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A economia
financeira e a lógica do cassino
CARLOS LESSA (*)
Em recente visita ao Brasil, Joseph Stiglitz afirmou, apoiado na melhor doutrina
keynesiana, que os bancos centrais europeus e o Fed perderam eficácia para
reanimar suas respectivas economias. Nos últimos 90 dias, houve uma sucessão de
reduções significativas de juros em economias que já praticavam juros bastante
reduzidos. Keynes chamava a atenção que a preferência pela liquidez,
característica da situação de crise, não consegue ser revertida pela redução de
juros.
Stiglitz lembrou que a economia japonesa, marcada por uma forte recessão durante
os anos 90, foi acompanhada pelo aumento de poupança e cenário de juros reais
negativos. Isto fez com que, além da migração das matrizes japonesas para fora
do mundo, as poupanças fossem todas orientadas para aplicações puramente
financeiras, sem reanimar o crescimento da economia nacional japonesa.
A hipertrofia arrogante do neoliberalismo, quando não cancelou, subordinou a
política fiscal às orientações monetárias, financeiras e cambiais. Despojou os
Estados nacionais de suas instituições interventoras na economia, privatizou
tudo o que pôde e encapsulou as regulações de políticas setoriais específicas em
agências em parte blindadas à atuação política do poder Executivo. Na crise
atual, não sabem a extensão em que estão a securitização e os “produtos”
financeiros engendrados pela criatividade bancária (como formas de competição no
mercado de capitais) dos derivativos multiplicados fora do controle dos bancos
centrais. Não sabem a extensão e a complexidade da rede que a financeirização do
mundo engendrou sob o hino triunfal da supremacia do mercado. Fernandinho
Beira-Mar tinha contas bancárias nos principais bancos americanos, um no Kuwait
e em outro no Paquistão. As relações intra-bancos de grande nome e tradição se
enlaçam pelos derivativos, pelos fundos complexos e alavancados via paraíso
fiscais. O Banco Central é sempre surpreendido a extensão e variedade de
conexões pouco convencionais.
Não é esta a situação do Banco Central brasileiro, super equipado
institucionalmente, e agora reforçado com absoluto arbítrio pela MP 443. Pratica
o mais elevado juro real do planeta, com a esperança de trazer para o Brasil
dólares em busca de uma apetitosa remuneração. Acredita que, com este juro
estratosférico, beneficia todos os fundos de pensão complementares. Considera
que, ao forçar o Ministério da Fazenda a priorizar os recursos para o pagamento
dos juros, contém e atenua a propensão da política fiscal de se espalhar em
gastos não-financeiros. Altos juros e deficiências na infra-estrutura de energia
e logística inibem o investimento privado e reduzem componentes perigosos de
tendência ao crescimento.
Nosso Banco Central sabe que, com seus juros altos, situa os bancos brasileiros
nas mais elevadas taxas de rentabilidade, pois tem o cuidado de beneficiá-los,
aprovando tarifas que, por si só, já lhes dão lucros operacionais. Vê na âncora
cambial o grande instrumento de controle da alta de preços em reais. Acha que,
mantendo elevado o juro real, atrai dólares que valorizam o real e ampliam as
reservas cambiais. São estas as reservas que blindam, em parte, o Brasil do
vendaval. A economia financeira se baseia na confiança recíproca entre os
operadores e os que gostam de jogar neste cassino. Se hoje o Banco Central
brasileiro começasse a baixar seus juros, suspeito que reduziria
significativamente a confiança. Aliás, quando anuncia que vai socorrer operações
de montadoras de veículos, projetos imobiliários, bancos em situação difícil etc,
com cada anúncio mina a confiança.
Seria necessário reexercer, na plenitude, a soberania nacional. Deveria-se ter
conhecimento real da extensão em que empresas, inclusive bancos atuantes no
Brasil, se debruçaram e se enredaram em derivativos à escala cósmica. Todos que
tivessem haveres ou deveres em moeda estrangeira deveriam registrá-las no BC.
Não podemos dormir num dia com Sadia, Aracruz, Votorantim e Vicunha em boa
situação e descobrir, pela manhã, que nem elas próprias sabem a extensão das
suas perdas. No caso da Aracruz evoluiu de R$ 1,5 bilhão para, em oito dias, U$
2,5 bilhões.
Todas as operações cambiais deveriam ser centralizadas no Banco do Brasil. E o
Banco Central esclareceria o modo pelo qual esses recursos vitais seriam
manejados de modo a proteger o escudo das reservas cambiais.
Foi interessante a fusão do Itaú com o Unibanco. Tenho acompanhado a discussão
pela qual o Banco do Brasil deveria absorver outras instituições bancárias para
conquistar o tamanho Itaú+Uni-banco, que justificou seu matrimônio para fazer
frente ao Santander (que, no Brasil, cresceu pela proibição de o Banco do Brasil
adquirir o Banespa). Quero, independente do mérito das aquisições que o Banco do
Brasil venha a fazer, votar a favor de uma “holding financeira” que integre as
operações do Banco do Brasil com as da Caixa Econômica; que recupere, para o
Banco do Brasil, as atividades de Banco Postal, nas quais foi pioneiro. Isto
seria percebido pelo povo e pelo setor empresarial como o nascimento de um
complexo bancário de porte.
As operações perdedoras dos bancos privados não devem ser transferidas a
critério do Banco Central calçado nos superpoderes da MP 443. O banco privado
perdedor não pode quebrar, mas os seus donos não podem migrar para Miami ou
Cayman. Se a previdência complementar estiver acumulando perdas patrimoniais por
operações em renda variável, cabe rediscutir o tema e fazê-lo retornar ao âmbito
do sistema previdenciário oficial.
A crise já está castigando - e vai castigar - uma quantidade imensa de pessoas
que não têm culpa nem participação na financeirização. O modo de defendê-las é
discutindo um projeto nacional para o Brasil. Porque não creio que exista no
mundo - a não ser no BC brasileiro - possibilidade de retorno à globalização
financeira do passado.
*Carlos Lessa é economista, ex-presidente do BNDES e ex-reitor da UFRJ
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