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O ministro Barbosa e o anúncio da ‘Veja’
Imaginem, leitores, um cidadão respeitável, de
reputação ilibada e caráter sem jaça, de repente aparecer na televisão,
fazendo propaganda de um prostíbulo. Para piorar, não um prostíbulo de luxo,
desses que os governadores americanos gostam, mas um daqueles bem sórdidos,
fedorentos e devassos.
Seria ou não o fim da picada? Mas, e se além de
cidadão hipoteticamente respeitável, de hipotética reputação ilibada e de
hipotético caráter sem jaça, esse hipotético portento das virtudes cívicas
for um ministro do Supremo Tribunal Federal, ou seja, um dos 11 magistrados
que constituem o Olimpo da Justiça, a Távola Redonda da Constituição, a
Congregação dos Templários da Ordem Legal?
Ora, direis, perdeste o senso... Sem dúvida, se
não estamos sendo vítimas de uma alucinação, o bordel em questão deve ter se
aproveitado indevidamente da imaculada aura ética do cidadão, roubado sua
imagem e tentado assassinar a sua impoluta celebridade. Não é lógico? Claro,
só pode ser isso.
No entanto, veja o amigo leitor o que ocorreu
com o ministro Joaquim Barbosa. Subitamente, os telespectadores viram a sua
aparição num comercial da... “Veja”. Da “Veja”? Sim, da “Veja”. Não, não era
um comercial do desinfetante “Veja”, que elimina germes e bactérias. Era da
imunda revistinha, mesmo. Aquela do “jornalismo de esgoto” - como já dizia o
Nassif –, da chantagem, da mentira por atacado, da difamação sem peias, da
falsificação de fatos e notícias; em suma, o mais depravado órgão de
imprensa no país, desde que a revista “Escândalo” foi fechada, há mais de 40
anos.
Como qualquer lupanar do último rincão desta
terra é menos corrupto e menos fétido do que a “Veja”, vários
telespectadores entraram em perplexidade, alguns até socorridos no
pronto-socorro, acometidos que foram de grave estupor catatônico, pois
estavam acostumados a pensar no STF como um viveiro de Águias e Condores
voando pelas cordilheiras do nosso Direito.
Nós aqui esperávamos que o ministro Barbosa
entrasse com um processo contra a “Veja”, por utilizar de forma aleivosa a
sua imagem. Sobretudo considerando o conteúdo do comercial, um panfleto
sensacionalista contra o governo (por sinal, o mesmo que elevou Barbosa ao
STF), uma difamação a personalidades sobre as quais o ministro terá que se
manifestar, pois é relator no processo do mal chamado “mensalão” (um aborto
parido, precisamente, pela “Veja”).
Porém, qual não foi nossa surpresa ao lermos a
resposta de Barbosa ao jornalista Paulo Henrique Amorim, que perguntara ao
astro da toga se ele havia autorizado “Veja” a usar sua imagem: “respondeu
por meio de seu chefe de gabinete Marco Aurélio Lúcio o seguinte: ‘O
Ministro Joaquim Barbosa autorizou a revista Veja a usar a foto’ “.
Recentemente, a “Veja” publicou uma daqueles
repugnantes tentativas de envolvimento, tendo como alvo o ministro Barbosa.
Era intitulada: “Nunca houve um ministro como ele”. Infelizmente, ao invés
de sentir engulhos, Barbosa não parece ter percebido que “Veja” tem por ele
consideração menor – bem menor - do que os senhores de escravos tinham pelos
semoventes de sua propriedade. Esqueceu, inclusive, as lições de outro
Barbosa aos magistrados: “Não sigais os que argumentam com o grave das
acusações, para se armarem de suspeita e execração contra os acusados; como
se, pelo contrário, quanto mais odiosa a acusação, não houvesse o juiz de se
precaver mais contra os acusadores, e menos perder de vista a presunção de
inocência, comum a todos os réus enquanto não liquidada a prova e
reconhecido o delito. (....) A ninguém importa mais do que à magistratura
fugir do medo, esquivar humilhações, e não conhecer cobardia” (Ruy Barbosa,
“Oração aos Moços”, 1920).
Não está à altura de um ministro do STF servir
como garoto-propaganda de um antro corrupto de achacadores. Mas talvez o
ministro não tenha prestado muita atenção. Permita-nos, então, data maxima
venia, lembrar mais um ensinamento do outro Barbosa: “A difamação pela
publicidade irresponsável dos apedidos, no jornalismo brasileiro, figura o
alcoice [bordel] agregado à casa de família. (....) Figura-nos um
estabelecimento, em cujo sobrado se pratique o culto do lar, enquanto no
pavimento inferior se negocia a crápula em benefício dos donos da casa,
cônjuges exemplares, excelentes pais, cidadãos austeros. É a Vênus vaga
entretendo a hipocrisia da castidade da matrona: a marafona sustentando a
vestal.” (Ruy Barbosa, 1900, Obras Completas, V. 27, t. 5).
CARLOS LOPES |