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Enfim,
música nas escolas outra vez!
Na edição
anterior, o artigo do presidente da CGTB, Antonio Neto, em defesa da lei
sancionada pela Presidência da República instituindo a educação musical no
ensino fundamental, critica a abordagem do maestro Julio Medaglia sobre o
tema, publicada na Folha de São Paulo de 22 de setembro. Neto afirma que:
“Mesmo tentando se mostrar favorável à idéia, ao espremer suas palavras,
notamos que o maestro, intencional ou desapercebidamente, acabou por
despejar a sua bile sobre Vargas para atingir Villa-Lobos e, na tangente, a
nova lei”.
Na nossa
modesta opinião, consideramos que o texto do maestro Julio Medaglia - que
tomamos a liberdade de publicar, abaixo - não tenta se mostrar favorável à
nova lei, mas o faz de modo bastante convincente, profundo e eficaz, em que
pese a desairosa referência à Vargas.
O fato é que o
presidente Getúlio Vargas soube ver no projeto de Villa os “inestimáveis
serviços à formação do brasileiro”, os mesmos pelos quais hoje se bate o
maestro, com veemência: “antes que o processo de imbecilização coletiva via
satélite ganhe essa guerra”.
SR
JÚLIO MEDAGLIA
Na década de 1930,
a carreira internacional de Heitor Villa-Lobos fluía muito bem. Ao ver,
porém, a expansão dos meios eletrônicos de massa, o rádio e a gravação de
discos, apaixonado pelo Brasil como era, resolveu permanecer aqui para
iniciar um projeto de ensino musical nas escolas. Pretendia, assim, proteger
nosso povo de um possível ataque maléfico dessa emergente indústria da
cultura, que ele chamava de música de repetição.
Dizia, não com
estas palavras, que o brasileiro deveria ser municiado de informações
musicais sólidas, pois poderia ficar refém dessa máquina, seguramente mais
preocupada em comercializar seus produtos que em prestar serviços à cultura
nacional. Não se tem notícias de um raciocínio tão coerente e premonitório
como esse, sobretudo quando se observa a realidade cultural atual.
Esse bombardeio
via satélite, promovido por uma indústria cultural que se expande na mesma
proporção em que baixa o nível artístico da produção, ocorre
internacionalmente, direcionando o público no sentido de um frenético
“consuma e descarte” que, tratando de bens comuns, pode funcionar, mas,
quando aplicado à criação artística, promove verdadeira devastação na
sensibilidade humana.
Inicialmente
apoiado pelo interventor federal em São Paulo, tenente João Alberto, Villa
fez uma longa viagem ao interior de nosso Estado - carregando um piano
consigo! -, iniciando uma verdadeira caravana em prol da divulgação e do
ensino de uma música de qualidade.
Com o bom
resultado da experiência/aventura, o grande educador Anísio Teixeira, então
secretário de Educação do Rio, criou para Villa uma Superintendência da
Educação Musical e Artística. Próximo do poder central, Villa fez seu
projeto chegar a Getúlio. O ditador, encantado com as manifestações de massa
do ufanismo patriótico nazifascista da Europa, viu nas concentrações corais
de Villa o instrumento ideal para promover algo semelhante no Brasil. Assim,
decretou a obrigatoriedade do ensino musical no país. Em seguida, criou-se o
Conservatório Nacional de Canto Orfeônico para a formação de professores, o
qual Villa dirigiu até sua morte, em 1959.
Por mais que se
possa ter criticado componentes daquele projeto, o canto orfeônico prestou
inestimáveis serviços à formação do brasileiro.
Com a criação do
“Guia Prático”, harmonização de 137 cantos populares das diversas regiões,
Villa fazia com que o Brasil se conhecesse por meio da música e, ao
vocalizá-los, que o jovem se autodisciplinasse. Nessas aulas chegava ao
jovem também a informação de um universo musical amplo, assim como o
conhecimento da música dos grandes mestres.
Em 1972, o coronel
Jarbas Passarinho, então ministro da Educação e Cultura, prestou um
desserviço à nação ao extinguir o ensino musical nas escolas, provavelmente
temendo o poder feiticeiro, talvez subversivo da música.
Nestes 36 anos,
não faltaram empenhos para trazer de volta o ensino musical ao jovem, já que
essa forma de expressão é a que mais acompanha o ser humano na vida.
Recentemente, a
senadora Roseana Sarney apresentou um projeto que alterava a Lei de
Diretrizes e Bases da Educação, de 1996, propondo a obrigatoriedade do
ensino musical nas escolas. Para surpresa geral, essa proposta foi aprovada
rápida e unanimemente no Senado e na Câmara. No dia 18/8, o presidente Lula
sancionou esse projeto de lei, dando três anos às comissões de ensino para
se adaptarem às exigências pedagógicas estabelecidas nos artigos 1º e 2º
dessa lei.
Surge agora o
debate de como conduzir a criação de um currículo. Teme-se que comissões de
endiabrados alquimistas se reúnam por décadas para a elaboração de um
monstrengo pedagógico, enquanto outros, sabedores da urgência da aplicação
desse ensino, optem pela criação de algo prático e imediato.
Sou da opinião de
que se crie uma comissão mínima para debater o assunto, com apoio do
Ministério da Cultura, e se elabore um currículo prático e compacto de no
máximo dez páginas. Para que, com ele, um músico de formação razoável - sem
mil diplomas, licenciaturas ou mestrados! - possa entrar numa sala de aula e
exibir vídeos, CDs, fazer as crianças cantarem o “Guia Prático”, conhecer os
hinos nacionais, tocar instrumentos simples, talvez fabricados por eles
mesmos, baseados nas experiências do método Carl Orff.
Assim, pode-se
abrir a mente dos jovens para muitas vivências sonoras e mostrar-lhes como é
grande e colorido o mundo musical universal, bem diferente daquele que ele
vê na TV.
E que se faça isso
rapidamente, antes que o processo de imbecilização coletiva via satélite
ganhe essa guerra. |