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Celso Frateschi denuncia “articulação espúria” como razão de sua saída da
Funarte
“Uma articulação espúria”. Este foi o principal
motivo citado pelo ator
e diretor Celso Frateschi para deixar a presidência da
Fundação Nacional de Artes (Funarte), na última segunda-feira. Em carta de
demissão endereçada ao ministro da Cultura, Juca Ferreira, o ex-presidente do
principal órgão do MinC detalhou os fatos que apontam para a orquestração feita
contra ele por parte de integrantes do ministério, envolvendo funcionários da
Funarte e o jornal “O Globo”.
Frateschi destacou que “na dinâmica política,
não há coincidências. Há oportunidades. Os chamados agentes políticos, ligados
ao poder público ou à sociedade, sempre se defrontam com uma encruzilhada: ir
pelo caminho da ética, da esfera pública ou pelo outro caminho. Neste caso, não
há a ‘terceira margem do rio’”. “Vamos enumerar as ‘coincidências’: 1) em
recentes reuniões (30/09 e 01/10) de Planejamento Estratégico do Sistema MinC, a
Funarte mais uma vez foi foco das atenções; 2) em 04/10/2008, o jornal ‘O Globo’
publicou a reportagem ‘Parecer Recorde’; 3) em 04/10/2008, a Associação de
Servidores da Funarte (Asserte) divulgou nas paredes da instituição
correspondência encaminhada ao Ministro da Cultura, datada de 02/10/2008; 4) no
dia 09/10/2008, o Ministro da Cultura inicia, no Rio de Janeiro, uma série de
debates, intitulada ‘Diálogos Culturais’”!, afirmou Frateschi.
Ao aprofundar o significado das “coincidências”,
o diretor explicou de onde partiu a afirmação de que “a Funarte tem problemas”.
“[Esta] é uma frase que mais uma vez foi amplamente repetida por dirigentes do
MinC. A frase é corretíssima e poderia, com certeza, ser estendida ao Ministério
da Cultura”, afirma Frateschi.
O ex-presidente Funarte também faz uma série de
observações sobre o trabalho no órgão e respondeu as acusações de
“autoritarismo” feitas pela Asserte em texto enviado a Ferreira dois dias antes
da matéria do “Globo” e estampado nas paredes da autarquia no dia publicação. A
Asserte diz ainda que o ator promoveu uma “uma calamitosa gestão” que se chocava
com a “gestão participativa e democrática” que “orientam os princípios deste
ministério”.
Esta não é a primeira vez que o ministro Juca
Ferreira age de forma truculenta para derrubar quadros do PT da direção da
Funarte. No dia 7 de janeiro de 2007, o então presidente da Funarte, Antônio
Grassi, e o secretário de Articulação Institucional do Ministério, Márcio Meira,
foram excluídos pelo grupo dirigente do ministério de forma truculenta e
desrespeitosa, segundo a classificação feita por dirigentes petistas na época.
Como o assunto se converteu numa grande polêmica, com direito à carta do PT
condenando a demissão “de servidores competentes, comprometidos com o programa
apresentado pelo presidente Lula ao Brasil e que ao longo dos quatro anos de
governo sempre foram leais ao presidente”, Frateschi foi convidado a comandar o
órgão.
Frateschi é um quadro histórico do PT. Foi
secretário de cultura de Santo André na gestão de Celso Daniel, e da cidade de
São Paulo, na administração de Marta Suplicy. Entre as suas diretivas na
Funarte, estavam, diz ele, a de construir “políticas de cultura que rompessem,
da mesma forma que o governo Lula rompeu, com os limites sociais e regionais de
atenção e atendimento governamental”, de destruir “interesses internos e
externos consolidados em muitos anos” e de institucionalizar os programas,
“tirando-os da fragilidade dos mecanismos esquizofrênicos da Lei Rouanet”.
Outra questão que gerou mais indignação nas
pessoas que acompanhavam de perto o processo de fritura do presidente da Funarte
foi o fato de Juca Ferreira ter se pronunciado somente após o pedido de demissão
de Frateschi, dizendo que a matéria do Globo era uma injustiça e que a
prioridade para a tramitação dos projetos que tinham patrocínio assegurado, como
era o caso em questão, era uma norma estipulada pelo ministério. Polidamente,
Frateschi apontou que houve “falta de consideração” por parte de Juca Ferreira.
“Se você perde a confiança no seu funcionário, você o demite. Na hora que perde
a confiança no seu chefe, você se demite”, disse Frateschi ao “Estadão”.
O Globo: documentação editada
Na carta de demissão, Celso Frateschi, se
defendeu das acusações e classificou a matéria do jornal “O Globo” de mentirosa
e embasada em “partes de uma documentação editada e conseguida criminosamente”.
A acusação lançada pelo jornal contra o petista
foi de irregularidade na tramitação e a aprovação de um projeto do grupo Ágora,
dirigido por sua esposa, para este conseguir um patrocínio de R$ 1,3 milhão da
Petrobrás através da Lei Rouanet. Segundo “O Globo”, além de não preceder de
licitação por parte da Petrobrás para a sua escolha, a proposta foi aprovada num
período de dois meses (entre 26 de outubro e 26 de dezembro de 2007), o que
seria um tempo recorde para o órgão.
No entanto, Frateschi afirma que o projeto do
Ágora contava com o comprometimento de patrocínio por parte da Petrobrás desde o
mês de julho. “Encaminhamos informações de vários outros projetos na mesma
situação ao jornalista, encaminhamos mensagem eletrônica da Petrobrás informando
que o interesse de patrocínio estava definido desde julho de 2007, encaminhamos
informações de que vários projetos, no mês de dezembro de 2007, foram aprovados
pelo mecanismo de “ad-referendum” pelo Ministério da Cultura, ou seja, sem
avaliação da Cnic, para que a produção artística e cultural não fosse mais
prejudicada. O jornalista e o jornal optaram por desconsiderar tais informações.
Por quê?”, questiona Frateschi.
Ele acrescenta ainda que a relação do Ágora com
a Petrobrás é anterior a sua ida para a Funarte. A própria matéria registra dois
patrocínios da Petrobrás com o grupo, um de R$ 393 mil em 2006 e R$ 606 mil em
2007. A Petrobrás informou também que não só o Ágora, mas outros grupos
considerados importantes, como o Galpão, o Corpo e a Intrépida Trupe, também
receberam verbas diretas da estatal, sem a necessidade de edital.
“O repórter mistura, de forma deliberada, os
procedimentos para confundir o leitor e passar a idéia de irregularidade. Soma,
apenas quando lhe interessa, de forma capciosa, os tempos de tramitação dos
processos dentro da Funarte com os tempos em outras instâncias do ministério. A
verdade é que a Funarte regularizou o trâmite dos processos da Lei Rouanet.
Atualmente o processo leva 21 dias para ser analisado pela Funarte e isso fere
toda uma indústria de atravessadores que ‘facilitavam’ as aprovações que eram de
seu interesse. Uma legião de lobistas perdeu o emprego e isso os perturba”,
afirmou Frateschi.
O ator finaliza a carta de demissão destacando
que “saio porque se caracterizou uma articulação espúria que não tenho o menor
interesse de enfrentar. Aceitei essa presidência para trabalhar positivamente e
avançar na implantação de mecanismos republicanos de fomento e financiamento
(...) e não para perder o meu tempo em querelas de vaidades pessoais. Agradeço
carinhosamente aos inúmeros funcionários da Funarte que se empenharam nessa
nossa missão e espero que sobrevivam a essa legião de gasparzinhos que habitam o
belo Palácio Capanema”.
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