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Os
censos da URSS e a fraude do “holocausto ucraniano” (1)
Na falta de fatos e
de lógica, a partir de 1983, a manipulação de números dos censos soviéticos
passou a ser o principal método dos mercenários, fascistas e outros
desclassificados para tentarem colocar em pé a fraude do “holocausto ucraniano”
A
fraude do “holocausto ucraniano” não é afirmar que houve fome na Ucrânia em
1932-1933. Nas localidades em que, durante a coletivização da agricultura, os
“kulaks” (os camponeses ricos) conseguiram destruir plantações e rebanhos, é
óbvio que houve dificuldades – e as próprias fontes soviéticas da época relatam
escassez localizada de alimentos devido à sabotagem “kulak”. Lembremos que no
início da coletivização havia, na URSS, 10 milhões de “kulaks” (para uma
população camponesa total de 120 milhões de pessoas) - e 1 milhão e 800 mil
deles, por sabotagem, foram condenados a mudar de localidade.
A fabricação do
“holocausto ucraniano” não é, portanto, a existência de fome em tal ou qual
lugar, mas a de que Stalin, deliberadamente, provocou uma fome artificial para
eliminar o povo ucraniano. Por que Stalin – que nem russo era – queria eliminar
o povo ucraniano, estando a URSS à beira da invasão e da guerra, previstas por
ele desde 1930, é coisa que os inventores dessa infâmia não se deram, até hoje,
ao trabalho de explicar. Evidentemente, projetava-se sobre Stalin o plano de
limpeza étnica de Hitler, anunciado por este em 1926, com menção explícita à
Ucrânia, no “Mein Kampf” – e parcialmente executado durante a II Guerra
Mundial, com ajuda dos traidores ucranianos, quando o país foi ocupado pelos
alemães.
O MÉTODO
Na falta de fatos e de
lógica, a partir de 1983, a manipulação de números dos censos soviéticos passou
a ser o principal método dos mercenários, fascistas e outros desclassificados
para tentarem colocar em pé a fraude do “holocausto ucraniano”. O método é
simples: atribui-se uma determinada taxa de natalidade à Ucrânia soviética e
comparam-se os dois censos nacionais soviéticos anteriores à II Guerra (1926 e
1939), subtraindo-se a população real de 1939 da que existiria se a taxa
de natalidade fosse verdadeira – e não morresse ninguém. A diferença são os
“mortos de fome” durante o inventado “holocausto ucraniano”.
O pioneiro do método
foi Walter Dushnyck, um colaborador dos nazistas e terrorista da “Organização
Militar Ucraniana” que refugiou-se nos EUA após a II Guerra (cf. seu obituário
em “Ukrainian Weekly”, cit. por Douglas Tottle, “Fraud, Famine and Fascism”,
Progress Books, Toronto, 1987, pág. 67).
Dushnyck
é autor de “50 Years Ago: The Famine Holocaust in Ukraine” (New York,
1983), um panfleto repleto de referências nazistas – inclusive a capa (uma
caveira branca sobre uma foice e um martelo vermelhos: um dos temas favoritos
dos posters hitleristas), as fotos da “fome ucraniana” publicadas originalmente
no jornal de Hitler, o “Völkischer Beobachter” (e nos de seu apoiador americano,
William Randolph Hearst), e as citações de livros nazistas sobre o mesmo
assunto.
Depois da incursão de
Dushnyck pela alucinose estatística, o método se tornou generalizado entre os
anti-comunistas mais inescrupulosos: Robert Conquest, que, para escrever seu
livro sobre o assunto, teve como ajudante James Mace, um dos seguidores do
método estatístico de Dushnyck, o adotou, assim como o debilóide Nicolas Werth,
organizador do infame “livro negro do comunismo”.
[Nicolas Werth, pela
mediocridade, merece uma observação à parte: trata-se do filho de Alexander
Werth, correspondente da BBC na URSS durante a II Guerra, autor de livros muito
valiosos, em especial “Russia at War” e “Moscow 41”, e um caso raro de
anti-comunista: aquele que luta para que sua objetividade seja pouco afetada por
seus preconceitos, como se pode ver por suas reportagens sobre as batalhas de
Leningrado e Stalingrado; sua confirmação, através de fontes não soviéticas, do
complô pró-nazista de Tukachevsky; sua denúncia das atrocidades nazistas na URSS
e no Leste europeu; e a desmoralização a que submeteu os “números de vítimas”
que Soljenitsyn atribuiu a Stalin. Alexander Werth era russo de nascimento,
tendo emigrado após a Revolução, aos 16 anos, acompanhando a família, para a
Inglaterra. Infelizmente, o filho puxou apenas ao anti-comunismo do pai, sem
qualquer das suas qualidades].
Voltando ao método de
Dushnyck, ele pode ser avaliado pelo seguinte trecho de seu livro: “tomando
os dados do censo de 1926 e os do censo de 1939 e a média de aumento [da
população] antes da coletivização (2.36% ao ano), podemos calcular que a
Ucrânia perdeu 7 milhões e 500 mil pessoas entre os dois censos”. Logo,
esses seriam os mortos de fome entre 1932 e 1933...
Dushnyck, portanto,
pressupõe que a taxa de natalidade permaneceu constante durante os 13 anos em
que na URSS ocorreu a mais extraordinária transformação da História – com a
industrialização pesada, a coletivização da agricultura, a preparação da defesa
do país para a guerra e a construção do socialismo. Em suma, a URSS, que em 1926
era um país agrário, tornou-se uma potência industrial, mas, pelo “cálculo” de
Dushnyck, isso não teria afetado a taxa de natalidade - o que é impossível, como
sabe todo brasileiro, principalmente se for nordestino e vier trabalhar em São
Paulo.
A conseqüência é que
aqueles que jamais nasceram foram considerados mortos por um genocídio. Pois a
taxa de natalidade, evidentemente, caiu entre 1926 e 1939 – e caiu
significativamente.
Além disso, Dushnyck
pressupõe que ninguém morreu de outra causa que não a fome entre 1926 e 1939,
apesar de, além da morte por velhice, terem eclodido na URSS, durante esse
período, duas grandes epidemias – tifo e malária, ambas sem tratamento conhecido
na época.
Como disse o sociólogo
Albert Szymanski (“Human Rights in the Soviet Union”, Londres, 1984),
para que o “cálculo” de Dushnyck tivesse algum sentido era necessário que o
número de mulheres no auge da fertilidade fosse o mesmo antes e depois de
1932-1933. Mas, naturalmente, isso também é impossível, pois as mortes na guerra
e o decréscimo de natalidade entre 1914 (início da I Guerra Mundial) e 1921 (fim
da Guerra Civil) trouxe, necessariamente, um decréscimo no número de mulheres
aptas a procriar durante a década de 30 (como lembrou o demógrafo S.G.
Wheatcroft, anti-comunista, mas com escrúpulos, mulheres que nascessem em 1914
teriam apenas 16 anos em 1930).
No “cálculo” de
Dushnyck se omite, também, que uma parte da população que no censo de 1926 era
classificada como ucraniana – cerca de 2 a 3 milhões de cossacos – foi
reclassificada, no censo de 1939, como russa, pela simples razão de que viviam
da Rússia e não na Ucrânia. Esses 2 a 3 milhões, no censo de 1926, estavam
inflacionando indevidamente a população ucraniana.
Apesar disso tudo,
entre os censos de 1926 e 1939, a Ucrânia aumentou sua população em 3 milhões e
339 mil pessoas. Porém, os adeptos desse método não consideram a população real,
mas uma projeção fantasiosa – e muito interessada - de qual “deveria ser”
o número de habitantes.
Já voltaremos a esses
gênios da estatística. Antes, veremos os motivos que levaram a esse tipo doido
de numerologia.
“HOLO-EMBUSTE”
Numa declaração ao
semanário “Village Voice”, de Nova Iorque, Eli Rosenbaum, então consultor legal
do Congresso Mundial Judaico, fez uma observação aguda sobre as tentativas de
fabricação de um “holocausto ucraniano”: “eles estão sempre aparecendo com um
número [de mortos] maior do que seis milhões, para fazer o leitor pensar:
‘Meu Deus, é pior que o Holocausto [judaico]” (Jeff Coplon, “In Search of
a Soviet Holocaust”, Village Voice, 12/01/1988).
Rosenbaum, depois
diretor do Office of Special Investigations (OSI) – a divisão do Departamento de
Justiça dos EUA encarregada de investigar criminosos de guerra nazistas em
território norte-americano – sabia do que estava falando.
Jeff Coplon, o
articulista do Village Voice, nota que foi depois da instituição do OSI que a
campanha do “holocausto ucraniano” se tornou mais intensa. A primeira ação
relevante do OSI foi, precisamente, a prisão do ucraniano, naturalizado
norte-americano, John Demjanjuk - que era, na verdade, o nazista “Ivan, o
Terrível”, um dos mais atrozes carrascos do campo de extermínio de Treblinka.
Assim, não é uma
coincidência que boa parte dos fabricantes do “holocausto ucraniano” sejam os
mesmos que negam a carnificina de Hitler sobre milhões de judeus e eslavos. No
Village Voice havia um contundente exemplo:
“No último
catálogo da Noontide Press, filiada ao Liberty Lobby do exuberante fascista
Willis Carto, ‘The Harvest of Sorrow’ [o livro de Robert Conquest que exumou
a fraude do “holocausto ucraniano”] é listado lado a lado com tomos
revisionistas tais como ‘O Mito de Auschwitz’ e ‘Hitler ao Meu Lado’.
Para propagandear o livro de Conquest e sua fome-terrorista, o catálogo nota:
‘O ato de genocídio contra o povo ucraniano foi escamoteado [sic] até
recentemente, talvez porque um holocausto real pode competir com um holo-embuste’.
Para os que não são habituados com o jargão da Noontide, o ‘holo-embuste’
refere-se ao massacre de seis milhões de judeus” (Village Voice, art. cit.).
Voltaremos, num
próximo artigo, às observações de Coplon. Por ora, basta a sua descrição do
recrudescimento da campanha nos EUA:
“Pressionando
cada pedal, mexendo todos os pauzinhos, está um lobby nacionalista ucraniano,
esforçando-se em puxar para debaixo do tapete sua própria história de
colaboração com os nazistas. Pela revisão de seu passado, esses emigrados ajudam
a apoiar um mais ambicioso revisionismo: uma negação do holocausto de Hitler
contra os judeus”.
REAGAN
Após a publicação, em
1987, de “Fraud, Famine and Fascism”, do pesquisador canadense Douglas
Tottle, o “holocausto ucraniano” se tornou, para usar uma expressão chegada ao
assunto, um caso historicamente liquidado.
Na verdade, ele jamais
se sustentou em pé, apesar de vários obcecados – e bem pagos – elementos. A
principal razão era a sua total falta de lógica. Não somente não interessava a
Stalin que a população ucraniana decrescesse, como essa jamais foi a política do
governo da URSS. Pelo contrário, sua política era de estímulo ao aumento da
população.
Além disso, em 1932 a
coletivização foi completada. Se nesse ano ainda persistiam dificuldades, a
colheita de 1933, na qual a participação da Ucrânia foi decisiva, foi um recorde
na história do país, o que teria sido impossível sem a semeadura do ano anterior
- que certamente não foi realizada pelos fantasmas dos que morreram de fome...
O fato é que, na
década de 30, o “holocausto ucraniano” havia sido desmascarado como uma fraude
nazista. No pós-guerra, apesar da CIA ter recrutado apoiadores entre os nazistas
ucranianos e financiado outra campanha em torno dele, acabou caindo em completo
descrédito na segunda metade da década de 60.
Sua última aparição de
alguma importância, nessa época, foi em 1964, quando um certo professor Dana
Dalrymple publicou um artigo onde pretendia descobrir o real número de mortos da
fome: simplesmente, como o leitor poderá verificar nesta página, em que
reproduzimos a tabela de Dalrymple, ele fez a média entre as mais estapafúrdias
estimativas – incluindo as dos nazistas. Para que ficasse de acordo com os
conformes, Dalrymple deu um toque pessoal à invenção: estendeu a “fome de
1932-33” até 1934 (cf. Dana Dalrymple, “The Soviet Famine of 1932-1934”,
Soviet Studies, janeiro, 1964).
Sem essa prorrogação
da fome por mais um ano, Dalrymple não poderia aproveitar as histórias de Thomas
Walker, aliás, Robert Green - o foragido de uma cadeia do Colorado que o magnata
da imprensa americana W.R. Hearst contratou para escrever sobre a “fome na
Ucrânia”. Walker/Green, apresentado como “testemunha ocular” da fome, jamais
esteve na Ucrânia, como confessou quando foi recapturado, mas esteve alguns dias
na URSS – porém, somente em 1934. Portanto, só poderia ter sido testemunha
ocular da fome se ela fosse estendida até esse último ano...
Depois da década de
60, a fraude somente foi retirada do baú em 1983 – por Ronald Reagan, então em
campanha acirrada contra a URSS e contra qualquer “distensão”. Três anos depois,
no dia 7 de setembro de 1986, uma carta de Reagan dirigida à viúva de Yaroslav
Stetsko - criminoso de guerra, colaborador dos nazistas durante a ocupação da
Ucrânia e um dos cabecilhas da mal chamada “Organização Nacionalista Ucraniana”
- foi lida pelo general John Singlaub, numa conferência da Liga Anti-comunista
Mundial.
Disse Reagan à viúva
de Stetsko: “A coragem e dedicação de seu marido à liberdade servirá como uma
continuada fonte de inspiração para todos aqueles que lutam pela liberdade e
auto-determinação” (Village Voice, art. cit.).
MACE
O novo método
estatístico, introduzido por Dushnyck, fez sucesso entre os mercenários do
anti-comunismo porque o antigo método – o chute descarado, puro e simples –
estava desmoralizado, depois da tentativa de rejuvenescê-lo através de uma
simples média aritmética, feita por Dalrymple em 1964.
Assim, depois de
Dushnyck, o parceiro de Conquest, James Mace, usou o mesmo método em 1984, num
artigo intitulado “Famine and Nationalism in Soviet Ukraine”. O artigo
foi publicado pela revista “Problems of Communism” (edição de maio-junho de
1984). Essa revista (hoje rebatizada para “Problems of Post-Communism”) é o
órgão da United States Information Agency (USIA), a mesma agência do
Departamento de Estado que, como lembra Douglas Tottle, é responsável pela “Voz
da América”, pela “Radio Marti”, tendo organizado a missão de espionagem do KAL
007 (o uso de um avião de passageiros sul-coreano para sobrevoar a URSS, com o
resultado de que foi abatido pela defesa aérea soviética), entre outras
aventuras.
Na próxima edição,
examinaremos em detalhes o caso Mace/Conquest e sua manipulação dos censos
soviéticos.
Continua na próxima
edição. |