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Os Pontos de
Cultura e a pulverização estéril dos recursos do Ministério
Projeto não
atende aos setores que têm uma produção de qualidade e relevância na cultura
nacional e se revela um desastre de gestão
14/02/2008
Triiimm.
- Secretaria de
Programas e Projetos Culturais do MinC.
- Alô, eu
represento uma entidade que tem um convênio de Ponto de Cultura e preciso de um
esclarecimento.
- Aguarde que
vou transferir.
- Alô.
- Alô, senhor,
minha entidade executou o convênio dos pontos de cultura direitinho, dentro do
prazo, e encaminhou a prestação de contas para o MinC, em dezembro de 2007. No
entanto, no Sistema Salic, ela consta como inadimplente. Não recebemos
comunicação do ministério a respeito disso e precisamos saber a razão, porque
isso nos traz problemas.
- Aguarde um
momento, por favor (...) Isso é estranho, você precisa falar com a Gerência de
Gestão.
26/03/2008
Triiimm.
- Alô, consegui
descobrir a razão de sua entidade estar no cadastro de inadimplentes.
- Muito
obrigado, o senhor é a sexta pessoa com a qual eu falo, depois de um mês e mais
de 50 telefonemas e e-mails para o ministério.
- A questão é
que vocês estão inadimplentes porque não pediram prorrogação do prazo para a
execução do convênio.
- Mas nós
executamos dentro do prazo.
- É?
- É.
- Mas todo
mundo pediu prorrogação. Quem não pediu ficou inadimplente.
- Meu amigo,
nós executamos e concluímos dentro do prazo. Encaminhamos a prestação de contas
em dezembro do ano passado. Já nos comunicamos com o setor de prestação de
contas, lá está tudo correndo normalmente. Mas a entidade está no cadastro de
inadimplentes. Eu queria saber o que precisamos fazer para ela sair desse
cadastro.
- Vocês
precisam encaminhar uma carta pedindo prorrogação do prazo de execução do
convênio, senão não dá para tirar, porque o sistema trava.
- Encaminhar
uma carta pedindo prorrogação para execução de um convênio já realizado?
- É o único
jeito.
- Mas as datas
dos pagamentos que constam da prestação de contas que está aí não vão entrar em
conflito com esse novo prazo de execução?
- Hummm
- Isso não vai
complicar ainda mais a situação?
- Hummm.
- Então?
- Hummm
- Olha, meu
amigo, agradeço a sua boa vontade em resolver o problema, mas não dá para
encaminharmos uma carta que amanhã pode ser usada contra nós. Só que precisamos
sair desse cadastro de inadimplentes, porque isso nos impede de fazer qualquer
outro convênio com órgão federal, e não é justo. Estamos sendo punidos porque
respeitamos os prazos.
- De fato, não
é justo.
10/10/2008
A situação é a
seguinte: a entidade saiu do cadastro de inadimplentes em abril, mas o convênio,
concluído há um ano, consta, até hoje, como estando “em vigência”, ou seja, “em
execução”, apesar de não haver nenhuma carta ou pedido formal para a prorrogação
de seu prazo. E o prejuízo provocado pelos 50 dias de interdição? Por enquanto,
está nas costas da entidade.
Quando o relato
acima chegou à redação fomos checar para saber se era uma peça de ficção de
inspiração kafkiana. Não era. Estava bem documentada, com os movimentos
descritos registrados até mesmo no site do Minc. Já havíamos publicado algumas
matérias sobre o programa, em 10/2/2006 e 13/9/2006, apontando que por trás de
eufemismos como “democratização” e “descentralização” escondia-se uma política
de pulverização estéril dos recursos do Minc destinada a minar a capacidade de
resistência de nossa cultura frente aos oligopólios da indústria cultural.
Renunciando a
enfrentar a realidade da perversa monopolização do mercado pelos produtos das
multinacionais do entertainement, o então ministro Gilberto Gil voltou as costas
aos setores da cultura nacional que têm uma produção relevante cuja afirmação no
mercado depende apenas de que o Estado cumpra o seu papel de desobstruí-lo. Para
compensar, programou distribuir verbas ao lumpesinato cultural disposto a
aplaudir seus discursos. Não podia dar em boa coisa...
Mas aqui no HP não
bastam opiniões e previsões. O rigor jornalístico impõe que as teses sejam
confrontadas com os fatos. Encomendamos então ao Departamento de Pesquisas
Orçamentárias da redação um levantamento amplo da situação dos Pontos de
Cultura, que integram o programa Cultura Viva. As informações foram levantadas
nos sítios do MinC, da Controladoria Geral da União e da Comissão de Orçamento
do Senado. A primeira informação que nos chegou não era nada animadora. Em 2008,
até meados de outubro, dos cerca de R$ 140 milhões previstos para serem gastos
com os Pontos de Cultura, apenas R$ 7 milhões haviam sido efetivamente pagos. Ou
seja, em 10 meses apenas 5% do orçamento foi executado. Solicitamos aos técnicos
um levantamento mais detalhado.
Segundo as regras
estabelecidas nos editais do MinC, para ser um Ponto de Cultura é preciso
apresentar um projeto com duração de cinco semestres. Os editais iniciais
previam um desembolso, por parte do ministério, de R$ 150 mil, em cinco
parcelas. A organização proponente receberia os valores a cada seis meses, sendo
que para receber a terceira parcela deveria prestar contas da primeira, para
receber a quarta, da segunda e para receber a quinta, da terceira, nos termos da
Instrução Normativa 01/97 da Secretaria do Tesouro Nacional. Nossos
especialistas em contas públicas selecionaram então todos os Pontos de Cultura
das capitais cujo Plano de Trabalho já deveria ter sido concluído. Isto é, todos
aqueles que firmaram convênios entre dezembro de 2004 e dezembro de 2005. Nessa
situação encontram-se 199 Pontos de Cultura (incluídos aí os Pontões e Pontos de
Rede). É uma amostra significativa: quase 25% dos 824 Pontos de Cultura
existentes ou em implantação. Todos eles, segundo as normas do programa,
deveriam ter concluído as suas atividades (cinco semestres), apresentado a
prestação de contas final (60 dias após a conclusão do trabalho) e, até o mês de
outubro de 2008, deveriam estar disponíveis os pareceres sobre a regularidade
das despesas (60 dias após a apresentação da prestação de contas final). Vejamos
o resultado da pesquisa:
|
199
Pontos de Cultura que já deveriam ter concluído o Convênio |
|
Já receberam a última parcela há mais de 6 meses |
30 |
15,10% |
|
Receberam a última parcela há menos de 6 meses |
12 |
6,03% |
|
Receberam alguma parcela há menos de 1 ano |
60 |
30,15% |
|
Não recebem repasses há mais de 1 ano |
45 |
22,60% |
|
Não recebem repasses há mais de 2 anos |
33 |
16,58% |
|
Não recebem repasses há mais de 3 anos |
19 |
9,54% |
Esperávamos algum
descontrole, mas não tamanha esculhambação. Olhando os números a seco já
concluímos que, dos 199 conveniados há três anos ou mais, apenas 30 talvez
tenham concluído o seu plano de trabalho. Ou, para ser mais enfático: 85% dos
Pontos de Cultura não cumpriram o convênio que assinaram com o Ministério da
Cultura. Mais: Quase metade deles não recebe um centavo há mais de um ano. E
mais de um quarto deles provavelmente só recebeu as duas primeiras parcelas e
não conseguiu apresentar nenhuma prestação de contas.
Já seria um quadro
desastroso. Mas nossos eficientes técnicos em orçamento fuçaram um pouco mais
nos registros do MinC, procurando saber a situação dos 30 que, supostamente,
teriam conseguido cumprir o objeto do convênio. A situação é a seguinte:
|
30
Pontos de Cultura já receberam a última parcela há mais de 6 meses |
|
Já apresentaram prestação de contas |
7 |
23,33% |
|
Estão inadimplentes |
4 |
13,33% |
|
Não Apresentaram prestação de contas |
2 |
6,67% |
|
Solicitaram prorrogação |
17 |
56,67% |
Dos trinta
convênios que poderiam ter sido concluídos, apenas sete apresentaram prestação
de contas! Ou seja, de 199 convênios que já deveriam ter sido encerrados apenas
3,51% realmente foram. Mais uma vez, para ressaltar: em 199 Pontos de Cultura
analisados, encontramos 192 convênios assinados e não cumpridos. Destes, 157 não
receberam o total de recursos, sendo que 94 não tiveram seus prazos prorrogados,
e 63 contaram com o beneplácito do MinC, ganhando prazos de execução que chegam
a 66 meses, frente aos 30 previstos no convênio.
Implacáveis com os
números, nossos técnicos ainda foram descobrir o quanto significava a bagunça em
termos de recursos financeiros. O valor dos convênios e dos recursos
efetivamente pagos aos 199 Pontos de Cultura que compõem a nossa amostragem é o
seguinte:
|
Valor Conveniado |
R$ 33.417.953,41 |
100,00% |
|
Valor Pago |
R$ 20.293.800,60 |
60,73% |
|
A
Pagar |
R$ 13.124.152,81 |
39,27% |
Significa dizer
que, na média, os Pontos de Cultura conseguiram receber apenas as três primeiras
parcelas do convênio. Dos R$ 20 milhões pagos a esses 199 conveniados, cerca de
R$ 11,3 (55,89%) foram dados a proponentes hoje inadimplentes. Vê-se onde a
coisa emperrou: na prestação de contas. Quando foi necessário apresentar a
comprovação do uso dos recursos, a maioria não conseguiu. Uns, ao que parece,
simplesmente desistiram. Outros pediram prorrogação. Agora faz sentido a
afirmação do funcionário do Ministério da Cultura: “Mas todo mundo pediu
prorrogação.”. E faz também sentido a história que nos foi relatada.
Realizar ou não o projeto pouco importava. A intenção do ministro era mesmo a de
fortalecer os setores desorganizados – e não organizáveis – da cultura nacional
para contrapô-los aos setores que viam no governo Lula a oportunidade ímpar de
restabelecermos a nossa soberania também na área cultural. E, dessa forma,
distribuindo algumas migalhas, manter o seu projeto pessoal de servilismo
incondicional às multinacionais da indústria cultural.
Gil, felizmente,
se foi. Ou melhor, quando viu que a coisa iria estourar, se mandou, deixando a
batata quente nas mãos do sucessor. O projeto que antes era alardeado como
panacéia para os males da cultura nacional revela-se um desastre de gestão, sem
resultados concretos a não ser um exército de organizações inadimplentes frente
ao governo federal. Tivesse o agora titular do Ministério da Cultura algum tino,
adotaria uma postura à Zeca Pagodinho quanto ao seu antecessor: “nunca
vi nem comi, eu só ouço falar”.
O programa Mais
Cultura, lançado pelo ex-ministro com muita pompa e purpurina – e que não dá
nenhum passo há mais de um ano -, tinha como esteio justamente os Pontos de
Cultura. Prometia povoar o país com vinte mil deles. Ou seja, multiplicaria por
100 a lambança descrita acima. Segundo consta, a solução que o MinC pretende
adotar para salvar as aparências é firmar convênios com estados e municípios
para que eles passem a instalar e fiscalizar os Pontos de Cultura, repassando os
recursos e recebendo as prestações de contas. Mas o problema é encontrar
prefeituras e governos estaduais dispostos a aceitar o presente de grego.
Não pretendemos, é
claro, juntar nosso discurso aos setores conservadores que bradam contra o
eterno desperdício de recursos públicos para advogar o Estado mínimo. A posição
do HP sempre foi a do Estado máximo. Também sempre defendemos o aumento de
recursos para a Cultura. Mas insistir em esterilizar os poucos recursos
orçamentários em ações que apenas facilitam a vida das corporações do
entretenimento e não enfrentar os problemas reais da cultura no Brasil – sejam
eles financeiros ou políticos - é favorecer os inimigos de nossa cultura e de
nossa nação. E com isso não podemos concordar.
VALÉRIO BEMFICA |