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Denoy de
Oliveira, contribuição imperecível para a arte nacional
No
último dia 30, o cineasta, ator, teatrólogo - e colaborador do HP - Denoy de
Oliveira faria 75 anos. Sua contribuição ao cinema, como diretor, e ao teatro
brasileiro, sobretudo no Grupo Opinião, é imperecível – e seus pontos de vista
estéticos permanecerão uma referência para a arte nacional. Em sua homenagem,
republicamos hoje um de seus artigos, publicado em nossa edição de 19/10/1989.
Onde já se viu
Cabeça Chata Doutor?
No longo
processo de automutilação da nossa identidade, aprendemos que bonito mesmo é
fazer o perfil grego.
No cinema
pagamos caro pelos cânones e receituários de beleza. Já em 1944, Humberto Mauro
estava incomodado com tantas regras de fotogenia. “A teoria da fotogenia criou
raízes profundas e habituou mal o público. Criou também uma compreensão falsa de
beleza. Limitou a idéia,” (...) “a compreensão de beleza deve ser muito mais
vasta que aquelas impostas pelo cinema americano”.
Dois casos
para avaliar a barra. Um amigo cineasta (declino de dizer o nome porque já
falecido) lamentou que um dos problemas de se fazer cinema no Brasil é o do
nariz: “você pega uma atriz, muito bonita, corpo escultural, até boa atriz, mas
quando quer dar um close, ou um perfil, ela tem aquele nariz redondinho,
abatatado”.
Ou seja, a
miscigenação jogou farofa na estética do meu amigo.
Mais
recentemente temos o padrão da Globo comandando tudo, desde arranjos cênicos,
enquadramentos em padrões de fotogenia que avançam à discriminação. Depois de
assistir ao “Tigipió” (de Pedro Jorge), Cecil Thiré, uma das boas cabeças da
Globo, chegou-se entusiasmado para os atores, elogiando o filme e seu trabalho.
Mas enfatizou que tinha apenas um problema: estava tudo errado. Primeiro porque
Regina Dourado não poderia jamais ser uma virgem; precisaria que ela fosse uma
ninfeta. Quanto ao José Dumont, era inadmissível ele fazendo o engenheiro. Pra
engenheiro “teria que ser um Marcos Paulo”. Ou seja, cabaço é até os 13 e cabra
com cabeça chata não pode ser doutor.
Esses fatos
demonstram muito bem até que ponto uma estratificação estética é capaz de
aprofundar as dores de um povo e seu autodesmerecimento. O invasor, o nariz
fino, cabelo loiro e olhos azuis, é o representante de todos os bens e registros
divinos da Natureza. Cabe aos gentios com suas bocas rasgadas e narinas infladas
deitar procuração para os filhos de Apolo representarem suas dores e ambições na
vida. E voltemos a Humberto Mauro em 44: “Nós aqui no Brasil, devemos começar
desde já a seguir um caminho melhor. Produzir com absoluta independência
artística e técnica; produzir filmes nos quais a semelhança técnica e artística
com teorias impostas por qualquer escola, seja mera coincidência...”. |