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O golpe do dossiê
Não é propriamente uma novidade: a “Veja”
inventou outro dossiê. Dessa vez, diante do fracasso da CPI dos Cartões como
foco golpista, o dossiê é atribuído ao Palácio do Planalto - e seu conteúdo
seriam os gastos secretos de Fernando Henrique & alcatéia durante sua
profícua passagem pelo poder.
Nenhuma das histórias que a “Veja” revelou como
supostamente parte do dossiê eram desconhecidas. São, aliás, apenas duas, em
seis páginas de matéria: a de que o então ministro Aloysio Nunes Ferreira,
atualmente secretário de Serra, quando ia ao Rio hospedava-se, às custas do
Erário, no Copacabana Palace, hotel mais caro do país; e a de que Ruth
Cardoso, então primeira-dama, gastou 100 dólares com um porta-retratos para
presentear um oficial colombiano.
São informações de quase nenhuma importância.
Sua única função é insinuar que “Veja” tem nas mãos algo muito mais
comprometedor para a malta fernandista – ou serro-fernandista.
Mas, sendo assim, quem está chantageando os
tucanos não é o governo, mas a “Veja”. O que fica explícito na penúltima
frase do texto: “por uma questão de simetria político-jurídica, a divulgação
dos gastos secretos do então presidente Fernando Henrique Cardoso implica
necessariamente a divulgação dos gastos secretos do atual presidente, Lula”.
Ou seja, a intenção é acicatar os tucanos a se
atirarem sobre Lula, mesmo à custa de torrá-los. Daí a ameaça de divulgar os
“gastos secretos do então presidente Fernando Henrique Cardoso”.
Naturalmente, atribui-se a intenção ao Planalto – de onde não há sinal de
dossiê algum, até porque a CPI da Tapioca, depois do depoimento do ministro
Hage (v. matéria nesta página), perdeu qualquer razão de ser, no que diz
respeito ao atual governo.
Mas o impressionante, ainda que tedioso, é como
esse mesmo antro de chantagistas sempre repete o golpe do dossiê, da mesma
forma, com a mesma indigência, sem a mínima imaginação.
É assim: “Veja” está tentando destruir a
reputação de alguém. Mas a vítima-alvo resiste – o que é suficiente para
botar em dúvida, ou sob suspeição, ou à beira do desmonte toda a campanha
difamatória. Então, inventa-se um dossiê e o atribuem à essa vítima. O
suposto motivo que a vítima teria para confeccionar o dossiê também é sempre
o mesmo: chantagear outros para escapar da execução política. O objetivo é
jogar esses outros contra o citado alvo. E, realmente, esses outros estão
sendo chantageados, mas não pelo alvo da revista, e sim pela própria “Veja”,
que quer coagi-los a condenar um inocente. Se a coação funciona, a prova da
culpa do cidadão é a sua condenação pelos que foram coagidos a condená-lo...
Foi assim em relação a José Dirceu: este teria
preparado um dossiê para intimidar seus colegas deputados, no processo de
sua cassação – dossiê que nunca apareceu, porque nunca existiu. Foi assim em
relação ao senador Renan Calheiros – primeiro, acusaram-no de preparar um
dossiê para coagir os senadores em geral; depois, de ter preparado outro
dossiê, especificamente contra o relator de seu segundo processo, senador
Jefferson Peres. Nenhum dos dois era verdadeiro. E, embora Peres, ao que
parece, tenha se submetido, o Senado não se submeteu – e o dossiê nunca
apareceu, pela mesma razão que o anterior: nunca existiu.
Percebendo que sua invenção é frágil, até porque
a repetição da mesma coisa redundou em irreparável falta de credibilidade,
“Veja” lembrou o caso em que o Vedoin das ambulâncias tentou vender um
dossiê a alguns “aloprados”. Péssima lembrança: o destrambelhamento dos
aloprados é a maior demonstração de que não eram afeitos a essas coisas – na
verdade, nunca chegaram a pôr as mãos em qualquer dossiê. Eram apenas tolos
negociando com vigaristas.
CARLOS LOPES |