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Obama afirma
que guerra de Bush levou dívida dos EUA à estratosfera
O
pré-candidato democrata Barack Obama propôs “fim à guerra e investimentos já
dentro do nosso país”. O senador disse ainda que os EUA estão à beira da
recessão e os americanos comuns estão pagando o preço dessa guerra
Em discurso na Virgínia Ocidental, no dia em
que a invasão do Iraque completou cinco anos, o candidato democrata Barack
Obama afirmou que “num momento em que estamos à beira da recessão, quando
encontramos bairros em que todas as casas têm placas ‘vende-se’, os
americanos comuns estão pagando o preço dessa guerra” de Bush. Convocando o
“fim da guerra” já e “investimentos dentro do nosso país”, ele advertiu que
“nas estimativas mais conservadoras” a invasão “já custou meio trilhão de
dólares”, mais que qualquer outra guerra na história do país, com exceção da
II Guerra Mundial. Obama acrescentou, ainda, que “por causa das políticas de
Bush-McCain, a dívida dos EUA foi para a estratosfera”. Nessa mesma semana,
agravou-se a crise da bolha hipotecária, com o quinto maior banco de
‘investimentos’ dos EUA, o Bear Stearns, indo à lona, enquanto o Federal
Reserve precisava remendar a situação, com um “band-aid” de US$ 30 bilhões,
para a quebradeira não se alastrar de vez em Wall Street.
Dirigindo-se aos estudantes e professores da
Universidade de Charleston, Obama reiterou que a atual crise que assola a
economia dos EUA e a guerra no Iraque estão inegavelmente ligadas. “Quando
você gasta mais de US$ 50 para encher o tanque do seu carro porque o preço
do petróleo está quatro vezes maior do que antes do Iraque, você está
pagando o preço dessa guerra”, denunciou Obama. Ele assinalou também que
quando cada membro de uma família norte-americana está pagando “cerca de US$
100 por mês - você está pagando o preço dessa guerra”.
PRIORIDADES
O candidato democrata ressaltou que as
prioridades internas de educação, saúde e mesmo a construção de novas
estradas e pontes foram relegadas por causa dos elevados gastos com a
guerra. “Os mais de US$ 10 bilhões que estamos gastando a cada mês no Iraque
é um dinheiro que deveríamos estar investindo aqui em nosso país”, insistiu
Obama. Referindo-se a essas prioridades sociais, ele disse: “pense em
quantas batalhas poderíamos estar travando, ao invés de estar combatendo
nessa guerra malsinada”.
Enquanto Obama dimensionava, dessa forma, o
custo da agressão ao Iraque, continuavam repercutindo outras estimativas
sobre as conseqüências, para os EUA, da aventura de Bush e da desenfreada
especulação sob seu governo. Estudo do prêmio Nobel de Economia Joseph
Stiglitz estimou em U$ 1 trilhão o custo orçamentário direto da guerra ao
Iraque, e mais de US$ 1 trilhão adicionais de perdas decorrentes na economia
dos EUA. Já o segundo maior banco de “investimentos”, Goldman Sachs,
divulgou estimativa de que as perdas com o estouro da bolha hipotecária (“subprime”)
ultrapassariam US$ 1,15 trilhão. Outro estudo, citado pelo “Financial
Times”, avaliou perdas totais de 20% do PIB dos EUA – US$ 3 trilhões.
Naturalmente, as declarações de Obama não são um
“tratado” em economês sobre a crise, mas um chamado à atenção sobre o preço,
para cada cidadão dos EUA, dessa política. E, claro, uma condenação à guerra
e às prioridades de Bush para o dinheiro dos contribuintes. Algum
economista, ao se deter sobre esses assuntos, poderia alegar, como Paul
Krugman, que “não existe” uma relação direta entre a guerra do Iraque e a
crise econômica dos EUA. Ou lembrar que várias vezes a oligarquia optou pela
guerra para sair de uma crise econômica. A questão é que, antes, ao invés de
afundar na crise, como agora, o império ganhava algum fôlego. Aliás, a
Guerra do Vietnã, coincidentemente ou não, foi o momento em que Nixon se viu
forçado a romper os acordos de Bretton Woods, e acabar com o lastro do ouro
para o dólar. Ou, provavelmente, não sobraria ouro em Fort Knox.
Ao agredir o Iraque, arrogantemente Bush e seu
vice, Dick Cheney, anunciaram que seria uma invasão bem baratinha, com
flores, e o petróleo iraquiano custeando a ocupação. “US$ 50 bilhões”,
previu o governo Bush. Mas a Resistência iraquiana, com suas bombas e
foguetes, inviabilizou essa pilhagem fácil e auto-paga. Dos “US$ 50
bilhões”, o preço da guerra foi catapultado para US$ 1 trilhão somente de
gastos orçamentários, nas estimativas de Stiglitz. (Além de 4 mil soldados
oficialmente reconhecidos como mortos, e dezenas de milhares de mutilados).
Como a política da máfia texana incluía, internamente, a redução de impostos
para os ricos e as corporações, o atoleiro no Iraque teve o efeito de
agravar profundamente o déficit orçamentário, mesmo com Bush cortando
desapiedadamente os programas sociais e deixando a infra-estrutura do país
se desmanchar.
PORTFÓLIO
Outros números, da revista inglesa “The
Economist”, dão conta da realidade – ou irrealidade - econômica dos EUA sob
W. Bush. “A parcela do setor financeiro no total de lucros corporativos
subiu de 10% na década de 1980, para 40% no seu pico no ano passado”. O
mesmo estudo acrescenta que “um típico portfólio de ações, títulos e
dinheiro dava um retorno anual de mais de 14%, quase quatro vezes o normal
das décadas passadas”. O número de fundos mútuos “mais que quadruplicou”.
Desde 2000, “o valor dos ativos mantidos nos fundos de hedge quintuplicou”.
A dívida – registrou a revista - foi lançada nas
nuvens. “Em 1980 a dívida do setor financeiro era apenas um décimo do
tamanho do débito do setor não-financeiro. Agora é a metade”. Conclusão da
orgia com os derivativos: “esse processo transformou bancos de investimentos
em máquinas de débito, que negociam pesadamente por conta própria. A Goldman
Sachs está usando cerca de US$ 40 bilhões de patrimônio como fundamento para
ativos de US$ 1,1 trilhão. Na Merrill Lynch, a mais alavancada, US$ 1
trilhão de ativos oscilam em volta de US$ 30 bilhões de patrimônio. Na alta,
essa engrenagem cria retornos estelares. Quando os mercados estão em perigo,
uma pequena queda nos valores dos ativos pode liquidar os acionistas.”
TRABALHO
EXTRA
No dia do colapso do Bear, W. Bush agradeceu ao
seu Secretário do Tesouro, Henry Paulson, “por trabalhar no fim de semana.
Você mostrou ao país e ao mundo que os Estados Unidos estão no controle da
situação”. Um senador democrata comparou o alheamento de Bush à reação do
então presidente Hoover, em pleno crash de 1929. Já o presidente do Comitê
de Serviços Financeiros da Câmara de deputados, Barney Frank, afirmou que
Bush “não tem a menor idéia do que está acontecendo”. Enquanto isso, o
republicano John McCain faz questão de se pendurar na guerra de Bush e na
sua política econômica. Como denunciou Obama, McCain parece “decidido a
levar a cabo um terceiro mandato de Bush, não importa quais sejam as
conseqüências”. Este – assinalou – “é um desfecho ao qual a América não pode
se dar ao luxo”. E, pelo entusiasmo demonstrado pelas multidões que têm
vindo apoiar Obama, não será.
ANTONIO PIMENTA |