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“Nosso lixo
pelo seu dinheiro”
O artigo de
Michael Hudson, publicado na revista Counterpunch, do qual transcrevemos os
principais trechos, mostra, com minúcia de detalhes, como os banqueiros dos EUA
extorquem o Congresso e o G-20 “aplicando a lógica de ‘privatizar os lucros,
socializar as perdas’, que os lobistas dos bancos aperfeiçoaram ao longo do
século passado”. Segundo Hudson, o secretário do Tesouro Henry Paulson “decidiu
que o melhor meio de ‘estabilizar a economia’ é permutar títulos do Tesouro por
lixo de alto risco, comprado pelo valor de face, livrando os bancos da perda”
A
fartura de dólares foi um dos fatores-chave que agravaram o problema das
hipotecas-lixo nos anos recentes. Se os países estrangeiros não investirem mais
os seus influxos de dólares na Fannie Mae, no Freddie Mac e nos pacotes tóxicos
de derivativos de hipotecas, o que eles vão fazer com esses dólares? O governo
dos EUA recusa-se a deixar que fundos de governos estrangeiros adquiram qualquer
coisa exceto lixo financeiro, tal como as afundantes ações do Citibank compradas
por sheiks árabes do petróleo.
O déficit de
pagamentos dos EUA bombeia dólares para as economias de outros países. Os que
recebem esses dólares passam-nos aos seus bancos centrais. Mas esses últimos
impediram as suas respectivas moedas de subir em relação ao dólar (e, portanto,
de perder mercados externos ao encarecer as exportações) através da compra de
títulos do Tesouro dos EUA, de forma a sustentar a taxa de câmbio do dólar pela
reciclagem dos dólares, enviando de volta aos Estados Unidos o suficiente para
financiar a maior parte do nosso déficit orçamentário federal, e, na verdade,
também grande parte dos empréstimos hipotecários da Fannie Mae.
O sr. Bush
gostaria de moldar o sistema financeiro de modo que as economias estrangeiras
continuassem a dar almoço grátis aos Estados Unidos. Autoridades dos EUA
controlam o Fundo Monetário Internacional e o Banco Mundial, e utilizam essas
instituições para impor políticas neoliberais de privatização aos países
estrangeiros, destruindo, com isso, as economias pós-soviética, a Austrália e a
Nova Zelândia a partir da década de 90, assim como destruíram as economias do
Terceiro Mundo desde os anos 80.
O sr. Paulson
e outras autoridades dos EUA estão há muito jurando aos ministros das finanças
estrangeiros que os títulos da Fannie Mae e do Freddie Mac são tão bons quanto
os títulos do Tesouro, se bem que rendendo juros mais elevados.
O Congresso
caiu nesse jogo. Agora que o “bailout” parece um presente de último minuto para
os que estavam por dentro do jogo, o Congresso realizou audiências para
perguntar porque o Tesouro abandonou o seu plano de comprar “ativos doentes”
(lixo hipotecário) que o sr. Paulson dizia que era o problema. Por que o Tesouro
comprou US$ 250 bilhões de sucedâneos de “ações preferenciais” dos bancos, a
preços muito acima daqueles que pagam investidores privados como Warren Buffett?
Desenhando um
mundo faz-de-conta para justificar o almoço grátis de Wall Street, o sr. Paulson
procurou desviar a questão com uma série de “ses”. Os US$ 250 bilhões do Tesouro
em ações dos bancos poderiam ser utilizados para re-inflar a
oferta de crédito se os bancos optassem por entrar novamente no
mercado de títulos comerciais e fornecessem hipotecas em condições mais módicas.
A fantasia consiste nos bancos restaurarem o “equilíbrio” através de conceder
mais crédito, aumentando o endividamento de seus clientes, de modo a restaurar o
mercado habitacional no seu nível anterior.
Os
congressistas frisaram que os bancos não estavam emprestando mais dinheiro. As
taxas de juros das hipotecas subiram, não caíram, apesar do Fed estar suprindo
os bancos com crédito a apenas 0,25%. As exigências dos bancos para conceder
crédito foram endurecidas para exigir que os compradores pusessem mais do seu
próprio dinheiro. Os arrestos e despejos estão aumentando e os preços
imobiliários continuam a afundar. Também afundando quase na vertical está a
Média Industrial Dow Jones, indo abaixo da marca dos 8000, os mais baixos níveis
em muitos anos. Nada funciona da forma que o sr. Paulson prometeu.
A palavra
mais utilizada pelas autoridades do Tesouro nestes dias é “inesperado”. Na
audiência do seu subcomitê, [o deputado] Dennis Kucinich perguntou ao auxiliar
de Paulson, Neel Kashkari, se a falta de previsão realista do Tesouro era um
erro inocente ou um caso de propaganda enganosa. O sr. Kashkari se
defendeu recitando que as dádivas aos bancos eram o meio de fazer com que a
economia “andasse” outra vez. Os bancos utilizariam o seu readquirido poder para
ajudar os clientes a voltar a se endividar ainda mais profundamente,
presumivelmente às taxas exponenciais necessárias para re-inflar os preços da
propriedade e das ações.
O
congressista republicano Darrill Issa perguntou simplesmente quando o Tesouro
decidira descartar o texto da lei e prosseguir com uma dádiva alternativa à Wall
Street, ao invés de ajudar proprietários de casas em inadimplência. Por que não
havia feito como determinava a lei que o próprio sr. Paulson insistira que o
Congresso aprovasse – arranjar ordenadamente cancelamentos de dívida através da
utilização dos prometidos US$ 50 bilhões de dinheiro público para comprar
hipotecas de lares em vias de despejo, e reajustar as hipotecas com preços
altos, fora da realidade, para que elas refletissem os atuais níveis de preços
das propriedades?
O sr.
Kashkeri continuou tentando passar o tempo com uma explicação dos procedimentos
de rotina do Tesouro. Ele assegurou que todas as noites se preocupava com o
destino dos proprietários de casas, e disse que o sr. Paulson também estava
roendo as unhas devido à sua empatia pelos despejados, mas que eles haviam
achado muito melhor dar o dinheiro aos bancos na esperança de que eles
mostrariam uma preocupação semelhante para com os seus clientes.
Aplicando a
lógica de “privatizar os lucros, socializar as perdas”, que os lobistas dos
bancos aperfeiçoaram ao longo do século passado, [Paulson] decidiu que o melhor
meio de “estabilizar a economia” é permutar títulos do Tesouro por lixo de alto
risco, comprado pelo valor de face, livrando os bancos da perda.
Pode-se
concluir apenas que o sr. Paulson perpetrou uma fraude consciente quando disse
ao Congresso que o governo descobrira um caminho melhor para a doação de
dinheiro pingar dos bancos para o crédito, do que comprar os seus maus
empréstimos. Ele, na verdade, está fazendo exatamente isto, mas em segredo,
longe do olhar intrometido do Congresso, através do Fed [banco central
norte-americano], a preço integral, ao invés de fazê-lo através do programa do
Tesouro que o Congresso autorizou. O Fed avalia o lixo hipotecário pelos preços
altos de fantasia que os bancos, a AIG e outras companhias o compraram, a fim de
evitar-lhes o prejuízo. Os hedge funds e os especuladores que compraram lixo
securitário da AIG foram considerados sadios, e os acionistas da AIG foram
salvos pela injeção de capital do governo, de modo a que não tivessem prejuízos
no cassino de Wall Street.
Agora que o
Fed está fazendo isso, o Tesouro pode voltar-se para a sua própria forma de
brinde aos bancos: comprar suas ações por um preço muito acima do mercado (isto
é, o preço pago por investidores tais como Warren Buffett pelas ações do Goldman
Sachs), permitindo aos bancos utilizarem o dinheiro para comprar outros bancos,
distribuir dividendos a acionistas ou pagar altos salários aos seus executivos,
ao invés de ajudar devedores hipotecários.
G-20
Ao falar na quinta-feira, 13 de Novembro, no Manhattan Institute, o presidente Bush repetiu
o mito de que países estrangeiros reciclam demasiados dólares para a América por
causa da nossa “economia forte” e dos nossos mercados livres.
A realidade é
bastante diferente. Não existe uma tal coisa como “mercado livre”. Durante uns
poucos dias após o anúncio da dádiva de US$ 700 bilhões, por reflexo automático,
alguns adversários de gastos do governo denunciaram que era “socialismo”, mas
rapidamente descobriram que nem todo gasto do governo é socialista. Independente
do sistema econômico, todos os mercados são planejados, e sempre foram desde que
os calendários foram inventados após a Era do Gelo.
A maior parte
das estruturas de mercado ao longo da história foram organizadas de modo a
proporcionar um almoço gratuito a determinados interesses. Isto permanece a
essência do capitalismo pós-feudal – ou, como formularam alguns, do
corporativismo.
O que
acontece na prática é que os bancos centrais estrangeiros reciclam os dólares
que os seus exportadores e vendedores de ativos recebem porque (como observado
acima) a cotação das suas moedas frente ao dólar subiria se eles não o fizessem,
pois isso poria o preço das suas exportações fora dos mercados mundiais, levando
ao desemprego. Os países estrangeiros, portanto, estão na armadilha do dólar.
Eles remetem as suas poupanças para financiar o déficit orçamentário do governo
dos EUA, ao invés de ajudarem as suas próprias economias, porque não foram
capazes de criar uma alternativa ao dólar. Logo depois da dívida do Tesouro, as
hipotecas imobiliárias são a única categoria suficientemente grande para
absorver o excesso de dólares jogado fora pelo déficit de pagamentos dos EUA –
jogado fora com os gastos militares dos EUA no exterior, com os gastos em
consumo que incham o déficit comercial e com fluxos de investimentos, quando
investidores aqui e no exterior diversificam suas propriedades fora dos Estados
Unidos. O resultado é que as reservas monetárias mundiais acabam por consistir
de empréstimos de bancos centrais para financiar a bolha da economia dos EUA.
O que torna
esta dinâmica instável é que as exportações dos EUA tornam-se cada vez menos
competitivas quando os custos mais elevados com habitação e os encargos do
serviço da dívida elevam o custo de vida e o custo de fazer negócios. Quanto
mais dólares os países estrangeiros reciclam, menos a economia dos EUA será
capaz de livrar-se das suas dívidas exportando mais. Assim, a dinâmica é com
certeza um jogo perdedor para os governos estrangeiros – a menos que alguém
possa explicar como os Estados Unidos poderiam gerar US$ 4 trilhões para
reembolsar a sua dívida com os bancos centrais do mundo. Para tornar as coisas
piores, a tendência declinante do dólar em relação ao euro e à libra esterlina
obriga os credores estrangeiros a uma perda sobre os seus haveres em dólares
quando seus valores são convertidos em suas próprias moedas.
Ninguém
descobriu uma solução “orientada pelo mercado” para este problema. Agora que o
ouro já não é mais o meio de ajustar déficits das balanças de pagamentos, falta
aos bancos centrais estrangeiros uma alternativa ao dólar para manter as suas
reservas monetárias. Isso faz com que eles fiquem com: (1) Títulos do Tesouro
dos EUA; e (2) Títulos de hipotecas dos EUA. Nos últimos anos viu-se uma nova
diversificação, via “fundos soberanos de riqueza”, na (3) propriedade direta de
recursos minerais, companhias industriais, infraestrutura nacional privatizada e
outras participações em investimentos, ao invés de dívida. Mas ainda que dando
boas vindas a este último, o governo dos EUA procura limitar os bancos centrais
estrangeiros a comprarem lixo hipotecário, lixo mobiliário e outros refugos
financeiros.
A questão nas
reuniões do G-20 é a desconfiança no sistema bancário não regulamentado dos EUA
e, por trás disso, nos “reguladores” do governo que se recusam a regular. A
China e outros receptores estrangeiros de dólares tratam o dólar como uma batata
quente, tentando gastá-lo na compra de minerais estrangeiros, combustíveis e
outros ativos de qualquer país que aceite pagamento em dólares. A maior parte
dos tomadores [de dólares] são países do terceiro mundo ainda comprometidos com
o pagamento de pesadas dívidas dolarizadas junto ao Banco Mundial e outros
credores globais.
A Eurolandia
está oficialmente numa recessão pela primeira vez desde o nascimento da moeda
única, em parte porque os seus países-membros sentiram-se obrigados a utilizar
os seus excedentes monetários para apoiar o dólar – e, portanto, o déficit
orçamentário do Tesouro dos EUA – ao invés de apoiarem as suas próprias
economias internas.
“ALMOÇO
GRÁTIS”?
O Tesouro
agora discute “bailouts” para os emissores de cartões de crédito, assumindo suas
dívidas podres.
Os bancos e
Wall Street ameaçam ruir a economia “entrando em greve” e criando um arrocho do
crédito, forçando despejos e o colapso econômico, se o Congresso e o Fed não os
livrarem do prejuízo sobre os seus maus empréstimos e derivativos financeiros.
Os clientes devem absorver a perda.
A economia
dos EUA tem vivido sobre uma combinação de reciclagem de dólar externo e crédito
bancário que tem sido utilizada simplesmente para “criar riqueza” pela inflação
de preços dos ativos, não pelo financiamento de nova formação de capital.
Por fazer
isso, quando a coisa acabar, os bancos estarão insolventes. O Tesouro deu-lhes
bilhões de dólares, e ainda mais como favoritismo fiscal especial, garantias de
seguro de empréstimo e de depósito. Isso pode continuar só enquanto os bancos
puderem fazer com que pareça impensável o colapso inevitável dos esquemas de
juros compostos.
17/Novembro/2008
* Michael
Hudson é economista e ex-consultor em Wall Street, hoje professor da
Universidade do Missouri. |