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Descaso da Prefeitura com a
saúde pública fez dengue explodir no Rio
Presidente do Cremerj, Márcia
de Araujo, culpa baixa abrangência do programa de Saúde de Família pelo caos no
município. “Em Niterói tem dengue, mas as pessoas são atendidas em policlínicas,
postos de saúde, unidades intermediárias. O Rio fez uma aposta equivocada”,
criticou o ex-secretário de Saúde de Niterói, deputado Chico D´Angelo. “O Rio
precisa mudar seu modelo de atenção primária”, reforçou o ministro Temporão
O município do Rio de Janeiro já registrou, este ano, mais
de 28.233 mil casos de dengue e a morte de 31 pessoas até a última quarta-feira,
dia 26. O número de casos superou, em menos de três meses, os 25.107 registrados
em todo o ano de 2007.
Para Elyne Engstrom, pediatra da Fiocruz, uma das principais causas que permitiu
a proliferação do mosquito Aedes aegypti foi a falta de adesão do município ao
programa Saúde da Família: “O problema no Rio é que a solução acaba sendo dada
nas emergências. A porta de entrada, o atendimento inicial, que é primordial na
dengue, é dificultada hoje. Não há cuidado continuado”, afirmou. No município, o
programa atinge apenas 8% da população do Rio, enquanto no país, a média é de
80%. “Sem mais médicos não haverá controle da dengue”, disse a presidente da
Cremerj (Conselho Regional de Medicina do Estado do Rio de Janeiro), Márcia Rosa
de Araujo. Ela também responsabilizou a baixa abrangência do programa de Saúde
da Família pelo caos nos hospitais do Rio e pelo crescimento dos óbitos.
A questão que se tornou um consenso entre os especialistas na área também foi
apontada pelo ministro da Saúde, José Gomes Temporão, que responsabilizou a
desestruturação do atendimento básico pela alta incidência de mortes na cidade
do Rio de Janeiro. “Falo isso desde que assumi o Ministério. Não é coisa nova. O
Rio precisa mudar seu modelo de atenção primária”, reforçou o ministro.
MODELO DE NITERÓI
“Em Niterói tem dengue, mas as pessoas são atendidas em policlínicas, postos de
saúde, unidades intermediárias. O município do Rio fez uma aposta equivocada”,
criticou o deputado federal Chico D´Angelo, que foi secretário de Saúde de
Niterói entre 2002 e 2006. Segundo balanço da Secretaria de Saúde de Niterói, a
cidade tem 902 casos de dengue notificados, 43 confirmados e nenhuma morte até
agora. A cidade descentralizou o atendimento através do Programa de Saúde da
Família.
O secretário estadual de Saúde do Rio, Sérgio Côrtes, também citou o exemplo de
Niterói como modelo a ser seguido por todos os municípios. “Queremos repetir o
modelo de Niterói, que está atuando de maneira satisfatória contra a dengue”. E
destacou: “apesar de só ter praticamente um hospital de emergência, nenhuma
morte por dengue foi registrada. Cerca de 80% do município é coberto pelo
programa de saúde da família, de atenção básica. O atendimento da população é
feito nos postos de saúde, o que faz com que as emergências não fiquem lotadas”,
destacou.
Para Roberto Medronho, epidemiologista da UFRJ (Universidade Federal do Rio de
Janeiro), é necessária uma mudança no programa de controle da doença. Segundo
ele, “pode haver epidemias piores se não houver essas mudanças”.
MEDIDAS DE EMERGÊNCIA
O governador do Estado, Sérgio Cabral, também afirmou que o caso do Rio de
Janeiro deve-se à falta de prevenção, pois nas cidades onde o programa Saúde da
Família foi efetivamente realizado, a incidência da doença é menor que em outros
locais. “É um trabalho de formiguinha que os municípios têm que fazer o ano
inteiro”, afirmou Cabral. O governador anunciou as medidas adotadas pelo governo
para combater a epidemia, entre elas a contratação de 300 agentes para operar
equipamentos de fumacê (fumaça tóxica ao mosquito).
O governo federal também iniciou as operações de emergência no Rio de Janeiro,
onde serão instalados três hospitais de campanha das Forças Armadas para atender
os portadores de dengue e ajudar a reforçar o trabalho das tendas ambulatoriais,
destinadas a aplicação de soro para evitar a desidratação dos doentes.
Segundo o ministro da Saúde, José Gomes Temporão, “estamos definindo os números
de leitos, consultórios e profissionais que serão envolvidos. Também estamos
recebendo o pessoal para combater o vetor”. “Assim que for definido onde os
hospitais serão instalados, as equipes serão enviadas para começar o trabalhar”,
afirmou. No dia 25, foram contratos os primeiros 100 profissionais, que estão
sendo distribuídos pelos hospitais do Andaraí, Bonsucesso, Ipanema, Lagoa e
Cardoso Fontes, em Jacarepaguá.
TRIBUNAL DE CONTAS
No relatório divulgado esta semana, o Tribunal do Tribunal de Contas do
Município confirmou que a Prefeitura do Rio gastou cerca de um terço dos R$ 18,1
milhões repassados pelo Ministério da Saúde em 2006 para o combate a dengue.
Segundo o relatório, parte dos recursos utilizados não foram aplicados
devidamente, e sim com outros gastos como o aluguel de ambulância e convênio com
a Companhia de Limpeza Urbana do Município (Comlurb) para a limpeza de
hospitais, o que é proibido pela Secretaria de Vigilância em Saúde do Ministério
da Saúde.
A Comissão de Saúde da Câmara Municipal do Rio está encaminhando uma denúncia de
“desvio de finalidade” junto ao Ministério Público para apurar os cortes de
recursos de combate a dengue por parte da Prefeitura.
JÚLIA CRUZ
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