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Crise dos EUA:
terça-feira sem quebra de banco gera euforia
Mas a
alegria durou pouco: no dia seguinte, o índice Dow Jones, trouxe tudo de
volta à “normalidade”: queda de 2,36%, e outras bolsas despencando mundo
afora. Já o balanço da Morgan Stanley com “declínio de 42%” nos lucros foi
“comemorado pelos investidores”, segundo o New York Times
Na terça-feira dia 18, Wall Street viveu um dia
de euforia: nenhum banco quebrou! No dia seguinte, o índice da bolsa de Nova
Iorque, o Dow Jones, trouxe tudo de volta à “normalidade”: queda de 2,36%, e
outras bolsas despencando mundo afora.
Jornais explicaram a “euforia” da terça. Em sua
reunião regulamentar, fora dos expedientes dominicais, o Federal Reserve
reduziu a taxa básica de juros em mais 0,75%, levando-a para juros reais
negativos de 1,75% (juro de 2,25% menos inflação de 4%). Ou seja, o sistema
financeiro dos EUA foi colocado no balão de oxigênio. (Foi o que o Japão
andou fazendo, por uma década, após a explosão da bolha especulativa das
hipotecas, e com seus bancos com água pelo nariz). É o sexto corte de juros
nos EUA desde setembro passado. O Fed também reduziu em mais 0,75% o
redesconto (taxa para empréstimos interbancários), que já fora cortada no
domingo anterior, e agora ficou em 2,5%.
LEHMAN
BROTHERS
Na véspera, insistentes rumores ameaçavam a
quarta maior corretora dos EUA, a Lehman Brothers, com a mesma sina da Bear
Stearns, que foi à lona em dois dias na semana passada. Mas, favorecida com
a repercussão da ação do Fed, e uma linha de crédito de US$ 2 bilhões,
proporcionada por um pool de 40 bancos, a Lehman, que comunicou “queda de
57%” nos lucros no primeiro trimestre, já sonha em chegar até à divulgação
do próximo balanço. No item receita, a queda foi de 31%.
O que há de real nesses números é difícil de
dizer. No final de 2007, a Bear Stearns jurava que tinha “US$ 46 bilhões”.
As perdas confessadas pela Lehman foram de US$ 1,8 bilhão. Já a Goldman
Sachs divulgou uma contração de 35% na receita e de 53% nos lucros. As
perdas líquidas assumidas pela Goldman com títulos e hipotecas foram de US$
1 bilhão, e mais US$ 1 bilhão em “produtos de crédito”.
FESTA
Interessante como o “New York Times” apresenta o
balanço da Morgan Stanley – a corretora dos Morgan. “Declínio de 42%” nos
lucros, que foi “comemorado pelos investidores” – também, pudera, estavam
esperando coisa bem pior. A receita “baixou 17%”. A seguir, o jornal dá
alguns indícios de como o balanço foi parido. “A Morgan Stanley registrou
receita recorde na sua divisão institucional de securities”, a qual,
esclarece, “chamou a atenção no ano passado por causa do inesperado
lançamento de débito de US$ 9,4 bilhões devido a transações arriscadas ou
insolventes”. Agora, obteve “lucro antes dos impostos de US$ 2,1 bilhões,
comparado com perda de US$ 6,4 bilhões no último trimestre”. O negócio de
ações com “pão e manteiga também brilhou” – seja lá isso o que for - “com a
receita aumentando 51% comparado com o ano passado, puxada por derivativos e
fundos de hedge”, acrescenta o NYT. Logo por “derivativos e fundos de hedge”,
que estão afundando no mundo inteiro? Já que se “brilhasse” demais pegava
mal, a corretora admitiu “perdas de US$ 2,3 bilhões em hipotecas e
empréstimos alavancados” e baixas contábeis de US$ 161 milhões em
“investimentos imobiliários” e outras transações.
BOLHAS
De novo o NYT para nos ajudar a captar a solidez
desses balanços das bolhas especulativas, isto é, dos bancos dos EUA,
corretoras, fundos de hedge, derivativos, etc. “Em 30 de novembro, a Bear
Stearns tinha escriturado aproximadamente US$ 46 bilhões de dólares de
hipotecas, e títulos e ativos garantidos por hipotecas e apólices”. Mas –
indaga candidamente o jornal de Nova Iorque, “quem sabe o que essas
hipotecas realmente valem?”
A resposta: “de acordo com o relatório anual da
Bear Stearns, US$ 29 bilhões foram avaliados usando modelos de computador
‘derivados de’ ou ‘com suporte de’ algum tipo de dados observáveis do
mercado”. Provavelmente o “derivados de” trata-se de uma inocente menção aos
ainda mais inocentes derivativos. Quanto ao valor dos “remanescentes US$ 17
bilhões” trata-se, diz o jornal, de “uma estimativa baseada em ‘modelos ou
metodologias desenvolvidos internamente utilizando dados que em geral estão
menos prontamente observáveis”.
Comentário do próprio NYT: “Em outras palavras,
sua conjectura é tão boa quanto a minha”. O dicionário consultado pelo HP
oferece outra tradução, além de conjectura: “chute”. Nos círculos da
agiotagem, gostam, ainda, de usar outro termo: “bet”, aposta.
Agora, é aguardar os demais balanços - do
Citibank, da Merryl Linch, e de outras “instituições” um tanto quanto
arrombadas pela crise. Quanto ao mais, as notícias continuam péssimas. De
acordo com pesquisa do “Wall Street Journal”, de 51 economistas ouvidos, 71%
consideram que os EUA já estão em recessão. Em janeiro, a porcentagem era de
40%. Já Alan Greenspan, ex-capo do Fed, com sua típica conversa de pitonisa,
escreveu no “Financial Times” que a atual crise “será verdadeiramente
julgada como a mais grave desde o fim da II Guerra Mundial”. Isto é, desde a
Depressão de 1929. Modestamente, ele declinou de se estender sobre seu
próprio papel para acabar com qualquer tipo de limite para a especulação e
para a gestação da crise. No quarto trimestre de 2007, o crescimento da
economia dos EUA despencou de 4,9% um trimestre antes, para apenas 0,6%.
Mesmo com a redução dos juros de 5,25% para 3%, as vendas no varejo em
fevereiro caíram 0,6%. Oficialmente, nos últimos dois meses foram eliminados
85 mil postos de emprego. Alvarás para moradias, que sinalizam futuras
construções, caíram 7,8% em fevereiro, “a maior queda esta década”; a
construção de casas novas encolheu 0,6 % e os preços de imóveis continuam em
queda livre.
ANTONIO PIMENTA |