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Mesmo com preço subavaliado,
monopólios desistem da Cesp
Multinacionais
queriam garantia da renovação das concessões das usinas e nenhum limite para o
preço da energia gerada pela empresa
Depois do fracasso do leilão da Cesp, apareceram
alguns manjados privatistas a dizer que o problema foi o preço. Se tivesse sido
mais baixo, aí, sim, as multinacionais a levariam. Realmente, se a Cesp fosse de
graça, não há dúvida de que teria sido privatizada. E se o governo pagasse para
que levassem a Cesp – como nas privatizações tucanas anteriores, onde o BNDES
forneceu dinheiro público aos açambarcadores – teria sido ainda mais garantido o
negócio.
No entanto, a questão está, exatamente, em que
não há mais espaço para essa imoralidade, aliás, a mais corrupta que já houve em
toda a nossa História. O modo pelo qual a sociedade – dos trabalhadores até
setores da mídia – reagiram contra a privatização da Cesp é um importante
indicador nesse sentido.
CONTROLE
O preço da Cesp, como nós e vários especialistas
apontaram, era uma subavaliação. O que era inevitável, tendo como avaliadores o
Citibank/Fator, assessorado pela Merril Lynch. No entanto, o preço estabelecido
pelo governo Serra era ainda menor que a subavaliação inicial. Certamente, ele
não estava vendendo todas as ações da Cesp. Mas estava vendendo o controle da
empresa. As ações que colocou em leilão, e isso não é, evidentemente, um
mero detalhe, eram as suficientes para controlar a empresa que gera 10% da
energia do país e quase 70% da energia elétrica consumida pelo Estado de São
Paulo.
Como disso um especialista no setor elétrico, o
professor Helvio Rech, da USP: “No caso das usinas do rio Paraná, estas são
extremamente atrativas para bancos e demais investidores privados, uma vez que o
custo médio de geração de todas as usinas da empresa é da ordem de R$ 40,00 por
MWh de energia, contra um preço de venda da energia no mercado livre em torno de
R$ 130,00 o MWh. Isso representa uma renda diferencial (hidráulica) de R$ 90,00
por MWh. Como o parque gerador garante 3.916 MW médios de energia assegurada,
essa renda soma R$ 3,52 bilhões anuais” (cit. HP, 22/02/2008).
Portanto, a renda auferida em dois anos seria
superior ao preço que o governo de São Paulo havia estabelecido para um
patrimônio construído em meio século de investimentos públicos.
Não foi, portanto, porque o preço estivesse alto
que a Cesp não foi arrastada para a bacia das almas – e somente o governador
Serra, com sua conhecida straight-face (tradução do anglo-tucanês: cara-de-pau),
seria capaz de insinuar tal coisa e ainda se apresentar como defensor do
patrimônio do povo paulista. Ficamos até achando que era o Requião, ou, talvez,
o Fidel Castro, que queria privatizar a Cesp...
Os próprios candidatos desistentes a se
assenhorar da Cesp o reconheceram. Por exemplo, o sr. Maurício Bärh, presidente
da filial no Brasil da Suez-Tractebel (que é o resultado do açambarcamento, no
governo Fernando Henrique, da estatal brasileira Gerasul pela Generale
Maatschappij, também conhecida como Société Générale de Belgique), declarou, em
entrevista ao jornal “Folha de S. Paulo”:
“Preço, na verdade, é uma conseqüência das
condições do negócio”. E ele esclarece quais as “condições do negócio” que
sua companhia achava imprescindíveis para levar a Cesp: “A razão pela qual o
negócio não ficou em pé, basicamente, é a incerteza da renovação das concessões
[das usinas de Jupiá e Ilha Solteira] a partir de 2015. 67% da energia
assegurada da Cesp - ou seja, da sua capacidade de produzir receita - tinha o
risco de desaparecer. Ou, se fossem renovadas, seria de uma maneira que a gente
não consegue estimar. Depois da nota do ministro Edison Lobão, ficou claro que o
governo tem uma visão de que é possível [renovar as concessões], mas as
condições podem vir com o viés de modicidade tarifária, que levaria a
energia da Cesp a ser vendida a preços controlados” (FSP, 26/03/2008, grifo
nosso).
Em suma, a condição principal dos monopólios
para levar a Cesp não era que o preço estivesse mais baixo. Estavam achando
ótimo o preço, se ficassem à solta para estabelecer as tarifas que bem
entendessem pela energia gerada - tal como fizeram as empresas privatizadas no
governo Fernando Henrique. Por isso, essa alergia à “modicidade tarifária”, pois
seu princípio é o da extorsão tarifária.
Porém, provavelmente a partir da sexta-feira,
dia 21, perceberam que não estavam mais naquela casa da mãe Joana com que se
acostumaram no governo anterior. Nesse dia, o ministro das Minas e Energia,
Edson Lobão, em entrevista ao jornal “O Estado de S. Paulo” declarou que, em
relação à usina de Três Irmãos (cuja concessão se esgota em 2011, e legalmente
pode, ao contrário de Jupiá e Ilha Solteira, ser renovada mais uma vez), “não
estou garantindo prorrogação. Pela lei, o ministro fica autorizado a prorrogar a
concessão, e não obrigado”; e, em relação a Jupiá e Ilha Solteira: “Levando
em conta que estão amortizadas e pagas, a energia terá de ser vendida a preços
mais baixos, compatíveis com a situação dessas usinas”.
Realmente, se não fosse assim, seria o que,
antes dos chineses enviarem para Taiwan os fernando-henriques e serras de lá,
era conhecido como negócio da China.
Pois, os 67% da “capacidade de produzir receita”
(isto é, lucros) mencionados por Bärh, ou seja, as usinas de Jupiá e Ilha
Solteira, não demandam mais investimento algum em capacidade instalada – nem
mesmo pagar empréstimos realizados com essa finalidade. Se as suas “condições do
negócio” prevalecessem, os açambarcadores poderiam, sem fazer qualquer
investimento, estabelecer tarifas máximas (ou – o que é a mesma coisa –
tarifas que lhes permitissem obter lucro máximo) sobre 67% da energia gerada
pela CESP – ou seja, 45,5% da energia consumida no Estado mais industrial do
país.
Além disso, queriam a garantia de que o governo
federal iria prorrogar as concessões das usinas da Cesp. Em relação a Jupiá e
Ilha Solteira, isso significaria mudar a lei para favorecê-los, pois essas
usinas já não podem ter as concessões renovadas, tendo que passar por uma de
licitação em 2015.
O que os açambarcadores perceberam é que Serra
estava tentando privatizar a Cesp às custas do governo federal, como se fosse
ele, e não Lula, quem tivesse ganho as eleições. Ou como se Lula tivesse de
implementar o programa de governo que foi derrotado nas urnas, e não aquele que
o povo escolheu. Por isso o funcionário da Suez-Tractebel diz que “obviamente
que o preço adotado pelo governo incluía a certeza das renovações, que na
verdade não existiam”.
Parece incrível que Serra pudesse achar que o
atual governo iria concordar em atuar como se ele, e não Lula, fosse o
presidente. Porém, na semana anterior ao leilão, foi anunciado por alguns
jornais que o BNDES financiaria de 30 a 50% dos recursos necessários para que as
multinacionais comprassem a Cesp. Não era claro de onde teria surgido essa
suposta notícia. O que era claro é que isso faria, ainda que parcialmente, o
BNDES repetir o papel desempenhado no governo Fernando Henrique, enchendo os
monopólios de dinheiro público para que comprassem estatais sem gastar tostão.
Mas, na tarde de segunda-feira, dia 24, foi o
próprio Serra quem anunciou que o BNDES financiaria os 30 a 50%. Um pouco depois
das 18 horas do mesmo dia, entretanto, a assessoria de imprensa do banco
divulgou uma nota onde dizia que “o BNDES não irá se pronunciar sobre o
assunto”.
Realmente, não seria necessário, visto que há
resolução do próprio banco decidindo investir em novas hidrelétricas, e não em
privatizar as já construídas, com “o objetivo de garantir o suprimento de
energia elétrica com qualidade, segurança e modicidade tarifária, atendendo às
necessidades da economia e da sociedade como um todo”. Convenhamos que nada
há mais longe disso do que a privatização da Cesp.
CARLOS LOPES
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