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Veja falsifica declarações de Protógenes
A “Veja” saiu, no fim de semana, com mais um
daqueles panfletos, sem parentescos com matéria jornalística ou reportagem,
dessa vez afirmando que obteve a gravação da reunião que a direção da PF
promoveu com o comando da Operação Satiagraha em julho – e que nesta gravação o
delegado Protógenes Queiroz confessaria que grampeou o presidente do Supremo
Tribunal Federal, Gilmar Mendes.
Queiroz teria afirmado, em certa altura da
reunião: “Nós sabíamos que tinha um HC (habeas corpus) já preparado, já um
outro HC, que estava sendo gestado no gabinete no Supremo Tribunal Federal... né?
E em escritórios de advocacia. Isso em trabalho de inteligência que nós...”.
E, logo em seguida, o delegado teria “ironizado”: “Vão surgir notícias de que
nós grampeamos o Supremo, que a Abin grampeou...”.
E isso é tudo. Nada mais há em todo o panfleto
de “Veja” que seja fato – ou possa ser fato – exceto esse trecho. O resto são
calúnias e difamações contra o chefe da Abin, Paulo Lacerda, contra Protógenes
e, em especial, contra o juiz De Sanctis, chamado de nazista por ter defendido
que a democracia é o império da vontade do povo – naturalmente, para “Veja” a
democracia é o império da vontade do Civita, dos amigos do Civita e dos patrões
americanos do Civita, sem esquecer dos sul-africanos do apartheid que são sócios
do Civita e, claro, da vontade do Daniel Dantas. Já a vontade do povo, é
“nazismo”.
CÓPIA
Mas, voltando aos fatos, isto é, ao trecho da
gravação: alguém vazou para “Veja” a gravação da reunião da PF. Não é necessário
que seja alguém da PF, pois o trêfego deputado Raul Jungmann, puxa-saco de
Dantas que pediu ao Conselho Nacional de Justiça que abra processo contra o juiz
De Sanctis, andava por Brasília exibindo uma cópia da gravação que, segundo
disse, iria entregar a Gilmar Mendes. Supõe-se que Jungmann tenha obtido a
gravação na mal chamada “CPI do Grampo”, cujo presidente, Marcelo Itagiba, é um
mix de serrista e dantista (se é que são duas coisas diferentes).
No entanto, em três horas de reunião, o único
trecho reproduzido por “Veja” é o que nós citamos.
Como é que pode? Por que somente esse trecho é
reproduzido, de três horas de gravação?
Primeiro, porque só esse trecho, retirado do
contexto, isolado e, portanto, deformado, presta-se à falsificação que é o
objetivo de “Veja”. Entretanto, até para a “Veja” é uma falsificação muito
imbecil. Nem chega a ser grosseira. É, simplesmente, idiota.
Aos fatos: o primeiro habeas corpus era público
– o habeas corpus “preventivo” impetrado por Daniel Dantas depois que alguém na
PF vazou a Operação Satiagraha e ela foi revelada num artigo de Andrea Michael,
da “Folha de S. Paulo”, em abril deste ano. Diante da prisão iminente, Daniel
Dantas viajou com a irmã e cúmplice, Verônica, para a República Dominicana,
esperando que seus advogados entrassem com o pedido de habeas corpus no STF.
Por que os advogados demoraram a entrar com o
pedido? Nas gravações feitas com autorização judicial pela Operação Satiagraha,
Dantas, seus sequazes e advogados discutem quem era o melhor ministro do STF
para que esse habeas corpus fosse concedido – o melhor, dizem, é Gilmar Mendes,
mas não é seguro que o pedido caia no colo do favorito. Alguém chega a levantar
que Eros Grau, a quem coube, realmente, esse pedido de habeas corpus, não seria
má opção para os interesses de Dantas. Mas este acha arriscado confiar na
decisão de Grau. Por isso, Dantas só volta ao Brasil depois que o STF entrou em
férias e Gilmar Mendes estava respondendo por suas decisões, como presidente do
tribunal.
Logo em seguida, Dantas foi preso. Seus
advogados conseguiram, com o pedido de habeas corpus já dentro do STF,
transformar um habeas corpus “preventivo” num habeas corpus “liberatório” - o
que foi aceito (alguns dizem: orientado) por Gilmar Mendes, apesar de, como
frisou o ministro Marco Aurélio Mello, isto ser uma irregularidade jurídica, que
tinha como consequência fazer com que um único pedido de habeas corpus servisse
para qualquer prisão.
Foi, aliás, o que aconteceu em seguida, quando
Dantas foi solto por Gilmar Mendes sem que entrasse com outro pedido de habeas
corpus e, depois, solto mais uma vez, com o mesmo pedido de habeas corpus,
porque Mendes ignorou que a segunda prisão teve motivos diferentes da primeira.
IRONIA
O habeas corpus, portanto, foi detectado pela PF
através da escuta com autorização judicial de Daniel Dantas, de sua irmã, e das
conversas que eles mantêm com seus advogados. Tudo isso está no primeiro
relatório da Operação Satiagraha e nada foi obtido – até porque não era
necessário – pela escuta do presidente do STF.
Exatamente por esta razão, o delegado Queiroz
diz, como a própria “Veja” descreve, em tom irônico: “Vão
surgir notícias de que nós grampeamos o Supremo, que a Abin grampeou...”. O
motivo pelo qual ele “ironiza” (sic) essas futuras notícias é, precisamente,
porque elas são falsas – caso contrário, não seria “ironia”. Que o escriba de
“Veja” não perceba que está se contradizendo quando fala do tom “irônico” em que
o delegado falou a última frase, somente demonstra que o sujeito é uma besta.
Mas é esse tipo de muar, que não sabe nem o que significa ironia, que o Civita
consegue contratar hoje em dia.
Há outra razão para que “Veja” omita quase toda
a gravação. Tudo indica que o resto da gravação não é nada favorável nem a
Dantas, nem a “Veja”, nem aos que destituíram Queiroz da chefia do inquérito –
cujas conclusões acabam de ser confirmadas pelo delegado que o substituiu. Por
exemplo, é sabido que em determinado momento o delegado Protógenes diz a um dos
seus interlocutores que sabe que foi ele quem vazou a Operação Satiagraha para a
imprensa, e, em seguida, esse interlocutor admite e se desculpa, dizendo que
“como um dos mais velhos delegados da PF”, não poderia ter cometido esse erro.
Nenhum dos delegados que comandaram a Satiagraha se enquadra nessa descrição.
Todos são relativamente jovens - e novos como delegados. Logo, supõe-se que o
vazador confesso tenha sido um dos diretores da PF presentes à reunião.
CARLOS LOPES
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