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O caso “Gilmar Dantas”
O lapso de um jornalismo relapso
GILSON CARONI FILHO (*)
Este artigo foi originalmente escrito para o
Observatório da Imprensa. Publicá-lo, com versão ampliada em Carta Maior, é uma
forma de aumentar os espaços de discussão para os que ainda acreditam que um
outro jornalismo é possível. Aqueles profissionais que recusam, na medida do
impossível, qualquer prática jornalística que solicite desvios éticos,
distorcendo a realidade e caluniando quem considera adversário político. Uma
aposta difícil, mas irrecusável.
Quando a imprensa abre mão de ser uma instância
de afirmação republicana – e é preocupante a freqüência com que isso vem
ocorrendo diariamente – não comete apenas um grande desvio: deixa mesmo de ser
imprensa para se tornar departamento de negócios diversos.
É sempre bom recordar o que disse Washington
Novaes: “jornalismo não é profissão a ser exercida em nome próprio”, mas por
delegação da sociedade, a quem legitimamente pertence a informação. Em tempos de
enganos nem sempre involuntários, um legítimo, de safra recente, deve ser
examinado com humor e atenção. Apresenta-se como subtexto absurdo de intenções
inconfessas.
O texto postado por Ricardo Noblat, sexta-feira,
14 de novembro, em seu blog supostamente jornalístico, nada mais é do que um ato
falho, um desejo do inconsciente realizado através de um equívoco. É bom lembrar
que para Freud, esses desvios eram sintomas de um compromisso entre o intuito
consciente da pessoa e o reprimido. Se tivesse acesso ao que escrevem alguns
jornalistas da grande imprensa nativa, vários conceitos psicanalíticos seriam
revistos à luz da razão cínica que predomina nas redações.
Em poucas linhas, Noblat afirma que “o
ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional, general Jorge Felix, já
identificou o araponga da Agência Brasileira de Inteligência que grampeou a
conversa travada por telefone entre o ministro Gilmar Dantas, presidente
do Supremo Tribunal Federal, e o senador Demóstenes Torres (DEM-GO). Trata-se do
mesmo araponga que entregou à revista VEJA a transcriação da conversa”.
Ao misturar o prenome do ministro com o
sobrenome do banqueiro, o jornalista deu forma ao que os dicionários definem
como simbiose: “associação entre dois seres vivos que vivem em comum”. Um
espécime que só existe no plano ideal da politização do Judiciário e da mídia
partidarizada.
Importante destacar que, no mesmo dia, o
jornalista postou um comentário com título sugestivo:” Uma nova vaia faria
bem a Lula”, sugerindo hora e local: “Seria bom para o excesso de
auto-estima de Lula que ele fosse vaiado durante o jogo da próxima quarta-feira
em Brasília entre a Seleção Brasileira e a Seleção de Portugal. A vaia que ele
tomou no Maracanã na abertura dos Jogos Pan-Americanos já faz mais de um ano”.
É bom observar as angústias dos impolutos Catões
da mídia e compreender as angústias que os afligem. Afinal, a crise econômica
ainda não chegou com a intensidade por eles desejada. E o noticiário já dá
mostras de qual será sua tônica nos próximos meses: a desconstrução simbólica de
Lula, se possível com “argumentos” para torná-lo inelegível a partir de 2010.
Relatos tão fidedignos quanto a “transcriação” de fatos e fitas. Insondáveis são
os motivos que levam ao surgimento de neologismos tão expressivos.
Repito o que escrevi em artigo escrito
recentemente publicado. O que permite tamanha desenvoltura na desfaçatez é a
conjunção dos bem-intencionados que nada percebem com a esperteza dos bem
selecionados peixinhos do “aquário”.
É interessante a cadeia alimentar do campo
jornalístico. Da labuta dos peixes de mercado, os ornados e pomposos extraem os
nutrientes para os interesses dos peixões associados em empreendimentos
políticos e econômicos. Qualquer advertência crítica à perfeição desse
“ecossistema” soará como grito paranóico. Mas a leitura atenta não pode ceder
aos reclamos do senso comum das redações.
Afinal, é lá que está sendo concebido o bloco de
poder sonhado pela direita nativa: aquele tem no comando o “Gilmar Dantas” do
blogueiro. É dura a disputa para saber quem ficaria como porta-voz da
presidência. Mas pelas afinidades político-estilísticas, qualquer escolha será
aplaudida pela “bancada dos analistas confiáveis”. Distintos senhores e
distintas senhoras, espalhados nos mais diversos veículos, fazem desse sonho
profissão de fé.

P.S: Quando esse artigo estava pronto,
Ricardo Noblat, alertado por seus leitores, revisou o texto.
Ou seria melhor falarmos em retificação de
ato falho? Mas, como seguro morreu de velho, já havíamos feito um “screeenshot”.
(*)
É professor de Sociologia das Faculdades Integradas Hélio Alonso (Facha), no Rio
de Janeiro
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