A cruzada do Minc contra o direito do autor – 5

Para o Minc, ‘modernizar’ a lei do direito autoral é facilitar a locupletação de cartel estrangeiro , denuncia João Moreirão, em artigo 

Em entrevista veiculada nesta terça-feira, dia 23, por uma rádio de alcance nacional, o ministro da Cultura, Juca Ferreira, disse que até o final deste ano mandará um projeto de lei para o Congresso alterando a atual lei de direitos autorais. As razões que ditariam a necessidade de tal mudança, repetidas pelo ministro na entrevista, podem ser vistas pelo prezado leitor na palestra do advogado do cartel das TVs por assinatura e do Cinemark, além de outros grandes conglomerados estrangeiros de redes de cinema, Dr. Marcos Bitelli, durante o Fórum de Direito Autoral realizado nos dias 30 e 31 de julho, no Rio de Janeiro. Palestra que está reproduzida no sítio do MinC na internet.

Declarou o ministro que, entre as mudanças reclamadas, está o controle externo do Ecad (Escritório Central de Arrecadação e Distribuição), por um orgão do MinC que regule a atuação e a gestão coletiva pelos autores, que determine quanto, como e de quem os autores, intérpretes e produtores podem cobrar remuneração pelo uso comercial de suas criações, interpretações e produções.

E o que ditaria tal necessidade? O advogado do cartel esclarece: "fazer a arrecadação e distribuição ser consensada (sic) entre usuários e titulares, através de mediação, remetendo na hipótese de conflito à arbitragem judicial ou câmara especializada...". É importante esclarecer o usuário não é o público, a sociedade. O termo "usuário" está na lei 9610/98 e define as empresas que usam, que fazem exploração comercial de obras de arte. São rádios, TVs, cinemas, casas de espetáculo, hotéis...

Numa linguagem menos inventiva, o que o cartel das TVs por assinatura e das grandes redes de cinema defende é que os autores só possam cobrar pelo uso de suas obras quando e se os usuários concordarem. Se não houver consenso remete-se "à arbitragem judicial ou câmara especializada", que resolverão, evidentemente, com a celeridade tão característica da nossa Justiça.

CONTROLE EXTERNO  

 

Afirmou o ministro que "o controle externo é uma unanimidade". Dele com o cartel. E mais ninguém. Nenhuma associação de autores ou produtores manifestou, até hoje, tal desejo masoquista. O ministro repete o feio vício de seu predecessor de selecionar algumas palavras das idéias e propostas alheias e apresentá-las como se fossem o todo e o oposto do que realmente são. O que o presidente de uma das sociedades de autores administradoras do Ecad, o compositor Fernando Brant, da UBC (União Brasileira dos Compositores), fez foi desafiar publicamente os detratores do Ecad e da gestão coletiva dos direitos autorais a criarem mecanismos para que o Tribunal de Contas da União passe a auditar as contas do Ecad. Mas Juca Ferreira prefere fugir do repto e copiar as calúnias em que se esmera o rábula dos cartéis.

Desafiar os que acusam o Ecad de ser uma "caixa preta", um suposto esconderijo de, sabe-se lá, que manipulações diabólicas, a aceitarem a auditoria regular do TCU é, em primeiro lugar, uma clara demonstração de segurança na limpidez dos procedimentos do Ecad e é, também, um inequívoco repúdio à proposta Bitelli-Ferreira. É o oposto da pretendida unanimidade que o ministro alardeia.

Durante a entrevista, Juca Ferreira, usou o mesmo engodo em pelo menos uma outra ocasião: Afirmou que o Brasil precisa "modernizar" a lei de direitos autorais até porque vários outros países estão mudando as suas leis. O ex-ministro Gilberto Gil já tinha afirmado a mesma coisa, como demonstração de que o que pretendem para o Brasil estaria em sintonia com o que de mais moderno se está fazendo no mundo.

O estímulo para tal afirmação de Gil, repetida por Ferreira, vem da Europa, particularmente da Espanha, país do qual adotou até a terminologia – talvez motivado por sua afeiçoada relação com a Telefonica. Os países da Europa estão, de fato, alterando, complementando, modernizando suas leis de direitos autorais, depois de sete anos de discussões e debates. Mas para fazer o contrário do que Gil e Ferreira pretendem fazer crer. Têm complementado as suas leis de direitos autorais aumentando a proteção aos criadores e produtores e a abrangência da cobrança pelo uso das obras.

Em maio de 2001, o Parlamento Europeu publicou a diretiva 2001/29/CE "relativa à harmonização de certos aspetos da direito de autor e dos direitos conexos na sociedade da informação". Nessa diretiva, o Parlamento Europeu deliberou que "O enquadramento jurídico comunitário para a protecção jurídica do direito de autor e direitos conexos deve, assim, ser adaptado e completado na medida do necessário para assegurar o bom funcionamento do mercado interno...". Para tanto, estabeleceu as bases para essas adaptações e complementos que os diversos países deveriam fazer: "Um enquadramento legal do direito de autor e dos direitos conexos, através de uma maior segurança jurídica e respeitando um elevado nível de protecção da propriedade intelectual (grifo nosso), estimulará consideravelmente os investimentos na criatividade e na inovação, nomeadamente nas infra-estruturas de rede, o que, por sua vez, se traduzirá em crescimento e num reforço da competitividade da indústria europeia, tanto na área do fornecimento de conteúdos e da tecnologia da informação, como, de uma forma mais geral, num vasto leque de sectores industriais e culturais. Este aspeto permitirá salvaguardar o emprego e fomentará a criação de novos postos de trabalho. 

‘DESENVOLVIMENTO’ 

 

E ainda considerou que "o desenvolvimento tecnológico multiplicou e diversificou os vectores da criação, produção e exploração". Mas alertou: "Apesar de não serem necessários novos conceitos para a protecção da propriedade intelectual (grifo nosso), a legislação e regulamentação atuais em matéria de direito de autor e direitos conexos devem ser adaptadas e complementadas para poderem dar uma resposta adequada à realidade econômica, que inclui novas formas de exploração.".

O resultado é que os países europeus complementaram as suas leis de direitos autorais para garantir a remuneração de autores, intérpretes, diretores, roteiristas, escritores, produtores pelo uso de suas criações e produções pelas empresas que comercializam meios, mídias e aparelhos que têm permitido a banalização da cópia. É uma remuneração compensatória pela cópia privada, ou "canon digital", como se diz na Espanha e no MinC, que é cobrada dos fabricantes ou importadores de CDs e DVDs virgens, de aparelhos de MP3, de reprodutores e gravadoras de CDs e DVDs, dos computadores, etc. e das empresas que exploram comercialmente a utilização dos meios e aparelhos digitais.

TITULARES DOS DIREITOS  

Afinal, "a divulgação dos aparelhos que possibilitam a cópia privada em larga escala veio criar um novo mercado através do qual os fabricantes desses aparelhos e as empresas que exploram comercialmente a sua utilização se locupletam à custa dos titulares de direitos" escreveu o jurista Dário Moura Vicente em estudo em que tratou de questões do "enriquecimento obtido à custa alheia" e do "enriquecimento sem causa no domínio do Direito de Autor" e que inspirou as mudanças na lei de direitos autorais em Portugal.

Já a proposta de Juca Ferreira é "flexibilizar" os direitos, é facilitar a locupletação do cartel estrangeiro das TVs por assinatura e das redes de cinema. É desproteger os criadores e produtores nacionais e o nosso mercado para facilitar a sua ocupação.


JOÃO MOREIRÃO


Primeira Página

 

Página 2

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Paulo Maluf à Soninha: não tem cabimento uma senhora de idade andando de bicicleta nas marginais

Marta: PSDB está “ fritando” seu candidato

Brasil retoma construção de submarinos nucleares para proteger a costa e o pré-sal

Estatal descobre mais óleo leve na Bacia de Santos

O dia em que Hayek* chorou - Gilson Caroni

EXPEDIENTE

Página 3

Ditadura especulativa entra em agonia com a crise americana

Ataques à PF começaram quando ela “prendeu determinadas pessoas”, denunciou o diretor-geral

Gilmar: o grande problema do país é o “aparato policial”

A pedido do Brasil, justiça britânica bloqueia US$ 46 milhões do Opportunity

Quércia afirma que Alckmin é “um traidor frio e mesquinho”

Juiz De Sanctis: Amiga de Mendes pressionou para revogar prisão de Dantas

MP investiga jantar entre os assessores do presidente do STF e o advogado de DVD

Página 4

Edna: “A resposta será do povo ao golpe sujo contra João da Costa”

“O povo vai construir essa grande vitória”, conclama João da Costa

Família Dantas aposta na campanha de Gabeira

Lula leva apoio a Luiz Marinho em São Bernardo

Kassab é alvo de ovos e diz que “fomos muito bem recebidos”

CARTAS

Página 5

Lula: “Brasil segue crescendo mesmo com a crise dos EUA”

 Conselho Monetário decide manter a TJLP em 6,25%

 A cruzada do Minc contra o direito do autor – 5

Página 6

“Perseguição de Serra joga gasolina na fogueira da greve da Polícia Civil”

Sindicato dos Escrivães de SP desmente tucano: “Salário é aviltante”

Greve da construção em Santo André conquista aumento de 20% e estimula mobilizações

Paim e Simon querem que o Senado regulamente profissão de comerciário

Eliminatórias: Seleção terá Kaká e Pato contra Venezuela e Colômbia

Trapalhada da Ferrari tira vitória de Massa no GP de Cingapura

O petróleo viabilizará a qualidade da Educação

Página 7

Odebrecht recua e promete indenizar Estado equatoriano

Crise das subprime leva à lona nos EUA o banco de poupança Washington Mutual e o Waschovia

Venezuela desenvolverá energia nuclear em parceria com a Rússia, anuncia Hugo Chávez

Evo convoca bolivianos à marcha pelo referendo popular da nova Constituição

Referendo aprova com ampla maioria a nova Constituição do Equador

Cassino das hipotecas contagia Europa e alastra a quebradeira de bancos

Página 8

Temor republicano de derrota eleitoral susta doação bilionária a Wall Street

Leia

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