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Bailout: Salvamento de poucos e servidão para muitos - parte 1
Nós estamos entrando agora no fim
dos tempos financeiros. O “Plano A” (comprar hipotecas bichadas) fracassou, o
“Plano B” (comprar ações inferiores nos bancos para recapitalizá-los sem varrer
os atuais maus administradores) é um fiasco e as dívidas ainda assim não podem
ser pagas. Esta é a realidade com a qual Wall Street evita se confrontar.
“Primeiro eles o ignoram, depois eles o denunciam e após isso dizem que sempre
souberam o que você estava dizendo”, disse Gandhi. O mesmo se pode dizer da
atual projeção de dívidas excedendo a capacidade da economia para pagá-las.
Primeiro, os que tomam decisões políticas simulavam que elas podiam ser pagas,
depois denunciaram os pessimistas por propagar o pânico, e então disseram que é
claro que os estudantes vêm sendo ensinados há quatro mil anos, que a “mágica do
juro composto” se mantém duplicando e reduplicando as dívidas mais rápido do que
a economia pode arrancar um excedente econômico para pagá-las.
O que acabou agora é a idéia de
que “a magia do juro composto” pode tornar ricas as economias sem necessidade de
trabalho nem indústria. Espero que tenhamos visto o fim das fórmulas derivativas
que buscam fazer dinheiro com jogos de soma zero. Uma dívida inflada acaba
sempre na execução da propriedade do devedor ou na anulação da dívida a fim de
preservar a liberdade e a eqüidade geral da economia.
TODAS AS OPÇÕES
Isto significa que a economia
pós-moderna tal como a conhecemos deve acabar – seja na polarização financeira e
na servidão dos devedores a uma nova elite oligárquica, ou no cancelamento da
dívida, num Ano de Jubileu [perdão de dívidas] para resgatar a sociedade. Mas
quando o governo diz que está analisando “todas” as opções, esta realidade não é
uma delas. A primeira opção do secretário do Tesouro Henry Paulson foi comprar
pacotes de hipotecas bichadas (obrigações de débito colateralizadas, CDOs) para
salvar os investidores institucionais mais ricos de terem de assumir as perdas
de suas más apostas. Quando esta não foi suficiente, ele surgiu com um “Plano
B”: dar dinheiro aos bancos. Mas enquanto a Inglaterra e os países europeus
falavam em nacionalização de bancos ou ao menos em ter ações controladoras, o
Sr. Paulson cedeu aos seus amigos de Wall Street e prometeu que a compra de
ações pelo governo não seria real. Não haveria diluição dos atuais acionistas e
o investimento do governo seria sem direito a voto. Para coroar a concessão aos
seus compadres, o Sr. Paulson concordou até mesmo em não pedir aos executivos
que abandonassem seus pára-quedas dourados, nem os seus exorbitantes bônus
anuais ou salários.
O Plano A (os US$ 700 bilhões para
comprar lixo apoiado em hipotecas que o setor privado não comprará) fracassou
parcialmente porque deixava as instituições financeiras evitarem estabelecer um
valor justo aos pacotes de dívida que estavam vendendo. Ao invés de contar a
verdade sobre sua posição financeira (remetendo seus ativos aos preços de
mercado), elas podem “remeter a modelos”, estilo Enron. Já vimos o resultado
disso: uma semana inteira de mergulho nos preços de mercado das ações. A mídia
chama isto de pânico, mas não há nada de irracional a respeito. Quem em sã
consciência compraria títulos ou compraria participação num banco sem saber o
que estes títulos valem? A fé em modelos matemáticos podres acabou.
Assim, ainda aguardamos uma
resposta pública para o problema de como quantificar as dívidas. Que interesse
econômico irá prevalecer: o dos devedores, como tem sido o caso de forma
progressiva ao longo dos últimos oito séculos; ou o dos credores, os quais
lutaram contra isso a fim de criar uma economia neoliberal controlada pelo
“departamento de bombeiros”?
Não é tarde demais para decidir
qual estrada tomar, mas os banqueiros e credores de Wall Street tomaram a
dianteira em se posicionar. Ao verem a direção em que sopravam os ventos
políticos, se mexeram para esvaziar os cofres do Tesouro antes das eleições de 3
de novembro, à semelhança do modo como populações medievais fugiam diante de uma
horda de invasores mongóis sob Genghis Khan. “Estamos de mudança. Limpem os
armários”, assim como o Lehman Brothers esvaziou as suas contas bancárias
externas, na Inglaterra e em outros lugares, pouco antes de declarar bancarrota,
sacando o que podiam, passando informações aos seus melhores amigos.
A justificativa era de que se
tornara preciso um salvamento (bailout) para restaurar a confiança. Mas a semana
seguinte mostrou que as afirmações eram falsas. O bailout não inverteu a
tendência no mercado de ações como fora prometido. A média das taxas Dow Jones
para a indústria caiu 2.200 pontos de quarta-feira, 1 de Outubro, até a
sexta-feira seguinte, 10 de Outubro – oito dias de queda initerruptos, sem
pausas para os habituais zigue-zagues habituais. O mergulho de sexta-feira foi
de 100 pontos por minuto pelos primeiros sete minutos – caindo 690 pontos, para
abaixo de 8.000. Cada 100 pontos era uma queda de mais de 1%, que se refletiu na
NASDAQ. Nada conseguia sustentar a pressão de tantos americanos convertendo os
seus fundos mútuos em dinheiro da noite para o dia e de tantos estrangeiros
localizados em fusos horários adiantados colocando suas ações em posição de
venda no mercado.
Os investidores de curto prazo
[short sellers] fizeram uma das maiores e mais rápidas fortunas de todos os
tempos, e cobriram suas posições recomprando as ações que haviam acabado de
vender. Isto empurrou os preços para cima até mesmo a posição positiva pouco
antes das 10h30 quando George Bush começou a falar. Metade das ações financeiras
mostravam ganhos – um sinal de que a equipe da “proteção contra a submersão”
[grupo criado por Reagan para intervir nas quedas da bolsa, integrado pela fina
flor da especulação] havia pulado para dentro. Mas o Sr. Bush nada disse de
útil e as ações voltaram à queda livre, acabando por cair outros 128 pontos a
despeito da proximidade da reunião do G7 no fim de semana seguinte. Não se falou
sobre reduzir os níveis de endividamento – apenas de se dar mais dinheiro aos
bancos, companhias de seguros e outros corretores de dinheiro, como se ‘mexer as
cordas’ de alguma forma os levasse a conceder ainda mais empréstimos a uma
economia já dominada pelo endividamento.
Se o Congresso realmente quisesse
restaurar a confiança, eis o que poderia ter feito: Primeiro, ajustar [a dívida]
ao mercado, não ao modelo. Os investidores já não acreditam na contabilidade
americana estilo Enron, nas agências de classificação de dívida ou em
seguradoras de risco monolíticas. Eles não acreditam na honestidade dos bancos
dos EUA acerca de suas posições financeiras. Preocupam-se com as acusações de
fraude apresentadas por procuradores-gerais de onze estados contra emprestadores
predatórios tais como o Countrywide e o Wachovia que o Citibank, o JPMorgan
Chase e o Bank of America estavam tão ansiosos para comprar.
Então, é tarde demais para o
Congresso mudar de idéia e repelir as concessões? Se os US$ 700 bilhões
entregues não estabilizaram o que se tornara irrecuperável para os pequenos
investidores, fundos de pensão e mesmo o próprio setor financeiro, o que é que
fez?
O que é que o Fed tem feito
enquanto a mídia não está olhando?
FEDERAL RESERVE
Vamos colocar a doação em
perspectiva. Enquanto senadores e deputados sujeitos à escolha dos eleitores
estavam debatendo os US$ 700 bilhões para os grandes contribuintes de Wall
Street a ambos os partidos (admitido apenas para iniciantes, explicou o sr.
Paulson), o Federal Reserve já havia dado ainda mais, sem qualquer discussão
pública e sem que os principais meios de comunicação percebessem. Desde que o
Bear Stearns fracassou em março, o Federal Reserve tem utilizado as letras
pequenas do seu estatuto para sair dos seus clientes normais (que supostamente
seriam bancos comerciais), para dar a bancos de investimento, corretoras e agora
grandes corporações, quase indiscriminadamente, uns US$ 875 bilhões em trocas de
“dinheiro por lixo” (as estatísticas são divulgadas a cada semana no relatório
H41 do Fed). Assim como Aladim oferecendo lâmpadas novas em troca de velhas, o
Fed trocou títulos do Tesouro por hipotecas bichadas e outros títulos que
corretoras e bancos de investimento não haviam tido tempo de penhorar na OPEP,
ricos fundos soberanos asiáticos ou outros investidores.
A imprensa louva o sr. Bernanke
como “um estudioso da Grande Depressão”. Se ele o fosse, deveria saber que o que
levou ao colapso de 1929 foram as gritantes políticas de crédito do governo dos
EUA para os governos aliados da Primeira Guerra Mundial. Isto criou uma situação
em que o Federal Reserve tinha de proporcionar crédito fácil para manter taxas
de juro artificialmente baixas de modo a encorajar investidores estadunidenses a
emprestar à Inglaterra e Alemanha, as quais utilizariam estes ingressos de
dólares para pagar a suas armas entre aliados e as suas dívidas de reparações de
guerra. O antecessor do sr. Bernanke, Alan Greenspan, promoveu o crédito fácil
simplesmente por razões ideológicas, para enriquecer Wall Street permitindo-lhe
vender mais dívida.
Um estudioso da Grande Depressão
entenderia os conflitos de interesse entre os bancos comerciais de varejo e os
de investimentos no atacado e corretores de dinheiro que, em 1933, levaram o
Congresso a aprovar o Glass-Steagall Act – conflitos que foram desencadeados
novamente quando o presidente Clinton apoiou o então presidente do Fed, Alan
Greenspan, e o líder republicano (e herói de McCain) senador Phil Gramm, que
lideraram a revogação desta lei abrindo as comportas para o jogo duplo
financeiro que tem custado tanto à economia americana.
Se o sr. Bernanke não conhece esta
história, o seu comportamento é simplesmente o de um estudante oportunista da
arte da auto-promoção política, do servilismo a Wall Street ao fazer campanha
para uma última grande retirada fraude antes que o governo Bush caia fora dos
negócios. O Fed deu a Wall Street títulos do Tesouro recém impressos,
acrescentados à dívida nacional a partir de ar rarefeito. Ele fez isto sem
sentir qualquer necessidade de racionalização ao expor absurdas imagens de
relações públicas sobre como o governo pode “dar um lucro para os
contribuintes”.
O presidente do Fed não é eleito
democraticamente. Ele tradicionalmente é designado pelo setor financeiro de Wall
Street que o Fed supostamente tem que regular, atua como seu lobista, dos
interesses dos credores – os 10% no topo da população – contra os daqueles 90%
da base que estão endividados. Esta “independência do banco central” é
trombeteada como uma marca distintiva da democracia. Mas ela é não democrática
precisamente por ser isolada do controle público.
A ERA DA OLIGARQUIA
O secretário do Tesouro Paulson
não desfruta deste luxo. Presume-se que o Tesouro represente o interesse
nacional, não aquele dos banqueiros – mesmo que a sua chefia nestes dias saia de
Wall Street e atue como o seu lobista. O Sr. Paulson apresentou sua doação quase
totalitária de forma grosseira ao Congresso, na base do pegar-ou-largar,
proclamando que se o Congresso não salvasse Wall Street de assumir as perdas de
sua montanha de maus empréstimos, os bancos estavam dispostos a despedaçar a
economia por rancor. “Por favor, não nos façam arruinar a economia”, disse ele
de fato. Tal como Margaret Thatcher costumava dizer enquanto vendia as jóias da
coroa do governo britânico na década de 1980: Não há alternativa.
Ao fazer esta aberta ameaça o Sr.
Paulson comportou-se tão arrogantemente quanto o presidente do Lehman, Richard
Fuld, quando tentou blefar com a Coréia e outros investidores em perspectiva
induzindo-os a pagar pela sua companhia o valor integral, ficticiamente alto,
inscrito na contabilidade. (Seu blefe fracassou e o Lehman entrou em bancarrota,
limpando seus acionistas, incluindo os empregados e administradores que possuíam
30% das suas ações). Depois de tudo, esta foi a alternativa. Em reação à mais
estrondosa condenação pública de que se tem memória, o Congresso bancou o logro
do Sr. Paulson.
O que tornou o seu Programa de
Socorro a Ativos Problemáticos (Troubled Asset Relief Program, TARP) de US$ 700
bilhões muito mais visível para a mídia do que as ações do Fed foi o
envolvimento do Congresso, e isto num ano de eleições. O nível de mentiras e de
argumentos falsos é portanto enorme – juntamente com umas poucas compensações e
cortes fiscais para distrair a atenções. Antigamente o senador republicano Jeff
Sessions, do Alabama, diria que “esta lei foi empacotada com um bocado de coisas
muito populares para lhe dar mais força”, de modo que (como explicou The New
York Times), “ao invés de tomar partido por um salvamento de US$ 700 bilhões,
agora os legisladores podiam dizer agora que votaram pelo aumento na proteção
aos depósitos no banco da vizinhança, pelo alívio do imposto para contribuintes
da classe média e por ajuda a escolas em áreas rurais onde o governo federal
possui grande parte da terra”.
Enquanto os crentes nas virtudes
do livre mercado de Wall Street subiam ao paraíso pelo “socialismo para os
ricos”, eram deixados para trás os devedores hipotecários, os devedores dos
empréstimos para estudantes, a Corporação de Garantia do Benefício Pensionista (PBGC,
descoberta em cerca de US$ 25 bilhões), a Corporação Federal de Seguro de
Depósito (FDIC, descoberta em cerca de US$ 40 bilhões), assim como a Seguradora
Social a qual, advertiram-nos, pode chegar a um déficit de um trilhão de dólares
dentro de 30 ou 40 anos. Apenas os mais ricos têm sido beneficiados, não os
eleitores, proprietários de casas e outros devedores.
Ainda assim, o Congresso foi
aterrorizado até agir na sexta-feira, 3 de outubro, porque uma semana antes, 26
de setembro, as ações haviam caído 777 pontos depois de congressistas
corresponderem a um volume sem precedentes de protestos de eleitores contra o
‘resgate’. “Estes idiotas podem cair”, advertiu o presidente Bush enquanto
lobistas de Wall Street atribuíam a culpa pela queda no mercado ao fracasso do
Congresso em preservar o “sistema monetário”, e especificamente os bancos e
companhias de seguros que já haviam perdido o seu valor líquido e estavam
mergulhando mais profundamente no terreno de liquidez negativa. Os líderes
democratas Barney Frank e a presidente da Câmara, Nancy Pelosi, disseram, de
fato: “Olhem o que fizeram! Vocês políticos irresponsáveis estão exibindo
princípios, limpando as poupanças das pessoas que estão aplicadas em ações e
ameaçando seus fundos de pensão. Se não derem às firmas de Wall Street dinheiro
o bastante para cobrirem suas perdas de modo que todos ganhem, eles matarão a
economia até encontrarem uma saída”. Bem, eles não disseram estas palavras
exatamente assim, mas esta foi basicamente a sua mensagem. Era certamente a
mensagem de Wall Street: “Wall Street para a Economia: Seu dinheiro ou sua
vida”.
MICHAEL HUDSON
* Michael
Hudson é ex-economista de Wall Street, especialista em balanços de pagamentos do
Chase Manhattan. É professor na Universidade do Missouri, e foi assessor
econômico do deputado democrata Dennis Kucinich. Escreveu o livro “Super
imperialismo: A Estratégia Econômica do Império Americano”.
** Artigo
originalmente publicado sob o título ‘Resgate para os poucos, escravidão da
dívida para a maioria: O Congresso deveria nos salvar do salvamento’ (Rescue for
the Few, Debt slavery for the Many: Congress should bail out of the Bailout), no
site Counterpunch.org |