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Pochmann defende
menos juros contra a queda do crescimento
“O crescimento do
ano que vem já seria menor que o deste, em função da elevação da taxa de juros
no início do ano. Já teríamos uma economia menos aquecida e pode estar muito
menos por efeito da crise”, alerta o presidente do Ipea
Durante a
apresentação do estudo “Distribuição Funcional da Renda no Brasil”, o presidente
do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), Marcio Pochmann, afirmou que
em relação ao momento atual não se pode cortar investimentos, nem os programas
sociais. “Também sou favorável a reduzir o gasto público, mas o gasto com juros.
Precisamos perguntar à população se está satisfeita com o serviço de saúde, se a
educação atingiu um nível de qualidade que não precisa de mais recursos,
construção de escolas... Todos defendem o corte dos gastos. Então pergunto onde
cortar?”, disse.
Pochmann
destacou o alto volume de recursos que são torrados com juros anualmente. “No
ponto de vista da composição do gasto, o Estado gasta somas significativas com
juros, são 7% do PIB, que comprometemos anualmente com juros. Juros é renda da
propriedade, é uma contribuição para o aumento da desigualdade da renda”,
observou.
Para o
presidente do Ipea, destinar recursos para investimento, infra-estrutura, saúde
e educação ”não é aumentar gastos, é melhorar sua composição”.
Pochmann
explicou que o aumento dos juros ocorrido a partir de abril deste ano terá seus
reflexos sobre a economia no primeiro trimestre de 2009: “Ao elevar a taxa de
juros, o efeito não é imediato. Demora cinco, seis meses. Já vamos ter um efeito
da crise possivelmente no início do primeiro trimestre do ano que vem. Mais a
desaceleração provocada pela elevação da taxa de juros”.
“Não entendemos que temos uma inflação de demanda, que justificaria a elevação
da taxa de juros. Hoje vivemos um quadro de redução de preço das commodities”,
argumentou.
Segundo o
economista, o Brasil está com “uma tendência satisfatória” em relação ao
enfrentamento das desigualdades, com a renda do trabalho crescendo desde 2004.
“A questão é como manter essa tendência. Do contrário podemos voltar a uma
situação muito insatisfatória”, frisou.
EMPREGO
“O que pode
manter a situação é a sustentação do nível de atividade. Pode se dar na
recomposição do gasto público, reduzindo em algumas áreas e aumentando em
outras, porque são mais intensivas em bem-estar, emprego e remuneração e ao
mesmo tempo, ações voltadas a manter aquecidas as empresas não-financeiras. A
administração pública e as empresas não-financeiras correspondem a 85% da renda
do trabalho”, disse.
Ele observou
que a renda do trabalho no Brasil é de cerca de 40% do PIB. “A renda do país não
é formada só de trabalho, tem outras formas que a gente chama de renda da
propriedade (daqueles que têm uma propriedade e a usam para adquirir outra
renda), por exemplo, quem tem uma fábrica, empresa ou estabelecimento
comercial”, sublinhou.
Ao ser
questionado se o mercado está projetando aumento de inflação para este ano,
Pochmann respondeu ironizando: “Qual mercado? O financeiro?”. E acrescentou: “O
mercado financeiro representa 7% da renda dos trabalhadores. Temos que pensar no
mercado produtivo, porque é a maior parte”.
Ao responder
como se comportará em caso de manutenção os redução dos juros, afirmou: “Se a
economia desacelera e mantemos a taxa de juros nesses patamares, não aquece
tanto, vai apenas desacelerar menos, porque já estamos num quadro de
desaceleração. O crescimento do ano que vem já seria menor que o deste, em
função da elevação da taxa de juros no início do ano. Já teríamos uma economia
menos aquecida e pode estar muito menos por efeito da crise”.
Em caso de
aumento dos juros, avaliou que “aprofunda o ritmo de desaceleração. Ao mesmo
tempo, contribui para mandar mais água para os moinhos dos proprietários”.
As últimas
projeções do Fundo Monetário Internacional (FMI) apontam uma variação de 3,7% na
economia mundial em 2008, caindo para 2,2% no ano seguinte. No mesmo período, os
países industrializados despencarão de uma variação positiva de 1,4% para uma
contração de 0,3%; já os chamados países emergentes, passarão de um crescimento
de 6,6% para 5,1%. Dos BRICs, o Brasil registrará o menor crescimento, saindo de
5,2% para 3,0%. A China apresentará a maior expansão em todo o mundo: 9,7% este
ano e 8,5% em 2009.
Convém
registrar que na China a taxa de juros reais é de 2,2% ao ano e recentemente
divulgou um pacote de R$ 1,23 trilhão de investimentos públicos em obras de
infra-estrutura, estímulo à produção, novas instalações públicas e moradias.
No Brasil, a taxa real de juros está em 7,9% ao ano, a maior do mundo, que tem
segurado um impulso maior da economia, mesmo com todo o esforço do governo em
ampliar os investimentos públicos, com o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC).
Em um
momento de profunda desaceleração das economias dos países centrais – algumas em
recessão -, tem mais força ainda o argumento de Marcio Pochmann, de cortar os
gastos com juros e aumentar as ações produtivas para manter o nível de
atividade, isto é, o nível de crescimento de cerca de 5% ao ano, já registrado
em 2007 (5,4%) e que deverá repetir neste ano (estimado em 5,2%). Pois o que se
trata não é de como devemos nos acomodar à crise, mas como crescer nessa
situação. Como aconteceu, aliás, em épocas passadas, e cujo maior exemplo
aconteceu na década de 30, quando o Brasil se transformou de uma grande fazenda
agro-exportadora em um país industrializado.
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