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Os censos da URSS e
a fraude do “holocausto ucraniano” (2)
O principal engodo
foi apontado por Barbara Anderson e Brian Silver, dois demógrafos muito
respeitados: ao estabelecer uma taxa de natalidade superfaturada, omitindo o
decréscimo dessa taxa durante a década de 30, Mace conta os que nunca nasceram
como se fossem mortos. Os “mortos” são fabricados pelo truque de estabelecer uma
falsificada taxa de natalidade
CARLOS LOPES
Depois
que Reagan, em 1983, tirou o “holocausto ucraniano” do museu das fraudes
históricas, coube a Robert Conquest a tentativa de dar a ele alguma
credibilidade. Fez isto através de seu livro “The Harvest of Sorrow” (1986), um
prolixo panfleto de mais de 400 páginas segundo o qual Stalin premeditou e
provocou, contra o seu próprio interesse como líder da URSS, uma gigantesca fome
para eliminar o povo ucraniano nos anos 1932-1933.
Na primeira parte
deste artigo, vimos como, diante da insustentabilidade da história - na qual,
sem fatos, sem testemunhas e sem vestígios, teriam morrido de fome de 1 milhão a
15 milhões de ucranianos (haja rigor!) - passou-se a um novo método de “cálculo”
dos mortos, baseado na manipulação de números dos censos soviéticos:
estabelecia-se uma taxa de natalidade irreal, superestimada, para o
período entre os dois censos soviéticos anteriores à II Guerra Mundial (1926 e
1939) e, assim, fabricavam-se os mortos com a diferença entre a estimativa
fantasiosa, inflacionada, e a população real que havia na URSS em
1939.
O problema é que seu
inventor, como mencionamos, não era nada respeitável – um colaborador dos
nazistas, terrorista, condenado na Ucrânia e abrigado nos EUA, Walter Dushnyck.
Porém, já em 1984 (ano seguinte à da publicação do livreto de Dushnyck), os
parasitas da invenção nazista do “holocausto ucraniano” - Robert Conquest, James
Mace e outros – pareciam ter descoberto a pólvora. Mas tomaram o cuidado de
escantear o verdadeiro autor do método, citando-o marginalmente, ou simplesmente
evitando citações. Foi então que se pretendeu dar dignidade acadêmica ao que não
era mais do que uma charlatanice de fugitivos dos tribunais para criminosos de
guerra.
O aproveitamento
acadêmico
da tecnologia Dushnyck de manipulação dos censos soviéticos coube ao
“pesquisador contratado” de Conquest, James Mace, da Universidade de Harvard.
O motivo de ceder a
primazia à Mace, que já vinha fazendo tentativas nesse campo específico da
fraude histórica, é que Conquest não sabe lidar com números, exceto quando se
trata de dólares. A aritmética extra-monetária nunca foi o seu forte. Em “O
Grande Terror” (1968) ele inflou tanto o número dos atingidos pela repressão
soviética à sabotagem e conspiração pró-nazista de antes da II Guerra Mundial,
que até o fundador da “sovietologia”, Alexander Dallin, autor de “Political
Terror in Communist Systems”, fez questão de declarar que nada tinha a ver com
os números de Conquest. Mal sabia Dallin, que tentava dar foros de ciência ao
que era apenas propaganda servida em forma de protocolo acadêmico, que em breve
(1981) teria que suportar Conquest dentro de seu próprio departamento, na
Universidade de Stanford...
Depois da abertura dos
arquivos da URSS, então, o livro tornou-se perfeitamente ridículo – exceto em
algumas revistas e jornais que pouco se distinguem de uma casa de prostituição.
É verdade que, além da
lambança que fez com os números de “vítimas” e na análise dos censos soviéticos,
Conquest contribuiu bastante para seu próprio ridículo ao publicar, em 1984, um
manual sobre o que os americanos deveriam fazer quando os russos invadissem o
país (“What To Do When the Russians Come: A Survivor’s Guide” - “O Que
Fazer Quando os Russos Chegarem: Um Guia de Sobrevivente”). A intenção era
contribuir para a histeria insuflada por Reagan e caterva contra a URSS,
faturando uns cobres na onda. Mas, como disse um resenhista norte-americano
isento de pendores para a esquerda, foi a propaganda anti-comunista mais
hilariante da Guerra Fria.
Voltando aos números,
em 2007, no prefácio à uma nova edição de “O Grande Terror”, Conquest diminuiu
em nada menos do que 7 milhões o número de “vítimas” na URSS durante o período
de Stalin, em relação à edição de 1968 - com o mesmo critério com que antes
incluiu esses 7 milhões, isto é, nenhum, e com a abertura dos arquivos
soviéticos desmentindo o velho e o novo número.
DEMOGRAFIA
Por sua ignorância em
aritmética, Conquest cedeu o papel principal na manipulação estatística a James
Mace. E, convenhamos, este se esmerou.
Já nos referimos ao
seu artigo “Famine and Nationalism in Soviet Ukraine” (1984), publicado
pelo órgão da United States Information Agency (USIA), “Problems of Communism”.
Agora, vamos ao seu conteúdo.
Diz Mace:
“Se
subtraímos nossa estimativa da população [ucraniana soviética] pós-fome
da população [ucraniana soviética] pré-fome, a diferença é 7.954.000, o
que pode ser tomado como uma estimativa do número de ucranianos que morreram
antes da sua hora [died before their time]”.
O absurdo maior não
está nesse perspicaz conceito de “morte antes da sua hora” (não morreu ninguém
de velhice na Ucrânia nos 13 anos entre os censos de 1926 e 1939? E, por outro
lado, quem morre, por exemplo, num acidente - teve “morte antes da sua hora”? E
quem morre jovem de uma doença para a qual, na época, não existia tratamento? Em
suma, não há significado em “morte antes da sua hora”, exceto atribuir aos
comunistas qualquer morte que aconteça – ou mortes inexistentes).
O principal engodo foi
apontado por Barbara Anderson e Brian Silver, dois demógrafos muito respeitados,
ainda que sejam do tipo que acha científico fazer cálculos sobre o “excesso de
mortes” na URSS. Apesar disso, por não serem ignorantes em seu campo de estudos,
não querem sua reputação profissional atirada na mesma vala de Mace, Conquest,
Dushnyck e outros.
Exatamente como
Dushnyck, ao estabelecer uma taxa de natalidade superfaturada, omitindo o
decréscimo dessa taxa durante a década de 30, Mace conta os que nunca
nasceram – isto é, a inexistente população fabricada por sua falsa taxa de
natalidade - como se fossem mortos (cf. Barbara Anderson e Brian Silver,
“Demographic Analyis and Population Catastrophes in the USSR”, Slavic
Review, 44, Nº 3, 1985, págs. 517 a 519).
Resumindo: o “déficit”
populacional ucraniano de Mace (quase 8 milhões de pessoas) foi forjado por ele
mesmo, ao usar uma taxa de natalidade falsa.
Os resultados de
Barbara Anderson e Brian Silver tinham outro inconveniente para a dupla Conquest/Mace:
eles eram coerentes com os resultados alcançados por um de seus alvos de
difamação, o estatístico e demógrafo Frank Lorimer, que em 1946, em Genebra,
publicou, sob o patrocínio da ainda existente Liga das Nações, o livro “The
Population of Soviet Union: History and Prospects”.
Lorimer era um homem
de imensa notoriedade em sua área de trabalho – quase sempre, justificada. O
problema de Conquest e Mace era (e é) que os resultados de Lorimer tornam
impossível que houvesse 14,5 milhões - ou 10 milhões, ou 5 milhões, ou mesmo 3
milhões - de mortos de fome somente na Ucrânia entre 1932-1933, porque
ele calculou para toda a URSS um “excesso de mortes” entre 3,2 milhões e
5,5 milhões entre 1926 e 1939.
É justo observar, como
fazem Barbara Anderson e Brian Silver, que Lorimer diz, em seu livro: “Há,
naturalmente, muitas outras fontes de possível erro em todas essas computações.
Conseqüentemente, estes resultados devem ser aceitos com muitas reservas”
(Frank Lorimer, “The Population of Soviet Union: History and Prospects”,
Liga das Nações, Genebra, 1946, pág. 240, citado por Anderson e Silver, art. cit.).
Era inevitável que
Conquest e Mace tentassem difamar Lorimer – que já havia falecido quando
Conquest publicou “The Harvest of Sorrow”.
Entretanto, como
observou um comentarista, escrevendo no “Challenge”, de Nova Iorque, o estudo de
Silver e Anderson é ainda pior para o “holocausto ucraniano” (e para Conquest e
Mace) que o de Lorimer:
“De fato,
Anderson e Silver dão a impressão de acreditar que o número total [das
‘mortes em excesso’ para toda a URSS] é, de longe, menor do que isso.
Usando sua [Taxa de] Alta Mortalidade Presumida, que ‘aproxima as taxas de
mortalidade que Lorimer pensou que efetivamente prevaleciam na URSS como um todo
em 1926-27, mais altas do que aquelas oficialmente relatadas’, das [taxas de
mortalidade] de 1939, pode ter havido somente 500 mil ‘mortes em excesso’
entre as pessoas vivas em 1926” (Challenge, New York, ed. de 04/03/1987).
Em meio à maior luta
de classes da História, isso é menos do que os mortos admitidos oficialmente na
Guerra Civil dos EUA (620 mil mortos). Com a diferença de que a Guerra Civil
norte-americana durou 4 anos (1861-1865) - menos que um terço dos 13 anos de
História da URSS aqui considerados (1926-1939).
NEO-MANIPULAÇÃO
Até agora, não há
novidades em relação a Dushnyck. O que James Mace faz é apenas plagiar o
ex-terrorista e ex-colaborador dos nazistas, que, provavelmente, não imaginou
que o seu método pudesse fazer tanto sucesso em Harvard e Stanford. Aliás, nem
deve ter percebido que era um método.
Porém, Mace resolveu
dar o seu toque pessoal: “provar” a existência do “holocausto ucraniano”,
através do censo soviético de 1959, ou seja, mais de três décadas depois
do censo de 1926.
Diz ele:
“Nós podemos
achar traços da fome procurando [no censo de 1959] por regiões onde o
número de camponesas (o segmento menos móvel da população) nas faixas de idade
que teriam nascido imediatamente antes ou durante a fome é anormalmente pequeno.
Estas regiões existem na Ucrânia Soviética, uma nação de tradições ferozmente
independentes; nas regiões habitadas por grandes populações cossacas, também
ferozmente independentes; e nas áreas dos alemães do Volga” (carta de Mace
ao professor Jaroslaw Rozumnyj, 04/02/1984, citada por Douglas Tottle, “Fraud,
Famine and Fascism”, Toronto, 1987, pág. 72. A nota de Tottle – pág. 149 –
para esse trecho é a seguinte: “Uma cópia desta carta enviada por Mace ao
Comitê Canadense Ucraniano – UCC – foi apresentada em uma reunião do Conselho
Escolar de Winnipeg em 14 de fevereiro de 1984, para apoiar a campanha do UCC de
incluir o tópico da “fome-genocídio” no currículo escolar”).
Com essa novidade,
Mace conseguiu superar Dushnyck com vários corpos de distância. Pelo menos,
Dushnyck se limitou aos censos de 1926 e 1939. Assim, não teve que ignorar, como
faz Mace, que entre 1933 (o início da suposta “fome”) e 1959 houve um
acontecimento histórico denominado II Guerra Mundial – que foi decidido,
precisamente, na URSS, e que teve na Ucrânia algumas das suas batalhas mais
sangrentas, assim como alguns dos maiores massacres de toda a História humana.
Por falar em genocídio, segundo a Larousse, o maior de todos os tempos foi,
exatamente, o realizado pelos nazistas na URSS, onde 15% da população,
comprovadamente, morreu durante a invasão alemã.
Douglas Tottle
observa, por exemplo, que, entre 1941 e 1943, a região ucraniana da cidade de
Kharkov foi terreno de quatro das maiores batalhas da II Guerra – e que somente
sobreviveram metade dos habitantes da cidade.
Da mesma forma, Mace
omite que 600 a 700 mil dos “alemães do Volga” (colônias alemãs que existiam às
margens desse rio) foram deslocados da região pelo governo soviético em 1941,
quando os nazistas se aproximavam, por motivos óbvios (aliás, os alemães do
Volga já haviam sido base das hordas “brancas” e estrangeiras durante a Guerra
Civil, logo após a Revolução).
“Além de
ignorar aqueles que residiam [nessas regiões] nos anos 30 que morreram ou
foram deslocados devido à guerra, Mace também ignora o vasto número que partiu
para outras áreas e repúblicas durante o período de reconstrução em massa do
pós-guerra. Em resumo, o censo de 1959, como o próprio Mace sabe, revela padrões
demográficos atribuíveis primariamente aos desenvolvimentos pós-1941. (....)
Pode-se concluir que qualquer admissão da [ocorrência da] II Guerra
Mundial foi vista por Mace como um fato em detrimento de seu caso – ele não
trata do genocídio nazista, buscando somente convencer os leitores do ‘genocídio
comunista’” (Tottle, op. Cit.).
Resta dizer apenas que
com essa manipulação dos números do censo de 1959, Mace, ao omitir o efeito da
II Guerra Mundial sobre a população ucraniana e russa, inocentou os nazistas dos
hediondos crimes que praticaram na URSS – todos os que morreram na guerra e nos
massacres de civis, todas as vítimas do nazismo, foram, através desse embuste,
atribuídas a Stalin. O que, provavelmente, era mesmo a intenção.
Continua na próxima
edição. |