrubado todas as barreiras para que empresas com
100% de capital estrangeiro dominassem essas áreas.
Mas estávamos dispostos a parabenizar
antecipadamente o nosso velho camarada se ele não tivesse anunciado também
uma redução nas cotas de “conteúdo nacional” e “produção nacional
independente”, que na versão inicial de seu relatório já eram bastante
tímidas, se tomarmos como paradigma o padrão europeu.
A proposta de Bittar era que 30% dos canais de
programação, sem limite de número, ocupados majoritariamente por espaço
qualificado, tivessem no mínimo 50% de “conteúdo nacional”, dos quais pelo
menos a metade fosse criado por produtora nacional independente. O espaço
qualificado é o espaço total do canal excluindo-se programas jornalísticos,
religiosos, políticos, eventos esportivos, concursos, publicidade,
televendas.
O prazo para que essas medidas fossem
integralmente implementadas seria de quatro anos.
As modificações foram antecipadas na
quarta-feira (19) em entrevista coletiva. Mesmo sem apresentar números
definitivos, o parlamentar adiantou que a cota só incidirá sobre o limite de
30 a 50 canais, podendo cair a 20%, com apenas 40% de “conteúdo nacional”.
Cai a produção nacional e em conseqüência a produção nacional independente,
que continua como metade desse universo reduzido.
O recuo do relator foi anunciado após a campanha
da Net, DirecTV e Telefônica (TVA) contra a instituição das cotas e no
momento em que as entidades representativas do setor artístico e cultural
iniciavam o contra-ataque (ver manifesto nesta página).
Entretanto, a classificação de equivocado para o
parlamentar pode ser modificada para pior se confirmadas outras de suas
proposições. Uma delas diz respeito à inclusão das teles nacionais na
limitação de 30% da titularidade do capital das empresas de produção e
programação de “conteúdo nacional”, quando esta deveria estar restrita às
teles estrangeiras.
A outra questão está relacionada com a restrição
à participação dos radiodifusores (TVs abertas e rádios) em até 49% da
titularidade do capital nas empresas de distribuição de TV por assinatura,
conforme noticiou a “Agência Câmara”.
Como é notório, essas empresas são nacionais. Na
mais benevolente interpretação, o deputado parece estar querendo impedir que
grupos brasileiros participem desse segmento do mercado, ao mesmo tempo em
que o escancara aos estrangeiros. A distribuidora é quem, em última
instância, define o “conteúdo” que vai entrar nos lares dos assinantes.
Um claro favorecimento às transnacionais. Ou,
mais precisamente, uma ilusão de que o monopólio estrangeiro é mais manso
que os nossos modestos monopólios.
Mas, como nada é irrecuperável e o deputado
Bittar é nosso amigo, não perdemos as esperanças de que ele acabará ouvindo
os apelos de suas bases e não as vozes dos interesses externos.
ALESSANDRO RODRIGUES |