|
Juro alto contraria esforços do governo para
estimular crédito
Afirma o documento entregue pelas centrais
sindicais ao ministro do Trabalho, Carlos Lupi,
em reunião realizada na última quarta-feira
Dirigentes das centrais sindicais (CUT, Força,
CGTB, CTB, Nova Central e UGT) entregaram, na
última quarta-feira (19), para o ministro do
Trabalho, Carlos Lupi, o documento dos
trabalhadores propondo medidas para o Brasil
manter a geração de empregos e se proteger dos
efeitos da crise internacional. Na opinião das
centrais, é necessário fortalecer o mercado
interno e reduzir a vulnerabilidade da economia,
algo que não será possível com os juros nos
patamares em que estão.
Por isso, apontam os trabalhadores, é preciso
“reduzir os juros como vem ocorrendo no mundo
inteiro. Como é possível desenvolver todo o
potencial da economia brasileira com os juros
reais mais altos do mundo?”.
A
divulgação do manifesto, que seria feita na V
Marcha da Classe Trabalhadora, que será
realizada dia 3 de dezembro, foi antecipada
devido o acirramento dos efeitos da crise.
GRUPO DE TRABALHO
Embora as medidas macroeconômicas tenham sido
destacadas pelos dirigentes, o encontro com o
ministro Carlos Lupi focou a discussão das
medidas diretamente relacionadas à pasta. Após a
reunião, em entrevista coletiva, Lupi anunciou
que assinaria no dia posterior (20) uma portaria
criando um grupo de trabalho, formado por
membros do ministério e representantes das
centrais, para monitorar todos os investimentos
realizados com recursos do Fundo de Garantia do
Tempo de Serviço (FGTS) e ao Fundo de Amparo ao
Trabalhador (FAT), liberados pelo governo para
estimular o crédito e para obras de
infra-estrutura.
O
ministro destacou que o grupo terá a função de
verificar se o dinheiro do FAT e do FGTS,
recursos dos trabalhadores, estão sendo
aplicados e gerando empregos. Esta medida
contempla um dos pedidos das centrais expostos
no documento de que “todo e qualquer recurso
público para ampliar a liquidez do sistema
bancário e crédito aos setores produtivos deve
ser acompanhado de contrapartidas sociais na
aplicação dos mesmos, notadamente a preservação
dos empregos”.
De
acordo com o presidente da CGTB, Antonio Neto, o
esforço do governo em estimular o setor
produtivo está sendo anulado pelo Banco Central.
“O governo liberou o compulsório para que o
dinheiro chegasse às empresas. Mas os bancos,
diante dos juros elevados e da falta de
controle, estão especulando com títulos
públicos. Atualmente, as empresas estão pagando
até 8% ao mês para descontar uma duplicata nas
mãos de agiotas porque não existe crédito na
praça. O dinheiro precisa chegar ao setor
produtivo”, disse. Além da medida citada, Lupi
disse que se empenhará para garantir as outras
propostas listadas pelos sindicalistas, como a
aprovação da lei no Senado que dá continuidade à
política de valorização do salário mínimo,
negociada com o governo, a ampliação do número
de parcelas do seguro desemprego, estendendo-o
aos trabalhadores rurais, o empenho para retirar
todos os projetos de lei em tramitação no
Congresso Nacional que objetivem a
flexibilização das relações de trabalho e a
desoneração tributária dos produtos de consumo
popular.
Após o encontro, Neto afirmou ainda que as
empresas, sobretudo as multinacionais, estão
demitindo seus funcionários alegando problemas
financeiros e, ao mesmo tempo, estão remetendo
dinheiro para o exterior. “Depois chegam ao
governo com o pires na mão”, disse Neto,
ressaltando que é por isso que as centrais estão
propondo um controle maior sobre o fluxo de
capitais, um programa de substituição de
importações para aprofundar o processo de
fortalecimento do mercado interno e
industrialização do país, reiniciado por Lula.
SOCIAL
Para o secretário geral da CUT, Quintino Severo,
é necessário que os investimentos feitos pelo
governo busquem garantir o retorno social e não
priorizem a liquidez do mercado financeiro. “Não
adianta o governo liberar o compulsório para o
Itaú comprar o Unibanco”, afirmou. Quintino
destacou que as principais medidas a serem
tomadas são as três primeiras enumeradas no
documento das centrais: reduzir os juros,
implementar políticas econômicas com base nos
recursos públicos, objetivando manter e ampliar
o nível de emprego, e manter os programas
sociais de investimento público que são
fundamentais para contrabalançar a inevitável
redução do investimento e do consumo privados.
O
deputado federal e presidente da Força Sindical,
Paulo Pereira da Silva, solicitou que o ministro
Lupi tentasse marcar uma reunião com o ministro
da Fazenda, Guido Mantega, para que as centrais
discutissem com ele o documento antes da reunião
a ser realizada com o presidente Lula, na
quarta-feira. Paulinho chamou a atenção para o
fato do Senado não ter concluído a votação da
lei que estabelece uma política permanente de
valorização do salário mínimo e afirmou que o
esforço do governo em apoiar alguns setores da
economia deve levar em conta os trabalhadores.
A.R |