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Obama defende
a união de brancos e negros na luta por emprego, saúde e educação
A seguir os
principais trechos do discurso do pré-candidato democrata Barack Obama na
Filadélfia, na terça-feira, 18.
“Nós, o povo, com o objetivo de formar uma união
mais perfeita”.
“Há 221 anos, em uma edificação que continua a
existir, do outro lado da rua, um grupo de homens se reuniu e, com essas
simples palavras, lançou a improvável experiência da democracia na América.
Fazendeiros e estudiosos, estadistas e patriotas que atravessaram um oceano
para escapar à perseguição e à tirania por fim concretizaram sua declaração
de independência em uma convenção que durou toda a primavera de 1787.
“... É evidente que a resposta à questão da
escravidão já estava contida em nossa constituição - uma constituição que
tinha por cerne a igualdade dos cidadãos perante a lei, uma constituição que
prometia a seu povo liberdade, e justiça, e uma união que poderia e deveria
ser ainda mais aperfeiçoada ao longo do tempo.
“No entanto, palavras em um pergaminho não
seriam suficientes para libertar os escravos de seus grilhões, ou oferecer a
homens e mulheres de todas as cores e credos seus plenos direitos e
obrigações como cidadãos dos Estados Unidos. Foram necessários
norte-americanos de futuras gerações que se dispuseram a fazer sua parte -
por meio de protestos e luta, nas ruas e nos tribunais, por meio de uma
guerra civil e da desobediência civil, e sempre sob grande risco - a fim de
reduzir a distância entre aquilo que nossos ideais prometiam e a realidade
de nossa era.
“... Esta foi uma das tarefas a que nos
propusemos no início desta campanha - continuar a longa marcha daqueles que
vieram antes de nós, uma marcha em direção a um país mais justo, mais
igualitário, mais compassivo e mais próspero.
“... Da mesma maneira que a raiva negra muitas
vezes se provou contraproducente, esses ressentimentos brancos distraíram a
atenção quanto aos verdadeiros responsáveis pela compressão que a classe
média vem sofrendo: um governo e sistema político dominados por lobbies e
interesses especiais; políticas econômicas criadas para favorecer alguns
poucos em detrimento de muitos. E, no entanto, ignorar os ressentimentos dos
norte-americanos brancos, ou classificá-los como equivocados ou racistas,
também serve para ampliar a divisão entre as raças, e para bloquear o
caminho do entendimento.
“... Asseverei minha forte convicção - enraizada
em minha fé em Deus e no povo dos Estados Unidos - de que trabalhando juntos
seremos capazes de curar algumas de nossas velhas feridas raciais, e que de
fato não nos resta escolha se desejamos continuar no caminho de uma união
mais perfeita.
“Para a comunidade negra, esse caminho significa
aceitar os fardos do passado sem que nos tornemos vítimas dele. Significa
continuar a insistir em plena justiça quanto a todos os aspectos da vida
norte-americana. Mas também significa combinar nossas queixas específicas -
a busca de melhor saúde, melhor educação, melhores empregos - às aspirações
mais amplas de todos os norte-americanos - a mulher branca que luta para
superar as restrições ao avanço profissional feminino, o homem branco que
perdeu o emprego, o imigrante que tenta alimentar sua família.
“... Ironicamente, esse conceito
fundamentalmente americano - e, sim, conservador -, o de ‘ajuda a ti mesmo’,
encontrava expressão freqüente nos sermões do reverendo Jeremiah Wright. Mas
o que meu antigo pastor muitas vezes não conseguia compreender era que
iniciar um programa de auto-ajuda requer, igualmente, a crença em que a
sociedade seja capaz de mudar.
“O erro profundo dos sermões do reverendo Wright
não é que ele tenha falado do racismo em nossa sociedade, mas sim que o
tenha feito como se nossa sociedade fosse estática, como se progresso algum
tivesse sido realizado, como se este país - um país que permitiu a um membro
da congregação dele disputar o mais alto dos cargos e criar uma coalizão de
negros e brancos, latinos e asiáticos, ricos e pobres, jovens e velhos -
esteja ainda acorrentado a um passado trágico. Mas aquilo que sabemos -
aquilo que testemunhamos - é que os Estados Unidos podem mudar. É esse o
verdadeiro gênio de nosso país. O que conseguimos realizar nos dá esperança
- a audácia da esperança - quanto ao que poderemos e devemos realizar
amanhã.
“Na comunidade branca, o caminho para uma união
mais perfeita significa reconhecer que os problemas da comunidade negra não
existem apenas na cabeça dos negros; que o legado da discriminação - e
incidentes atuais de discriminação, embora menos escancarados do que no
passado - existe e precisa ser corrigido. E não apenas com palavras, mas por
meio de fatos - investimento em nossas escolas e comunidades, defesa dos
direitos civis e de julgamento justo nos tribunais criminais, criação de
escadas de oportunidade que permitam à atual geração uma ascensão impossível
para gerações passadas. Isso requer que todos os norte-americanos
compreendam que seus sonhos não precisam ser realizados à custa de sonhos
alheios; que investir na saúde, bem-estar e educação de crianças brancas,
negras e marrons em última análise ajudará o país como um todo a prosperar.
“... Pois temos uma escolha a fazer, em nosso
país. Podemos aceitar uma política que fomente a divisão, o conflito e o
cinismo. Podemos tratar da questão racial apenas como espetáculo - como o
fizemos no julgamento de OJ -, ou apenas em momentos de tragédia, como o
fizemos depois do Katrina, como munição para as notícias noturnas.
“... Podemos agir assim. Mas, caso o façamos,
posso lhes afirmar que, na próxima eleição, estaremos falando sobre outra
distração; e depois outra; e mais outra; e nada jamais mudará.
“Essa é uma opção. Ou podemos, neste momento,
nesta eleição, nos unir e exclamar: ‘Desta vez, não!’ Desta vez, queremos
falar sobre as escolas decadentes que estão roubando o futuro de crianças
negras, brancas, asiáticas, hispânicas e indígenas. Desta vez podemos talvez
rejeitar o cinismo que nos diz que essas crianças são incapazes de aprender,
que essas crianças de aparência diferente das nossas são problema de outra
pessoa. As crianças dos Estados Unidos não são ‘essas crianças’: são as
nossas crianças, e não permitiremos que fiquem para trás na economia do
século 21. Não desta vez.
“Desta vez queremos discutir sobre as filas
repletas de brancos, negros e hispânicos desprovidos de planos de saúde nos
pronto-socorros, pessoas que não têm o poder de superar sozinhas os
interesses especiais em Washington mas que poderiam fazê-lo caso nos
uníssemos.
“Desta vez queremos falar sobre as fábricas
abandonadas que no passado ofereciam vida decente a homens e mulheres de
todas as raças, e sobre as casas à venda que no passado pertenceram a
pessoas de todas as religiões, todas as regiões, todas as ocupações. Desta
vez queremos falar sobre o fato de que o verdadeiro problema não é que
alguém de aparência diferente possa tomar nosso emprego, mas sim que a
corporação para a qual alguém trabalha possa decidir despachar esse emprego
a outro país em busca de nada mais que lucro.
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