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Procuradoria de Roraima contesta laudo “viciado e
nulo” que baseou demarcação da Raposa Serra do Sol
A
Procuradoria do Estado de Roraima vai entrar com uma nova ação contra a
demarcação da Reserva Raposa Serra do Sol e contra a retirada dos moradores e
arrozeiros da área de 1,7 milhão de hectares. A ação da Procuradoria visa
suspender os efeitos do decreto que delimitou a reserva. Para isso, requer junto
ao Supremo uma perícia nos documentos da homologação por considerar fraudulento
o laudo antropológico que baseou a demarcação. Para a Procuradoria, se esses
estudos forem realizados ficará demonstrado que a terra é “devoluta, integrante
do patrimônio do Estado de Roraima, e não tradicionalmente ocupadas por
indígenas”.
“A tese
é a nulidade da demarcação tendo em vista que ela tomou como suporte, como
fundamento, um laudo viciado, um laudo nulo”, denunciou o procurador-geral do
Estado de Roraima, Luciano Queiroz. Segundo o procurador de Roraima Régis
Gurgel, “temos a certeza de que, se o Supremo vier analisar a formação do laudo
antropológico, esse laudo daria respaldo a uma ação julgada favorável ao
Estado”.
FRONTEIRA
Para o
governador de Roraima, Ottomar Pinto (PSDB-RR), a retirada da população de
dentro da reserva faz o Brasil agir “na contramão da tendência mundial de povoar
as áreas de fronteira”. Durante audiência pública promovida pela Comissão de
Relações Exteriores e Defesa Nacional (CRE), o governador condenou a retirada
dos arrozeiros e moradores da reserva, localizada junto às fronteiras com a
Venezuela e a Guiana.
“Aquela
está se tornando uma terra de ninguém, onde até para se hastear uma Bandeira
Nacional já houve problema, porque o tuxaua local não queria permitir”,
denunciou o governador. A audiência foi promovida a pedido do senador Mozarildo
Cavalcanti (PTB-RR), que presidiu a reunião (ver matéria ao lado).
Além
disso, segundo o governador, a retirada dos arrozeiros prejudicaria a economia e
a população do Estado, pois Roraima já tem 47% de suas terras de áreas indígenas
e 23% de unidades de conservação ambiental. Roraima, com um território quase
igual ao do Estado de São Paulo, comporta uma reserva Yanomami com 7,5 milhões
de hectares, a Raposa Serra do Sol e a reserva São Marcos, com cerca de 2,5
milhões de hectares e outras reservas menores, que totalizam 500 mil hectares.
Tudo isso, para 40 mil índios, ou seja, para uma população menor do que a do
bairro da Liberdade, na capital paulista.
A
fraude no laudo antropológico que baseou a demarcação têm sido destacada pelas
lideranças políticas de Roraima, que pedem que o governo federal reveja a
disposição de tirar os moradores de dentro a área da reserva, prevista para
acontecer nos próximos meses.
“Há uma
suspeita, aliás, comprovada por um historiador e por outro antropólogo, de que
esse laudo da Raposa Serra do Sol é um laudo falso. A pessoa fez o laudo
juntando coisas daqui e dali sem ir lá analisar a área. E, no laudo da nossa
Reserva de São Marcos, a cidade de Pacaraima foi omitida; não há nenhuma
referência a uma população de três mil pessoas que vivem há muito tempo lá. Essa
atitude é uma agressão ao nosso Estado”, denunciou o senador Augusto Botelho
(PT-RR).
MINÉRIOS
O
senador denunciou que muitas organizações não-governamentais (Ongs), a maioria
estrangeiras, pressionaram o governo para ampliar a área demarcada da reserva.
Segundo Botelho, o que está em jogo é o “grande potencial mineral” da reserva.
“Estão guardando reservas minerais para serem exploradas pelos países ricos”,
disse Botelho.
A
Raposa Serra do Sol está plantada numa das maiores reservas minerais e de
biodiversidade do Planeta. Na reserva já foi comprovada a existência de grandes
quantidades de minérios como diamante, ouro, ametista, cobre, titânio e nióbio.
Há indícios também de urânio e tório, segundo dados do Ministério das Minas e
Energia.
Para o
senador petista, ainda é possível um acordo que possibilite a permanência dos
produtores de arroz nas terras demarcadas. Botelho diz que a resistência dos
arrozeiros em deixar o local se deve ao fato das famílias viveriam lá a mais de
três gerações. Ele lembra que a produção de arroz é responsável por cerca de 25%
do Produto Interno Bruto (PIB) de Roraima e defende a não retirada das 400
famílias que produzem na região. “O presidente Lula tem muita sensibilidade e
vai fazer justiça”, disse.
GISELE
CARESIA |