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TV Brasil: nada
será como antes? (3)
BETO ALMEIDA *
Vale lembrar que parte
das críticas desferidas à TV Brasil carecem de coerência, como as daqueles que
criticam o fato de que a emissora pública ainda não alcance todo o território
nacional, mas que, quando o presidente Lula tentou criar a Rede de Televisão
Institucional, a RTVI, se opuseram, como a Fenaj, para dar um exemplo,que emitiu
nota pública questionando a legitimidade do mandatário eleito por 53 milhões de
votos para criar por decreto uma rede de TV que hoje permitiria que tivéssemos o
sinal da TV Brasil, bem como das TVs Senado, Câmara, Justiça e das legislativas
estaduais, democratizados em todos os municípios brasileiros.
Vale lembrar que a
Abert também emitiu, na oportunidade, nota oficial que, como a Fenaj, era
contrária à criação da RTVI. Outros críticos, que reclamam da timidez do governo
federal de fazer o enfrentamento com a poderosa tirania midiática privada são,
em contrapartida, os mesmos que apóiam a aprovação do PL-29 pelo qual os
oligopólios midiáticos que controlam ferreamente o fluxo da informação mundial
passariam a ter o controle legal ilimitado sobre a televisão brasileira.
MEDIDA PROVISÓRIA
Há ainda aqueles
críticos que rejeitam a TV Brasil considerando-a não pública ou até ilegítima
pelo fato de ter nascido de uma Medida Provisória, mas que elogiam e citam como
exemplo de TV pública a BBC de Londres, fechando os olhos para o fato desta
emissora nascer de poder emanado pela monarquia, a famosa “Carta Real”, cujo
poder se construiu na história por meio de sanguinárias ações de rapina contra
os povos colonizados e explorados. Ao contrário, o mandato do presidente Lula
ema na de um poder social legítimo, das entranhas das lutas sociais e do voto
popular. A monarquia inglesa nunca foi eleita, seu poder se constituiu pela
violência colonial e agora, dando continuidade ao seu comportamento sinistro e
opressivo, pela violência imperialista, como a que a Inglaterra exerce ilegal e
criminosamente contra o Iraque, o Afeganistão e a Irlanda, ocupação militar
imperial que recebe sustentação editorial da BBC, tão elogiada pelos críticos da
TV Brasil.
É claro que há muito
que construir e alterar na TV Brasil e também no sistema de Rádio da EBC, que
ainda não deu sinais de pretender sequer disputar audiência transformando-se num
rádio vibrante, com jornalismo caliente, com sucursais espalhadas por todo o
país, mesmo com os custos baixos que isto representaria, etc.
Há também problemas
editoriais. Um exemplo de linha editorial inadequada está nos comentários feitos
pelo editor internacional da TV Brasil no programa ”Diálogo Nacional”, quando
chegou a afirmar ser paranóia a idéia de que há ameaça aos povos
latino-americanos na presença militar dos EUA na região. A resposta à alienação
do editor veio pelo tino político do próprio presidente Lula que pediu
explicações formais ao governo dos EUA sobre a presença da Quarta Frota nos
mares do sul. Mas, todos estes elementos desiguais e insuficientes, que podem
ser corrigidos sem trauma - basta que os editores leiam com mais atenção os
criativos discursos do presidente Lula, sobretudo os de improviso ou prestem
mais atenção à linha emanada pelo Itamaraty.
Nada disso impede
observar a grande qualidade e vantagem democráticas da TV Brasil em relação às
TVs comerciais. Basta considerar que a TV Brasil exibiu agora o documentário “A
guerra do gás na Bolívia” enquanto as TVs comerciais cobrem a situação boliviana
de modo unilateral, reverberando o preconceito elitista contra um governo
chefiado por um indígena eleito pelo voto popular e, uma vez mais, violentando a
Constituição Federal que preconiza, em seu preâmbulo, a criação de uma
comunidade latino-americana de Nações. Será que a mídia privada não se deu conta
ainda de que a Unasul foi criada e atuou de modo soberano e independente, sem
vassalagem aos EUA, nesta crise da Bolívia?
SINAL ABERTO
As tarefas são
gritantemente claras: é preciso que o sinal da TV Brasil alcance todo território
brasileiro, tal como ocorre com as emissoras privadas, que recebem polpudas
verbas do orçamento público para isto; é preciso ter sinal aberto em todas as
grandes capitais, como estão conseguindo já fazer as TVs Senado e Câmara; é
preciso vencer o entulho privativista da Anatel que ainda impede a
simples presença da TV Brasil no cabo; é inadiável ter uma rede de rádio com
jornalismo público, plural e democrático, para oferecer ao grande público
alternativas radiofônicas ao rádio comercial que segue delirantemente em
campanhas privateiras, em cruzadas anti-governistas, distantes dos pressupostos
básicos do bom jornalismo. E violentando a Constituição. Estas também são
tarefas para a Sociedade dos Amigos da TV Brasil, que precisa ser formada para
que surjam instrumentos democráticos de participação nesta luta de consolidação
e lapidação da emissora criada.
Mas, tudo isto implica
também em estabelecer uma relação de cooperação e de interação com o público, a
exemplo do que faz hoje o próprio presidente Lula que vai até a sede da UNE e a
convoca a sair às ruas em torno de uma nova Campanha “O petróleo é nosso”, ou
quando sugere aos metalúrgicos, na sede do Sindicato, que se movimentem para a
melhoria salarial nesta farra de grandes lucros das montadoras, como reivindica
a greve recente dos trabalhadores do ABC.
Os gestos do
presidente servem de recado também para a direção da TV Brasil... Devemos tomar
a criação da TV Brasil Também como sendo uma convocação do presidente Lula, que
encarna uma história de luta social, para que também participemos ativamente
deste desafio de dotar o Brasil de outra realidade televisiva, democrática,
sintonizada com a Constituição. A diferença é abissal: enquanto o presidente
anterior mandava o exército para reprimir a greve dos petroleiros, o presidente
Lula vai aos sindicatos, vai à sede da UNE, questiona a presença da Quarta Frota
dos EUA, apóia o governo Evo Morales contra ações golpistas. Este comportamento
político deve ser considerado pelo movimento sindical-social e de luta pela
democratização da comunicação para sair ou da contemplação, ou da crítica
paralisante, ou do ceticismo igualmente cômodo e inoperante.
Devemos utilizá-lo
como medida das iniciativas políticas que podemos utilizar, dentro de um
processo contraditório, com obstáculos que estão dentro e fora das estruturas do
governo, para que reconheçamos também as condições políticas para ações
construtivas para que a TV Brasil tenha de fato uma programação cada dia mais
criativa, mais dialogal com o seu público, que seus instrumentos como a
Ouvidoria sejam fortalecidos e usados com zêlo para assumirmos parcela de
responsabilidade pelos destinos da TV Brasil.
SOCIEDADE DOS
AMIGOS DA TV BRASIL
Cabe a todos nós
identificados com a causa da democratização da comunicação, com a necessária
expansão e qualificação da comunicação do campo público, aos jornalistas,
intelectuais, sindicatos de trabalhadores, TVs comunitárias, universitárias,
educativas, tomar iniciativas para a consolidação, o fortalecimento e a
qualificação crescente da TV Brasil, da Rádio Nacional, da EBC, organizando um
movimento político, social, cultural para fazer frente à inevitável reação e
sabotagem que sempre virão do campo da tirania da mídia privada.
Por isso mesmo, para
que nossas críticas sejam cada vez mais sintonizadas com um caráter construtivo,
para que as iniciativas a serem sugeridas possam encontrar um eco conseqüente e
organizativo, para que possamos ampliar a participação nos já existentes espaços
democráticos dentro da EBC, que devem ser alargados, multiplicados e
enriquecidos, entendemos que chegou a hora também de se discutir e organizar uma
Sociedade dos Amigos da TV Brasil.
Esta emissora que
nasce de fóruns democráticos, que tem lastro em décadas de luta dos
trabalhadores, comunicadores populares, intelectuais e artistas, que nasce do
compromisso do próprio presidente da República com estas bandeiras e que deve
ser considerada como uma ferramenta em permanente construção, precisa agora de
um instrumento para esta lapidação cidadã, instrumento que ofereça o apoio
crítico conseqüente e organizado, com uma participação sistemática e regular na
formulação e elaboração de mecanismos que aprimorem a sua programação.
É hora de criar a
Sociedade dos Amigos da TV Brasil: para assegurar e consolidar a missão pública
desta TV e ajudar a pagar a dívida informativo-cultural que temos junto ao povo
brasileiro! Para que não percamos esta oportunidade que as mudanças históricas,
aqui e na América Latina, está nos oferecendo, com todos os riscos, dificuldades
e desafios que temos que enfrentar. Para que não sejamos historicamente colhidos
pela dispersão, pela perplexidade ou pela passividade. E, finalmente, para que
possamos dizer em breve, como em outra música dos mineiros “Nada será como
antes”.
* É jornalista e
presidente da TV Comunitária de Brasília. |