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Não há dinheiro no mundo para cobrir montanha de
derivativos
“Ninguém sabe que porção dos US$ 55 trilhões de contratos em derivativos de
crédito inadimplentes será honrada”, ressalta o escritor norte-americano Chris
Floyd, em seu artigo cuja íntegra publicamos a seguir
CHRIS FLOYD
Esta é
a fera no escuro que caça os frágeis líderes do mundo desenvolvido: US$ 55
trilhões de dívida não contabilizada, e sem condições de se saber quanto dela
está, neste momento sendo jogada pela
descarga,
levando a economia global com ela. O mito que rapidamente se consolidou é de que
a quebra global foi causada por más hipotecas. Isto permitiu que os senhores do
ódio da direita culpassem pelo derretimento os programas “liberais” que
encorajaram a propriedade de casas a uma pequena percentagem dentre as pessoas
de baixa renda (um boato venenoso que parte da mídia preponderante fez um
razoável serviço de derrubar), enquanto “progressistas” de várias vertentes
denunciavam bancos e outras instituições financeiras por empurrarem créditos
super-fáceis para pessoas que realmente não os podiam pagar.
HIPOTECAS
Hipotecas insustentáveis são um fator chave na quebradeira global, claro. E
muita gente (a maior parte brancos, diga-se de passagem) que tomou hipotecas que
não poderia pagar caso a bolha das moradias viesse a explodir, como aconteceu,
da forma mais espetacular. E sim, é inegável que a indústria de serviços
financeiros tem tentado as pessoas com crédito fácil do jeito como traficantes
de pátio de escola vão passando rapidamente cigarros de maconha.
Tudo
isso estava fadado a acabar mal e acabou. Mas somente isso não seria suficiente
para ameaçar de destruição todo o sistema financeiro, nem causar o cego e
gritante pânico que estrangulou os mercados financeiros, tomou conta do fluxo
vital de dinheiro entre bancos, e forçou os governos do mundo ocidental que
veneravam o “livre” mercado a levarem a efeito nacionalizações e intervenções
que, do ponto de vista meramente numérico, tornam anã qualquer coisa já vista
após uma revolução comunista (como nota John Lancaster na London Review of Books,
a tomada de Fannie Mae e Fredy Mac sozinha foi “em temos de dinheiro, a maior
nacionalização na história mundial”. E isso era apenas o começo.)
O que
espalhou medo mortal no coração de mercados e governos não são as más hipotecas,
mas o quase incompreensivelmente gigantesco e complexo mercado de “derivativos”,
baseado em parte em dívidas hipotecárias – mas também em uma vasta série de
outras fontes que foram “securitizadas”, transformadas em commodities fantasmas
negociáveis e depois vendidas numa selvagem variedade de formas arcanas.
Isto
foi acompanhado de uma expansão de ainda outro mercado de mecanismos de seguros
desenhado para proteger estes derivativos – mecanismos que eles próprios se
tornaram “securitizados”.
Ao
mesmo tempo a indústria de serviços financeiros usou homens da mala pagos por
ela no mundo inteiro para afrouxar quase todas as restrições não apenas sobre a
securitização e comércio com derivativos, mas também quanto ao montante de
dívidas que as instituições podiam assumir para jogar nesses mercados vastamente
expandidos e desregulados. Por exemplo, Lancaster destaca que o banco inglês
Barclays tem uma razão dívida/capital próprio de 63 para 1:
Imagine
que, por um momento, isso fosse traduzido para suas próprias finanças, de forma
que você pudesse espichar o que realmente possui de forma inequívoca para tomar
emprestado sessenta vezes esse valor. (Eu possuiria uma ilha, e você?)
O
resultado de tudo isso tem sido a construção de um castelo de cartas
gargantuesco, baseado em algo próximo a nada, e deixado só à sombra da
construção da “tempestade perfeita” da ganância, desregulação e corrupção
política.
A
tempestade agora desabou. O castelo de cartas ruiu, e revelou um buraco de
débito com base em derivativos que não podia ser preenchido, literalmente, por
todo o dinheiro do mundo, muito menos pelos meros trilhões que os governos
nacionais estão freneticamente atirando nele hoje.
Sim,
“meros” trilhões. Como Will Hutton explica no Observer:
...o coração negro do sistema financeiro global [é] o mercado de US$ 55 trilhões
de derivativos de crédito e em particular, os chamados credit default swaps[CDSs],
mecanismos rotineiramente utilizados para segurar bancos de perdas em
investimentos arriscados. Este é um mercado mais de duas vezes o tamanho do PIB
combinado dos EUA, Japão, e União Européia. Até que ele seja limpo e a ameaça
tóxica que coloca tenha sido removida, a pandemia continua. Mesmo os bancos
nacionalizados, e os países que os apóiam, poderiam ser ultrapassados pela
escala de perdas que agora está emergindo.
Tente
imaginar isto: um mercado de US$ 55 trilhões agora sob risco de destruição
completa. Até dívidas em derivativos em posse de instituições individuais chegam
a níveis de bancarrota de uma nação. Por exemplo, um único banco na Inglaterra,
mais uma vez o Barclays, tem mais de US$ 2.4 trilhões em CDSs, o mecanismo
negociável de “seguros” contra a quebra de títulos. Isto é mais que todo o PIB
da Inglaterra. Se todos estes papéis vão mal, não há ações suficientes em todo o
país para pagá-los. E isto é apenas um banco em um país.
Hutton
dá os detalhes:
Este
mercado de créditos derivativos cresceu de forma explosiva durante a última
década em resposta ao mercado de US$ 10 trilhões em ações securitizadas – o
empa-cotamento de receitas das mais variadas fontes (aluguel de escritórios,
cobranças portuárias, pagamentos de hipotecas, estádios esportivos) e sua venda
subseqüente como título a ser negociado entre bancos.
Em
termos simples, estes títulos têm risco elevado, então o mercado inventou um
sistema de seguros. Um comprador de um bônus securitizado pode adquirir o que de
fato é um contrato de seguro que o protegerá da quebra do mesmo – um CDS. Mas de
forma diferente do contrato abrangente que você possui com uma companhia de
seguros, estes contratos de crédito contra quebra de títulos podem ser vendidos
ou comprados livremente. Modelos matemáticos complexos estão continuamente
estimando o risco e comparando-o com os preços de Mercado. Se o risco cai, os
CDSs ficam baratos; se o risco sobe – porque, digamos, uma agência de avaliação
declara que a companhia seguradora é menos sólida – o preço sobe. Os fundos de
hedge especulam com eles de forma selvagem.
O
propósito deles era criar uma solução de mercado para tornar os títulos menos
arriscados e, de fato, eles os tornaram mais arriscados, como nós agora
testemunhamos. O colapso do Lehman Brothers – a recusa de salvamento teve
consequência cataclísmica – significa que ele não pode mais honrar os U$$ 110
bilhões de títulos, nem os US$ 440 bilhões de CDSs que subscreveu. Na
sexta-feira, os contratos bichados começaram a ser leiloados, com os compradores
pagando insignificantes oito centavos por cada dólar. Colocado de outra forma,
existe agora um rombo de US$ 414 bilhões que alguém que tem esses contratos em
mãos tem que honrar. E se sua cabeça está rodando agora, acrescente os três
bancos falidos da Islândia. Eles não podem mais honrar os mais de US$ 50 bilhões
de títulos e muito menos os estonteantes US$ 200 bilhões de CDSs....
Enquanto cada banco tenta passar a parcela tóxica para qualquer outro, o sistema
tem que encontrar o dinheiro. Então, será a compensação pelos contratos quase
sem valor, e portanto agora dívida não segurada, finalmente realizada – e por
quem? E porque ninguém sabe – nem os órgãos de regulamentação, bancos ou
governos – quem tem a propriedade dos CDSs e se eles são dignos de crédito,
ninguém pode responder a questão. Talvez os que detentores de apólices de
seguros consigam o dinheiro que lhes é devido, mas irá isso enfraquecer alguém
mais? O resultado - pânico.
Este é
o ultra-perigoso e desclinante turbilhão no qual o sistema está trancafiado. É
por isso que os preços estão mergulhando. À medida que a recessão se aprofunda,
haverá inadimplência sobre os títulos securitizados e o colapso potencial de
mais bancos de fora do anel que cerca o G7. Ninguém sabe que porção dos US$ 55
trilhões de contratos de crédito inadimplentes que foram realmente
contabilizados será honrada e quem poderá suportar perdas que chegam a trilhões
de dólares.
Esta é
a fera no escuro que caça os frágeis líderes do mundo desenvolvido: US$ 55
trilhões de dívida não contabilizada, e sem condições de se saber quanto dela
está, neste momento, sendo jogada pela descarga, levando a economia global com
ela.
INTERVENÇÕES
As
intervenções massivas que estamos assistindo podem estabilizar os mercados
temporariamente, ou ao menos parar sua queda livre por tempo suficiente para que
emerja algum tipo de reestruturação massiva do sistema financeiro global. Ou
não. Por que não é de forma nenhuma garantido que a sabedoria, e coragem
política, para que surja um sistema mais viável sejam encontradas entre os
líderes políticos – todos eles, como notamos aqui no outro dia, devem seu
próprio poder e privilégios aos “malfeitores da grande riqueza” e ao culto
extremista do fundamentalismo de mercado. Não há indicação em lugar algum de que
o círculo de conspiração e corrupção entre governos e o Grande Dinheiro tenha ao
menos diminuído, muito menos quebrado, pela catástrofe econômica. Todos os
vários planos de salvamento (bailout) e “ações coordenadas” ainda têm como móvel
principal a preservação dos malfeitores em seu atual estado de riqueza,
privilégio e dominação. Como nota Jonathan Schwarz:
E ainda
as elites dos EUA, vão tentar impor tanto ajuste estrutural quanto puderem
arrancar, para fazer com que os 80% de americanos de baixo paguem o preço das
espetaculares contorções das elites. O Washington Post já começou a escrever
sobre como a atual crise demonstra que devemos cortar na Previdência Social.
Esperem pela vinda de muito mais disso.
A única
tênue esperança que nós temos em uma genuína reforma – ainda que imperfeita,
conflitada, e com concessões, que o único tipo de reforma que teremos neste
mundo, até que o leão se deite com o cordeiro – é de que a enorme escala do
problema real – a fera de US$ 55 trilhões, o próprio potencial de completa
destruição da economia global, e do poder de Estado que depende dela – possa
forçar alguns políticos a se tornarem apóstatas, renunciarem ao culto do
mercado, e morderem as mãos que os alimentaram por tanto tempo.
Ausente
esta quase miraculosa possibilidade, ficaremos com mais um inseguro castelo de
cartas, estapeados juntos no vôo – em grande medida sob controle dos malfeitores
e para seu benefício – enquanto a fera escancara a boca com seus poderosos
maxilares, e se prepara para nos engolir inteiros.
Chris Floyd é escritor norte-americano com trabalhos publicados em vários
jornais e revistas e pela Universidade de Oxford. É co-fundador do blog Empire
Burlesque e editor-chefe do Atlantic Free Press |