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Bolívia: A face racista
da violência em Santa Cruz
A violência exercida por grupos paramilitares na semana
passada contra setores humildes do Estado boliviano de Santa Cruz tem um
triplo significado: mostra o racismo com que a ultra-direita busca recuperar
o espaço perdido, é um sinal de que as classes pobres estão perdendo o medo
da oligarquia e, para finalizar, que as batalhas definitivas a respeito do
futuro da revolução boliviana serão travadas nos Estados da chamada
“meia-lua.
A afirmação não é um exagero. É o resultado do quadro
político do território boliviano e suas forças: um ocidente onde o apoio ao
projeto eleitoral de Evo Morales não é menor do que 70% e um oriente no qual
o projeto de mudança vem conquistando a maior parte das cidades de Santa
Cruz, Beni, Pando e Tarija.
EMBAIXADOR
Isso explica porque a ultra-direita boliviana – com o
respaldo do embaixador dos EUA, Philip Goldberg, em uma reunião fechada em
Santa Cruz – está perdendo a pouca calma que lhe resta desde que um índio,
contra todos os prognósticos e agindo contra a “ordem natural” da democracia
boliviana, triunfou nas eleições de dezembro de 2005 com 54% dos votos e,
dois anos e meio depois, obtém uma esmagadora vitória, com 67,41% de
aprovação no referendo de 10 de agosto.
Demasiadas doses para tão pouco tempo. O impacto dessa
mudança radical na Bolívia foi além das expectativas e tirou de seu juízo os
setores mais conservadores das classes dominantes (cuja maior parte é de
origem estrangeira), que, encobrindo seus interesses de classe, apelaram
para o discurso regionalista e racista.
A chegada de Morales e dos movimentos sociais ao governo
elevaram a auto-estima individual e coletiva da maior parte dos bolivianos
(mais de 60% se reconhecem como indígenas), e agora nem os insultos ou a
violência física rendem os frutos que desde a conquista foram empregados
pelas classes dominantes.
DEBILIDADE
É por isso que as ações executadas pelo paramilitarismo da
União Juvenil Cruceñista (UJC), que só acata ordens do comitê cívico e do
governador Rubén Costas, constituem uma expressão que é mais de debilidade
do que de fortaleza. Não se trata de subestimar a situação da burguesia
boliviana, cuja opção pela violência aumenta à medida em que perdem
território político, mas um processo de expansão progressiva das idéias
transformadoras – opção que parece ser a tendência no oriente boliviano.
A prova mais contundente de que o povo está perdendo o medo
da oligarquia foi a marcha da sexta-feira, dia 29 de agosto. O trabalhadores
convocados pela Central Obreira Departamental (COD) se dirigiram até a praça
principal da cidade de Santa Cruz, numa mostra de apoio à convocação
presidencial para o referendo de aprovação da Constituição, apesar das
ameaças dos membros da UJC.
Os paus, as pancadas e as palavras carregadas de ódio e
racismo, que se chocaram violentamente contra os rostos de mulheres e homens
humildes, deixando inclusive em estado de coma um deficiente, não foram
capazes de parar a insurgência popular na região.
Apesar de nesses dois anos e meio o processo de
enfrentamento contra toda forma de exclusão ter crescido no oriente
boliviano, foi somente em maio e junho passados que a rebelião social passou
a um nível superior, quando as oligarquias encontraram resistência a seus
estatutos autonômicos em amplas zonas rurais e nas próprias cidades desses
estados.
Esse nível de resposta ao caráter ilegal e ilegítimo dos
estatutos autonômicos, que encontraram mais de 40% de rechaço pela via da
abstenção, foi a manifestação mais contundente de uma rebelião social no
coração dos territórios da burguesia agro-exportadora e latifundiária.
Assim, uma alta porcentagem dos habitantes dos quatro
estados da meia-lua quer voltar a se manifestar em dezembro por meio do
voto. Mas, antes que chegue a data, as classes populares enfrentarão
batalhas das quais dependerá muito o triunfo no referendo constitucional.
HUGO MOLDIZ*
*Líder do partido de Evo Morales, MAS e do Estado Maior dos Povos,
organização que congrega a maior parte dos movimentos sociais bolivianos. |