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Serra e a blindagem da TV
Globo
GILSON
CARONI FILHO *
A
cobertura dada pela TV Globo ao confronto entre policiais civis e militares, nas
proximidades do Palácio dos Bandeirantes, sede do governo paulista, foi um show
de culinária. Não bastasse o silêncio durante a tarde, a edição de 16/10 do
Jornal Nacional se esmerou em cozinhar textos de uma só fonte para oferecer um
produto pouco informativo, incompleto e sem qualquer rigor na apuração.
Entende-se. A correta contextualização dos fatos poderia arranhar a imagem do
governador José Serra. E de um modo de governar que tem na incapacidade de
negociação o DNA tucano.
O
interessante é que não estamos diante de um caso isolado ou de falha provocada
por profissionais inexperientes e/ou incompetentes. Muito pelo contrário. Mais
uma vez, a emissora da família Marinho, reuniu a nata da casa, para subordinar o
exercício do bom jornalismo, e as responsabilidades a ele inerentes, ao projeto
eleitoral do consórcio PSDB/DEM.
As
imagens de um conflito em que foram utilizadas bombas de gás lacrimogêneo,
munição convencional e de borracha foram ao ar acompanhadas do texto que melhor
convinha ao “padrão Globo” de divulgação de notícias. Para o telespectador, a
intransigência tinha um só lado: policiais, sindicalistas e partidos políticos,
com destaque para o PT, é claro. Não havia greve que se arrasta há um mês e
muito menos uma categoria que tem a média salarial mais baixa que o piso de 11
estados. A registrar, uma disfuncão, nada mais.
O
que Perseu Abramo destacou como “padrões de ocultação”, “fragmentação” e
“inversão” foram a tônica de um noticiário mais empenhado em evitar desgaste de
Serra na véspera do segundo turno das eleições municipais do que explicar os
motivos que levaram a barbárie a tomar as ruas paulistanas.
Microfones abertos para o principal personagem a ser blindado e sua versão
pautou a cobertura. O relato da emissora serviu como narrativa de corroboração.
“O
governador José Serra disse que o protesto foi feito por uma minoria e que é
ilegal. “Essa manifestação reuniu, no máximo, 1.000, 1.200 pessoas. A Polícia
Civil tem 35 mil efetivos. Trata-se, portanto, de uma minoria. Muitos dos
participantes não são da polícia, são de outros sindicatos, da CUT e da Força
Sindical. Há partidos políticos por trás”.
Serra também criticou o uso de armas pelos manifestantes. “Armas são entregues
às polícias para defenderem o povo contra os criminosos. Não para servirem a
movimentos políticos reivindicatórios. Reivindicação se faz na mesa conversando,
não com violência. Isso nós não aceitamos”.
E se
tivesse havido diálogo, a crise teria chegado a esse ponto? Confronto entre
policiais não aponta para crise institucional? Será isso o que estamos vivendo
no Estado mais rico do país? Onde ocorreu embates envolvendo forças de segurança
antes? Em Belo Horizonte, há 11 anos. A que partido pertencia o então governador
de Minas, Eduardo Azeredo? São questões por demais delicadas para que o
jornalismo global possa fazer qualquer aprofundamento.
Mas
o “melhor”, em matéria de manipulação, estava guardado para o dia seguinte. Na
edição de 17/10 do Bom Dia Brasil. Com ar contrito, o jornalista Renato Machado
anunciou que “A população de São Paulo assistiu atônita a mais um exemplo da
crise que assola a segurança pública no Brasil”.
A
nacionalização do conflito esclarece o planejamento da agenda. Como no Brasil? É
em São Paulo, e sob as ordens de um governador do PSDB, que polícia atira em
polícia. Essa é uma anomia exclusivamente tucana. O ato falho talvez tenha
revelado o que a emissora antecipa para 2010.
Gilson Caroni Filho é professor de Sociologia das Faculdades Integradas Hélio
Alonso (Facha), no Rio de Janeiro, colaborador da Hora do Povo, do Observatório
da Imprensa e colunista da Carta Maior. |