|
A Grande Depressão do século 21
“Não é possível qualquer reforma sob o Consenso
Washington-Wall Street”, afirma o economista Chossudovsky em seu artigo A Grande
Depressão do século 21 : Colapso da Economia Global, do qual publicamos trechos
Esta
crise é muito mais séria do que a Grande Depressão.
Todos os setores importantes da economia são afetados.
O proposto salvamento bancário sob o chamado Troubled Asset
Relief Program (TARP) não é uma “solução” para a crise e sim a “causa” de mais
um colapso.
O salvamento contribui para um novo processo de
desestabilização da arquitetura financeira. Ele transfere grandes quantias de
dinheiro público, às expensas dos contribuintes, para as mãos de financeiras
privadas. Isto leva a uma espiral de dívida pública e a uma centralização do
poder bancário sem precedentes. Além disso, o dinheiro do salvamento é utilizado
pelos gigantes financeiros para obter aquisições corporativas tanto no sector
financeiro como na economia real.
Esta concentração sem precedentes de poder financeiro
conduz setores inteiros da indústria e dos serviços, um por um, à bancarrota, o
que leva à demissão de milhares de trabalhadores.
A riqueza de papel é transformada em propriedade e controle
de ativos produtivos reais, incluindo indústria, serviços, recursos naturais,
infraes-trutura, etc.
A economia real está em crise. O consequente aumento do
desemprego causa um declínio dramático nos gastos do consumidor o que por sua
vez faz retroceder os níveis de produção de bens e serviços.
As empresas não podem vender os seus produtos, porque os
trabalhadores foram despedidos. Os consumidores, nomeadamente os trabalhadores,
foram privados do poder de compra necessário para alimentar o crescimento
econômico.
Os estoques de bens não vendidos, acumulam-se. Finalmente,
a produção entra em colapso.
No processo de fechamento da fábrica, muitos trabalhadores
tornam-se desempregados. Milhares de firmas em bancarrota são expulsas do
cenário econômico, o que leva a um afundamento da produção.
POBREZA
A pobreza em massa e um declínio em escala mundial nos
padrões de vida é o resultado de baixos salários e desemprego em massa. Isto é o
resultado de uma anterior economia global de trabalho barato, em grande parte
caracterizada pelos baixos salários das fábricas montadoras nos países do
Terceiro Mundo.
Nos EUA, Canadá e Europa Ocidental, todo o sector
industrial está potencialmente ameaçado.
Estamos tratando de um processo de reestruturação econômica
e financeira a longo prazo.
Um após o outro, o boom de fusões e aquisições da década de
1990 levou à consolidação simultânea de grandes entidades corporativas tanto na
economia real como na banca e nos serviços financeiros.
Nos desenvolvimentos recentes, entretanto, a concentração
de poder da banca foi às expensas dos negócios em grande escala (big business).
O que distingue esta fase particular da crise é a
capacidade dos gigantes financeiros (através do seu controle decisivo sobre o
crédito) não só de causar destruição na produção de bens e serviços como também
de minar e destruir grandes entidades corporativas da economia real.
A Circuit City Stores Inc. pediu a proteção da concordata (Chapter
11). As ações da Best Buy, a cadeia de eletrônicos a varejo, despencaram.
Em escala mundial, mais de duas dúzias de companhias de
aviação vieram abaixo em 2008, somando-se a uma cadeia de bancarrotas de
companhias de aviação no decorrer dos últimos cinco anos.
Nos últimos dois meses tem havido numerosos encerramentos
de fábricas por toda a América, levando ao desemprego permanente dezenas de
milhares de trabalhadores. Estes fechamentos afetaram várias áreas chave da
atividade econômica, incluindo as indústrias química e farmacêutica, a indústria
do automóvel e setores relacionados, à economia de serviços, etc.
O emprego caiu em 1,2 milhão nos primeiros 10 meses de
2008; mais da metade da diminuição verificou-se nos últimos três meses.
Os números oficiais não descrevem a seriedade da crise e o
seu impacto devastador sobre o mercado de trabalho, uma vez que muitas das
perdas de emprego não são relatadas.
Entre as companhias à beira da bancarrota há algumas
altamente lucrativas. A pergunta importante: quem assume a propriedade das
corporações industriais gigantes em bancarrota?
Bancarrotas e arrestos são operações de circulação de
dinheiro. Com o colapso dos valores nos mercados de ações, as companhias ali
listadas experimentam uma grande queda no preço da sua ação, o que imediatamente
afeta a sua credibilidade e a sua capacidade para tomar emprestado e/ou
renegociar dívidas (as quais estão baseadas no valor cotado dos seus ativos).
Os especuladores insti-tucionais, os hedge funds, etc,
aproveitam-se deste saqueio inesperado.
Eles disparam o colapso de companhias listadas em bolsa
através da venda à descoberto (short selling) e outras operações espe-culativas.
Podem assim embolsar os seus ganhos especulativos em grande escala.
Segundo um relato no Financial Times, há prova de que o
afundamento da indústria automobilística dos EUA foi em parte o resultado de
manipulação. “As ações da General Motors e da Ford perderam 31% e 10,9% [em dois
dias] apesar da esperança de que Washington pudesse salvar a indústria à beira
do colapso. A queda verificou-se depois de o Deutsche Bank estabelecer um
objetivo de preço zero para a GM”( FT, 14/Novembro/2008, ênfase acrescentada).
As financeiras estão num passeio de compras. Os 400
multimilionários Forbes da América estão à espera, na expectativa.
Depois de terem consolidado a sua posição na indústria
bancária, os gigantes financeiros incluindo a JP Morgan Chase, Bank of America e
outros utilizarão os seus ganhos inesperados e o dinheiro do salvamento
proporcionado pelo TARP para uma extensão ulterior do seu controle sobre a
economia real.
O passo seguinte consiste em transformar ativos líquidos,
nomeadamente riqueza monetária em papel, com a aquisição de ativos da economia
real.
Nesse aspecto, a Berkshire Hathaway Inc., de Warren Buffett,
é um grande acionista da General Motors. Mais recentemente, após o colapso do
valor das ações em outubro e novembro, Buffett aumentou a sua participação no
produtor de petróleo Conoco-Phillips, sem mencionar a Eaton Corp., cujo preço na
Bolsa de Valores de Nova York afundou 62% em relação à cotação de dezembro de
2008 (Bloomberg).
O alvo destas aquisições são as numerosas companhias
industriais e de serviços altamente produtivas, as quais estão à beira da
bancarrota e/ou cujas ações entraram em colapso.
Os administradores de dinheiro estão escolhendo as peças.
A riqueza de papel acumulada através do comércio de
iniciados e da manipulação do mercado de a-ções é utilizada para adquirir o
controle sobre ativos econômicos reais, deslocando estruturas de propriedade
pré-existentes.
O que estamos tratando é de um repugnante relacionamento
entre a economia real e o setor financeiro. Os conglomerados financeiros não
produzem mercadorias. Eles no essencial fazem dinheiro através da condução de
transações financeiras. Utilizam o dinheiro destas transações para tomar o
comando sobre corporações da economia real.
DISTORÇÃO
Numa amarga distor-ção, os novos possuidores da indústria
são os especuladores instituci-onais e os manipuladores financeiros. Eles estão
se tornando os novos capitães da indústria, deslocando não só estruturas de
propriedade já existentes como também instalando seus comparsas nas poltronas da
administração corporativa.
Não é possível qualquer reforma sob o Consenso
Washington-Wall Street
A Cúpula Financeira do G-20 de 15 de novembro, em
Washington, apóia o consenso Washington-Wall Street.
Apesar de formalmente apresentar um projeto para restaurar
a estabilidade financeira, na prática a hegemonia da Wall Street permanece
incólume. Um sistema monetário unipo-lar dominado pelos Estados Unidos.
Aos arquitetos do desastre financeiro, sob a lei de 1999,
Gramm-Leach-Bliley (Financial Services Moder-nization Act, FSMA), foi confiada a
tarefa de mitigar a crise — a qual foi criada por eles próprios. Eles são a
causa do colapso financeiro.
A Cúpula Financeira do G-20 não questiona a legitimidade
dos hedge funds [fundos especulativos que até o crash que através de uma série
de manobras estavam supostamente “protegidos” do risco da especulação] e dos
vários instrumentos de comércio derivativo. O comunicado final inclui um
impreciso e opaco compromisso “para melhor regular os hedge funds e criar mais
transparência em títulos relacionados com hipotecas como uma proposta para
travar o deslizamento econômico global”.
Uma solução para esta crise só pode ser alcançada através
de um processo de “desarmamento financeiro”, o que exigiria o congelamento dos
instrumentos de comércio especulativo e o desmantelamento dos hedge funds .
Michel Chossudovsky
Economista
Canadense, colabora com o Le Monde Diplomatique e já atuou como
consultor da OIT e do Programa de Desenvolvimento da ONU |