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Irregularidades da Odebrecht constrangem Brasil e Equador
Falha na
hidrelétrica de San Francisco, 10 aditivos ilegais e, além disso, o Equador não
viu a cor do dinheiro do financiamento
Depois de alguns espetáculos deprimentes na
mídia – e, infelizmente, não apenas na mídia - sobre a questão da Odebrecht no
Equador, forçoso é reconhecer que o Brasil não tem nenhuma obrigação de proteger
ladrões somente porque eles têm sede em nosso país.
No entanto, houve quem propusesse uma verdadeira
diplomacia das canhoneiras, ao estilo imperialista ianque, para proteger os
interesses da Odebrecht, como se esses fossem os interesses do Brasil.
Realmente, e felizmente, não são. Portanto, estamos livres de que o país afunde
numa cratera, como a linha 4 do metrô de São Paulo, ou fique, como os
equatorianos, sem luz, esperando que a maior hidrelétrica de seu país volte a
funcionar.
Vejamos o problema causado pela Odebrecht no
Equador:
1) No ano 2.000, quando Fernando Henrique era
presidente e Lúcio Gutierrez, em seguida deposto por uma revolta popular, era
presidente do Equador, a Odebrecht conseguiu a obra da hidrelétrica de San
Francisco.
2) A hidrelétrica, que, oito anos depois, está
parada devido a falhas estruturais na construção, foi orçada em U$
286.851.129,00.
3) O BNDES concedeu crédito de US$
242.965.100,00 à Hidropastaza S.A, empresa composta pela estatal equatoriana
Hidroagoyán, que tinha 80% do capital da Hidropastaza, com a Odebrecht, que
tinha 20% do capital dessa empresa.
[Deixemos de lado aqui o fato de que a formação
da Hidropastaza era um artifício para burlar as leis equatorianas, como
constatou a Comisión para la Auditoría Integral del Crédito Público (CAIC), do
Ministério de Finanzas del Ecuador (pág, 112 do relatório da CAIC).]
4) Nem a Hidropastaza nem o governo do Equador
viram um centavo do dinheiro do BNDES. Todo ele foi depositado na conta da
Odebrecht. Segundo informou o BNDES em sua nota do último dia 21, isso foi assim
porque a Odebrecht era o exportador brasileiro de serviços e produtos para que o
Equador construísse a hidrelétrica. Mas o resultado prático foi que o Estado
equatoriano ficou responsável por pagar um dinheiro que foi dado por um banco
público brasileiro à Odebrecht.
5) Devido a 10 aditivos, feitos pela Odebrecht
ilegalmente, com a corrupção de funcionários, a obra foi superfaturada em 23%.
Assim, o valor final foi de US$ 358.563.084.
6) Mas o montante final do financiamento que o
Equador teria de pagar é de US$ 597.831.066,22. Ou seja, 90% a mais do que o
preço inicial da hidrelétrica, devido às taxas de juros e demais cláusulas do
contrato.
Reproduzimos o relatório da Comissão do governo
equatoriano:
“As condições
do financiamento, estabelecidas nas cláusulas quinta, sétima e oitava do
convênio de crédito, assim como seus mecanismos de cálculo, representam uma
carga onerosa excessiva para o projeto: no período de carência, a taxa de juro
chega a 9,75% e no período de amortização, a 7,75%. Se à taxa de juro contratada
se somam as taxas de administração e compromisso, o efeito final da carga
financeira quase duplica. Em troca, se estabelecem condições brandas nos
mecanismos de penalização para a empresa construtora em caso de descumprimento
durante o período de construção, graças à determinação de um sistema de cálculo
modificado da multa, que reduz o encargo à metade do que resultaria com a
aplicação do sistema convencional” (pág. 113 do relatório citado).
Por uma questão de espaço não reproduzimos o
conjunto das minuciosas conclusões da Comissão. O leitor poderá encontrá-las no
“Informe Final (Resumen Executivo) de la Auditoria Integral de la Deuda
Ecuatoriana”, disponível, na Internet, no site brasileiro
www.divida-auditoriacidada.org.br.
Porém, destacamos outra vez: tudo isso por uma
hidrelétrica parada, que deveria produzir 12% da energia do Equador - e sem que
esse país tenha visto um centavo desse dinheiro, pois todo ele foi depositado na
conta da Odebrecht, apesar do contrato de financiamento do BNDES ser com a
Hidropastaza. Até agora o BNDES não tomou alguma providência para que a
Odebrecht ressarça os recursos públicos – recursos do Fundo de Amparo ao
Trabalhador (FAT) – que lhe foram fornecidos. E, naturalmente, a Odebrecht não
parece achar que isso é sua responsabilidade – acha muito mais natural que o
povo equatoriano pague pelos recursos que ela, Odebrecht, embolsou, sem cumprir
com o que se comprometeu a construir.
O presidente equatoriano relatou os fatos ao
presidente Lula, quando se encontraram, recentemente, em Manaus. Por ação do
presidente Lula, a Odebrecht aceitou indenizar o governo equatoriano pelos
prejuízos com a hidrelétrica - US$ 25 milhões referentes aos reparos, além da
extensão por um ano da garantia contra defeitos futuros e de cinco anos para os
reparos que seriam realizados. Uma pequena indenização, considerando os
prejuízos sofridos pelo Equador – e considerando o faturamento da Odebrecht em
2007: US$ 18 bilhões e 643 milhões.
No entanto, a Odebrecht rompeu esse acordo,
pretextando que suas sócias na obra da hidrelétrica de San Francisco, a manjada
empresa francesa Alstom e a austríaca Vatech, se recusaram a assinar o acordo.
Diante disso, o mínimo que poderia fazer o
Equador seria procurar reparação dos prejuízos numa arbitragem internacional.
Não vai adiantar muito, mas resta lembrar aos
candidatos a bucaneiros na mídia que:
a) nós vivemos no Brasil, não nos EUA – e o
Brasil não é os EUA de Bush; b) a diplomacia das canhoneiras não fez bem aos
EUA, portanto, não vamos ser nós a ficar exibindo o porrete para os vizinhos; c)
o Brasil não tem obrigação, muito pelo contrário, de defender empresas que
roubam o país dos outros – sobretudo quando elas roubam, também, o dinheiro do
povo brasileiro; d) o Brasil, como nação maior e mais rica, tem o dever – e a
satisfação – de ajudar seus irmãos menores e mais pobres.
CARLOS
LOPES
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