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Um
goleiro muito melindrado
Gilson Caroni Filho *
Inconformado com as
críticas do presidente da República à seleção brasileira, o goleiro Júlio César
resolveu chamar para si os holofotes da mídia nativa. Irritado com os elogios de
Lula à disposição demonstrada pelos argentinos nos jogos olímpicos, o atleta
sugeriu que ele deveria renunciar, mudar para o país vizinho, alegando que
“talvez o Brasil melhore em alguma coisa”. Não deu outra, o “desabafo” calculado
já está nos principais portais jornalísticos de 5 de setembro e, com certeza,
será destaque na grande imprensa, nas edições de final de semana. O sociólogo
Gilberto Freyre, um dos mais renomados estudiosos da cultura brasileira já
afirmava, em artigo escrito em 1945, “que o futebol brasileiro é, na sua
essência,” uma dança cheia de surpresas irracionais e variações dionisíacas. O
futebol, que Júlio César não conheceu, ficou famoso no mundo inteiro por seu
estilo criativo e espontâneo de jogar, pelos dribles que venciam o mais rígido
esquema tático, pelo lúdico que foi chamado de futebol-arte. Nada disso é
familiar ao goleiro, garoto de classe média, que também desempenha o papel de
marido de celebridade global. Como destaca o antropólogo Marcos Alves de Souza
em sua dissertação de Mestrado (“A nação em chuteiras: Raça e Masculinidade no
Futebol Brasileiro”), “o jogador, pela identificação, funciona como alter ego de
quem está torcendo, devendo, teoricamente, manter o seu autocontrole. O torcedor
desfruta, desta forma, da agressividade e volta ao controle sem perder o risco”.
O problema de Júlio César é a ilusão de que, com suas palavras, está sendo
porta-voz de uma “pátria de chuteiras” que clamava por desagravo. E que, ao
fazê-lo, compartilha sentimentos de quem compensa privações cotidianas pela
torcida por triunfos esportivos. A vida em Milão fez o ex-goleiro do Flamengo
perder qualquer senso de medida. É compreensível: como a escala de valores é
dada pelo estamento dominante com o qual nos identificamos, os modelos éticos de
Júlio César devem atender por Massimo Morati e Berlusconi. O último, então, deve
encarnar o tipo ideal de “estadista”. O interessante é quando o goleiro
recomenda sensatez ao presidente. “Aprendi uma coisa quando era pequeno. É
preciso pensar duas vezes antes de falar”. Há três anos, Júlio César prestava
depoimento na sede da Polinter, no Rio. Foi explicar o suposto envolvimento com
o então chefão das drogas na Rocinha, o traficante Erismar Rodrigues Moreira.
Convencida da inexistência de vínculos entre o atleta e o tráfico, a inspetora
Marina Maggessi, disse que o jogador foi ingênuo. “Ele não percebeu que o
traficante usava celebridades para atrair consumidores à favela”. Naquela época,
já não mais “pequeno”, ele não pensava duas vezes antes de escolher “com quem
falar”. Tivesse juízo, teria aprendido com a polêmica, criada pela imprensa,
entre o presidente e o atacante Ronaldo, às vésperas da Copa do Mundo de 2006.
Não é só o tráfico que usa celebridades para atingir seus fins. Há diversas
ribaltas à disposição. Basta procurar o repórter certo e deixar o resto para os
bons editores da praça. Quem melhor definiu a situação foi o jornalista
esportivo Lédio Carmona: “qual foi o exagero do Presidente Lula? Ele gosta de
futebol, tem um clube de coração, perde horas à frente da televisão observando,
discutindo e torcendo. Lula é um torcedor. E tem todo direito de ser. Então, ele
não fez nada demais ao comentar o que acha da entediante atual Seleção
Brasileira(...).” A falta de fair-play de alguns integrantes da seleção
brasileira com o discurso de Lula só mostra o quanto são mimados e melindrados
alguns jogadores. O piti de Julio César, dizendo que o presidente deveria se
mudar para a Argentina, é coisa de profissional imaturo e que só sabe conviver
com elogios”. É fato. Melhor seria manter a mesma postura serena de quando
atuava no Brasil. Para ter atuações equilibradas, um goleiro deve ignorar coros
que vêm das arquibancadas.
* Gilson Caroni
Filho é professor de Sociologia das Faculdades Integradas Hélio Alonso (Facha),
no Rio de Janeiro, colunista da Carta Maior e colaborador do Observatório da
Imprensa. |