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Morte de Eloá revela abandono
a que
governo relegou a polícia
A declaração do secretário de
Justiça do Estado de São Paulo, Luiz Antônio Marrey Filho, de que a ação do
Grupo de Ações Táticas Especiais (Gate) no caso de cárcere privado e
assassinato da jovem Eloá Cristina Pimentel, será “apurada em uma
investigação profissional” parece a típica manobra encobridora - não da ação
da PM, que fez o que pôde, mas da situação em que o governo do Estado deixou
a polícia, evidenciada por um momento crítico.
Todos os depoimentos até agora
(o da amiga de Eloá, Nayara, obtido entre sua liberação e a volta ao
apartamento, e os testemunhos dos dois irmãos da jovem assassinada) sugerem
fortemente que o assassino, Lindemberg Alves, era portador de um distúrbio
de personalidade - muito possivelmente uma “personalidade borderline”,
extremamente “lábil”, como dizem os psiquiatras, ou seja, de uma
instabilidade que torna seus portadores, em situações de frustração intensa,
mais perigosos que um barril de pólvora no meio de um incêndio, pois é mais
fácil prever que o barril irá explodir do que a conduta a curto prazo de um
indivíduo destes.
SEM APOIO
No entanto, durante mais de
100 horas – quatro dias e três noites – os policiais foram deixados sem
nenhum apoio especializado, à mercê da imprensa, que cevou o ego do
sequestrador a mais não poder, e sem nenhum dos aparatos mais sofisticados
que são usados em casos desse tipo.
Como revelou Rodrigo Pimentel,
ex-oficial da PM do Rio que conversou com os integrantes do Gate após o
assassinato de Eloá, num artigo escrito em parceria com o cineasta José
Padilha, “se o Gate dispusesse [de] uma microcâmera de fibra ótica, saberia
que o seqüestrador tinha encostado um armário de TV e uma estante na porta
de entrada do apartamento. Saberia que seqüestrador e reféns não estavam na
sala, mas no quarto. Saberia que uma invasão pela porta da frente daria
tempo para o seqüestrador atirar nas reféns. Se o Gate dispusesse de escada
com alcance para que um policial pudesse entrar no apartamento pela janela,
poderia ter evitado a tragédia. Mas a escada do Gate, como atestam as
filmagens, era curta demais”.
Nenhum desses equipamentos –
ainda menos a escada – é caro para um Estado como São Paulo. No entanto, num
sequestro que durou quatro dias, o Gate não usou nenhum equipamento como os
referidos por Pimentel, simplesmente porque não os possuía.
Em suma, a PM teve que
enfrentar a situação usando apenas o bom senso e a dedicação dos soldados e
oficiais do Gate, um grupo do Batalhão de Choque treinado para momentos
críticos, mas não para lidar durante dias com um distúrbio psiquiátrico dos
mais difíceis de abordar, sem dispor de um apoio nessa área, e sem dispor de
nenhum equipamento mais adequado a uma situação desse tipo. E, não menos
importante, com seus profissionais ganhando a mesma miséria da Polícia
Civil, que está em greve (v. página 5 – os salários da PM e da Polícia Civil
foram equiparados pelo governo do Estado, ainda que ilegalmente).
SUCATEAMENTO
Assim, o que precisa de “uma
investigação profissional” é o sucateamento a que há 14 anos sucessivas
administrações estaduais de São Paulo submetem a polícia, militar e civil.
E, também, a total inação do governo atual, sucessor e correligionário das
administrações passadas, em apoiar os oficiais e soldados do Gate que
tentavam salvar Eloá e sua amiga Nayara.
Em sua declaração, o
secretário de Justiça do governador Serra acabou por colocar em relevo a
hipocrisia do suposto apoio do governo à polícia, manifestado pelo próprio
Serra após o assassinato de Eloá.
Certamente, os profissionais
do Gate, a família de Eloá e o povo prefeririam que Serra tivesse apoiado a
polícia antes que Lindemberg assassinasse a jovem.
Porém, mesmo o apoio posterior
não parece mais do que interesse do momento eleitoral. Qualquer coisa vale
para fugir à responsabilidade, mesmo apoiar uma polícia que eles,
notoriamente, deixaram ao léu - e com a qual não pretendem gastar dinheiro,
sempre reservado para bancos ou para outros destinos.
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CARLOS LOPES |