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Por que a
imprensa não reza para São Keynes?
GILSON
CARONI FILHO*
No momento em que
dados e análises sobre a economia estadunidense reforçam a percepção que
aquele país caminha para a recessão, a grande imprensa que, com unhas e
dentes, defendeu o ideário monetarista como expressão única da razão
econômica, não só finge que seus cânones passam ao largo da crise como torce
para que ela contamine a estabilidade econômica brasileira. Não há sequer
esboço de autocrítica, mas a determinação dos que sempre combateram à sombra
qualquer caminho alternativo.
Quem analisou o
conteúdo da mídia nos cinco últimos anos observou uma postura que se manteve
constante. Os elogios de articulistas econômicos conservadores e os
editoriais de apoio de setores expressivos da grande imprensa nunca deixavam
dúvida quanto à natureza da estratégia. Junto com a defesa intransigente dos
que apostavam em uma continuação da política econômica neoliberal tucana
assistimos, simultaneamente, em páginas nobres e minutos preciosos de
telejornais, a ataques sistemáticos aos setores que se empenhavam em
preservar as bandeiras que levaram o presidente Luiz Inácio Lula da Silva a
duas vitórias eleitorais consecutivas.
No entanto, não
devemos cobrar coerência de jornais, revistas e emissoras de televisão.
Afinal, julgavam que se opunham a um governo “que estava em disputa”.
Permanecem, justiça seja feita, onde sempre estiveram. Com os mesmos aliados
e interesses. Podem mudar o foco, jamais o discurso, como deixa claro Miriam
Leitão em sua coluna no jornal O Globo.
A pretexto de
historiar as crises recentes da economia mundial, a jornalista, na edição de
21 de março de 2008, conclui seu texto de forma curiosa, com estilo que
recende uma torcida incontida:
“A
economia brasileira pode ser afetada pela recessão americana, pelos
movimentos bruscos de capitais, pela queda dos preços das commodities. O
ambiente econômico estará mais hostil daqui em diante. Isso demora a ficar
mais visível; enquanto isso, as autoridades dirão que a crise não é nossa”.
O interessante do
trecho acima está no que “demora a ficar visível” para um certo tipo de
jornalismo. O padrão de financiamento adotado para alimentar os déficits dos
EUA, a economia desregulamentada, a crença cega em mecanismos financeiros de
auto-regulação e o padrão monetário amparado no dólar como moeda universal
sempre foram tratados como axiomas. Não será agora que serão apresentados
como castelos de areia de um discurso falido. Afinal estamos diante de um
sistema de crenças que condiciona estilos e limita atitudes.
Em ensaio
publicado na revista Margem Esquerda, em 2004, o economista e
professor da PUC-SP, Carlos Eduardo Machado destacava que mais do que um
conjunto específico de políticas econômicas, o neoliberalismo se apresenta
como um paradigma flexível. Comporta realidades cambiais distintas, setores
públicos de variados tamanhos, além de dosagens diferenciadas, conforme a
realidade do país, de fiscalismo e política monetária. O que o define de
fato, segundo o autor, são as seguintes determinações:
“1.
Prioridade absoluta para os direitos do capital; 2. ocultamento das relações
capital-trabalho e responsabilização do indivíduo frente ao capital; 3. a
despolitização da política econômica, tratada como técnica universal; 4.
abertura de novos espaços para valorização do capital e, finalmente,
culpabilidade dos países dependentes pela desordem financeira”.
Ora, qual desses
itens não foi contemplado nas editorias de economia e nos discursos e atos
do que se convencionou chamar de núcleo duro de economistas afinados com a
sintonia das sonatas de mercados? Tristes tempos em que Gustavo Franco virou
oráculo de uma esfinge que nunca pediu para ser decifrada.
Mas, voltando ao
ensaio de Machado, não resta dúvida quanto à importância do terceiro ponto
por ele destacado. Sem ele, dificilmente, a articulação entre os demais se
realizaria. A despolitização da economia é o toque nevrálgico da hegemonia
neoliberal. Concebidos como conjunto de práticas e idéias que se reforçam
reciprocamente, os processos hegemônicos só se efetivam se forem capazes de
universalizar interesses específicos.
Só há chance de
êxito se conseguirem, para si, o estatuto de uma física social em que as
verdades estão a salvo de qualquer reparo crítico. E é por aí que desfilam
premissas, promessas e metáforas. Tanto na crença de prestigiados
economistas quanto no discurso jornalístico, a grande ausente é a análise
macroeconômica.
O pensamento único
ganhou oxigênio de quem, por dever de ofício e integridade ética, deveria
noticiar seu esgotamento. Assim, autonomizada das relações concretas, a
economia entrou em órbita própria com indicadores que, tal como cabalas,
exigem ritos iniciáticos. A análise apurada cede lugar à evidência do “risco-Brasil”.
As oscilações dos C-bonds e os humores da Bovespa seguem atônitos os
vaticínios da Merril Lynch. E se o mercado aparenta calma ou nervosismo, os
derivativos não demonstram qualquer desconfiança quanto aos “fundamentos”.
O homem, esse
indicador desnecessário, é visto como variável secundária, pouco
interveniente, estatisticamente irrelevante. Afastados do debate econômico,
Marx e Keynes não são dignos de figurar em cenário tão feérico.
Outro texto antigo
que não pode ser negligenciado é o artigo publicado por Renato Ortiz, em
outubro de 2003, no suplemento Mais!, da Folha de S.Paulo. Nele, o
professor da Unicamp afirma que “dos mitos atuais, perenes, inquestionáveis,
cotidianamente celebrados em escala global, um deles se denomina mercado. A
ele nos referimos como entidade real, com vida própria, capaz inclusive de
reações semi-humanas”. Descrevendo as funções de economistas no
desvendamento da estrutura mítica que o mercado assume, Ortiz explica que as
interpretações só serão críveis se expressas esotericamente. Ou seja, a
credibilidade será filha da ininteligibilidade. Se alguém duvida, os trechos
abaixo, extraídos de uma edição de 29 de abril de 2004 de O Globo,
são um exemplo, sob medida, de como a semântica neoliberal se travestiu de
noticiário.
“A
mistura explosiva de temor de uma alta nos juros americanos com novos
ataques no Oriente Médio foi o combustível para o dia de maior nervosismo no
mercado financeiro nas últimas duas semanas. A crescente aversão a risco dos
investidores globais fez disparar as ordens de venda de títulos e ações de
países emergentes. Segundo analistas, há investidores optando por manter o
dinheiro em caixa até que o cenário fique mais claro. As bolsas, no Brasil e
no mundo, também tiveram um dia de turbulências ontem”.
“Os bônus
brasileiros, os mais negociados no mercado de dívida emergente, com 50% das
operações, estavam entre os que mais sofreram: o C-Bond caiu 2,26%,
negociado a 90,7% do valor de face. É o menor patamar desde 4 de setembro
(90,85%). A derrocada dos papéis levou o risco-Brasil a subir 5,56%, para
665 pontos centesimais — o maior nível desde 3 de outubro de 2003 (667)”.
A dificuldade de
compreensão para o leitor comum não decorre de deficiência estilística.
Trata-se de história expurgada de ação humana. Correlações frouxas para
mostrar uma relação de causalidade que prescinde da intervenção política.
Descolado da práxis humana, o capitalismo financeiro se reproduz com uma
lógica férrea. A “mão invisível do mercado” desmaterializa qualquer
contradição interna de sua própria dinâmica. Nesta, tudo é perfeição. A
impureza vem de uma realidade que precisa ser positivada em índices. Eis o
papel ideológico da cabala financeira das redações.
Ao afirmar que “a
economia dos EUA está essencialmente andando de lado, ou talvez esteja se
contraindo abertamente”, Jorgen Elmeskov, diretor em exercício de economia
da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE), acena
para algo que transcende o fim de um ciclo de acumulação. No santuário dos
fundamentalistas de mercado, a imagem de Friedman, esmaecida em seus
pressupostos, parece não atender às orações. Não seria a hora de, em ato de
contrição, acender uma vela para Keynes? Pode soar como heresia, mas o
“apocalipse” se tornará mais inteligível. E, afinal, ensina o liberalismo:
cada um deve cuidar da salvação da própria alma. Só assim a salvação dos
mais “aptos” estará assegurada.
*É professor
de Sociologia das Faculdades Integradas Hélio Alonso (Facha), no Rio de
Janeiro, e colaborador do HP, Agência Carta Maior, Jornal do Brasil e
Observatório da Imprensa. |