O lucro dos bancos americanos: maquiagem & pilhagem do povo 

Os EUA têm, atualmente, um trabalhador empregado para cada cinco que estão desempregados ou subempregados. A produção continua a cair. No entanto, de repente, alguns grandes bancos anunciam lucros colossais no primeiro trimestre e prometem farta distribuição de bônus a acionistas e executivos. Eis aqui alguns fatos por trás dessa mágica de bancos falidos 

CARLOS LOPES 

Em artigo no último dia 17, o economista norte-americano Paul Krugman abordou o lucro do Goldman Sachs, único “banco de investimento” (ou seja, banco puramente especulativo) que restou em Wall Street depois de iniciada a atual crise, com a quebra do Lehman Brothers, em 15 de setembro do ano passado. Diz Krugman:

A economia norte-americana continua em horrendo aperto, com um trabalhador empregado para cada seis desempregados ou subempregados. Apesar disso, o Goldman Sachs anunciou lucros trimestrais recordes e prepara-se para distribuir bônus muito maiores do que aqueles que estava pagando antes da crise. O que pode nos dizer esse contraste?” Primeiro, ele nos diz que o banco é muito bom naquilo que faz. Infelizmente, o que ele faz é ruim para os EUA.

“Segundo, ele mostra que os maus hábitos de Wall Street - sobretudo o sistema de compensação que ajudou a causar a crise financeira - ainda não foram eliminados.

“Terceiro, ele mostra que, ao socorrer o sistema financeiro sem reformá-lo, Washington não fez nada para nos proteger de uma nova crise, e, de fato, não tomou qualquer atitude que protegesse os cidadãos da crise e, na verdade, tornou mais provável outra crise” (Paul Krugman, “Goldman Sachs’ profits prove that bad Wall Street habits die hard”, The New York Times, 17/07/2009).

O Goldman Sachs foi o primeiro banco dos EUA a anunciar lucro neste trimestre - e nada menos do que o maior lucro que já auferiu num trimestre desde que foi fundado, há 140 anos: US$ 3,4 bilhões. Além disso, segundo o “The New York Times”, o banco prometeu, até o fim do ano, distribuir bônus no valor total de US$ 11,4 bilhões aos acionistas e aos seus 30 mil funcionários.

Depois do Goldman Sachs, os bancos “comerciais” - o JPMorgan Chase também divulgou um lucro recorde, o Bank of America e o Citigroup divulgaram um lucro menor, mas nada desprezível.

Um sinal de que algo está errado nesses números é que as ações desses bancos, ao invés de se valorizarem nas Bolsas de Valores dos EUA, despencaram com o seu anúncio. Especuladores percebem quando seus colegas estão tentando vender a ponte de Brooklin ao público. Portanto, desconfiaram que esses lucros eram algo semelhantes aos resultados do afamado Madoff – que, por sinal, chegou a presidente da Nasdaq, a Bolsa das empresas do setor eletrônico.

Krugman, que não está completamente isento de responsabilidade pelas ilusões financeiras que desembocaram na crise atual - não se ganha um Prêmio Nobel de Economia, nem se é colunista do “The New York Times”, remando completamente contra a maré ideológica monopolista - faz uma colocação genérica, embora importante, sobre o assunto:

Os imensos bônus que o Goldman distribuirá em breve mostram que os gananciosos da indústria financeira estão ainda operando sob um sistema em que eles, em cima, sempre ganham, e as outras pessoas, embaixo, sempre perdem. Se você é um banqueiro e gera grandes lucros de curto prazo, sempre conseguirá ser prodigamente recompensado – e não tem que devolver o dinheiro se e quando aqueles lucros se mostrarem uma miragem. Você terá toda razão, portanto, para manipular investidores a arcarem com riscos que não entendem.

E os acontecimentos do ano passado têm mesmo deformado mais esses incentivos, colocando na forca os contribuintes, tanto quanto os investidores, se as coisas dão errado”.

O problema é que Krugman se queixa inutilmente, uma vez que também diz que não havia outra saída, senão locupletar os bancos com bilhões (na verdade, trilhões) de dólares de dinheiro público:

Você pode argumentar que tais resgates eram necessários, se queremos evitar um replay da Grande Depressão. De fato, eu concordo.

Entretanto, mais interessante é a continuação:

Mas o resultado é que os passivos do sistema financeiro estão agora lastreados por uma implícita garantia governamental”.

Certamente, esse é o problema – e, também, é a origem dos lucros anunciados pelos bancos dos EUA, no mesmo momento em que o emprego e a produção desabam e não param de desabar. Vejamos apenas três fatos, embora, em se tratando de privilégios para os bancos, parece existir uma verdadeira miríade deles nos EUA de hoje.     

MAQUIAGEM 

Em abril deste ano, o Financial Accounting Standards Board, o órgão que estabelece as normas dos balanços das empresas nos EUA, cedeu ao lobby dos bancos e permitiu que eles pudessem desobedecer à regra do “fair value” (também conhecida por “market to market”).

O que era a regra do “fair value” (algo que pode ser traduzido como “valor justo”)? A obrigação que têm as empresas com ações negociadas nas Bolsas de Valores dos EUA de contabilizarem seus ativos a preços de mercado. Em outras palavras, a contabilidade não pode (ou, melhor, não podia) ser feita com o valor nominal de títulos que no mercado financeiro valem muito menos. Pelo contrário, era obrigatório que esses títulos fossem contabilizados pelo “valor de mercado” e não pelo “valor de face”, que é puramente nominal, isto é, não é real.

Com a decisão do Financial Accounting Standards Board, desde abril os bancos dos EUA não estão mais obrigados a lançar no balanço os valores de uma série de ativos em “preços de mercado”. Entre esses ativos, naturalmente, estão os créditos para a habitação, os títulos sobre hipotecas que foram ao fundo do poço no último trimestre do ano passado. Em poucas palavras, os balanços e a contabilidade dos bancos se tornaram, em boa parte, uma produção da Disneylândia.

O próprios funcionários dos bancos declararam, na época dessa alteração, que seu resultado prático seria “aumentar os lucros em 20%”. Se esse é o cálculo que divulgaram – sob o pretexto de que tal aumento, apesar de fictício, ajudaria a economia a recuperar-se – pode-se inferir com alguma segurança que essa maquiagem do balanço proporcionou aumentos ainda maiores nos números dos lucros bancários.

Porém, o Financial Accounting Standards Board não ficou nisso. Também aprovou que os bancos pudessem fazer tal alteração já nos balanços do primeiro trimestre, apesar desse trimestre já ter se encerrado na data da decisão (cf. Monitor Mercantil, 02/04/2009). 

DINHEIRO PÚBLICO 

Não nos referimos primeiramente ao dinheiro público injetado no sistema financeiro dos EUA, porque tal fato é mais conhecido. Em maio, o “The Wall Street Journal” já avaliava o montante colocado pelo governo nos bancos e demais instituições financeiras em US$ 14,9 trilhões, portanto, mais do que o próprio PIB dos EUA (cf. “U.S. Rescue Aid Entrenches Itself”, The Wall Street Journal, 21/05/2009).

Portanto, Krugman tem razão, ao dizer:

O que está claro é que Wall Street, de maneira geral, e o Goldman, em particular, se beneficiaram demasiado do programa de socorro do governo norte-americano – com a garantia de que grandes instituições financeiras receberão ajuda caso algo dê errado”.

Em suma, os bancos dos EUA simplesmente eliminaram o lixo antigo que tinham nos balanços, usando dinheiro público. Portanto, fizeram isso às custas da população. O que não é garantia, como nota Krugman, de que a crise passou, nem mesmo a própria crise bancária:

Se os esforços dos lobistas forem bem sucedidos, teremos criado o cenário para um novo desastre financeiro que irá acontecer em pouquíssimos anos. A próxima crise poderia ser algo como a bagunça das poupanças e dos empréstimos dos anos 80, época em que bancos desregulamentados brincavam com o sistema financeiro e, às vezes, roubavam o dinheiro dos contribuintes”.

De nossa parte, achamos otimista a estimativa de “pouquíssimos anos”, assim como a descrição de que os bancos “às vezes” roubavam o dinheiro dos contribuintes. A rigor, eles não estão fazendo outra coisa. 

GARANTIA DO GOVERNO 

Entretanto, isso não é tudo. Em novembro, portanto antes da posse do atual presidente dos EUA, o governo norte-americano instituiu o “Term Liquidity Guarantee Program” - TLGP (Programa de Garantia de Liquidez a Termo), através da Federal Deposit Insurance Corporation (FDIC), a agência do governo encarregada dos seguros de depósitos.

Esse programa foi mantido pelo atual governo. Seu conteúdo é simples: o governo passou a dar garantia aos títulos de dívida emitidos por bancos e grandes empresas. Até um articulista do insuspeito (nesse caso) “The Wall Street Journal” escandalizou-se, na edição do último dia 28:

É um presente que não acaba mais.

(....) O Citigroup economizou quase US$ 600 milhões no último trimestre com os US$ 44,6 bilhões em títulos de médio prazo que emitiu com garantia do programa, ou cerca de 14% de seu lucro de US$ 4,28 bilhões.

O Goldman Sachs Group Inc., que divulgou lucro trimestral de US$ 3,44 bilhões, reduziu os custos de captação em US$ 205,5 milhões por trimestre emitindo títulos com a assistência do governo, em vez de por conta própria. ‘Não dá para ignorar o TLGP quando você analisa os resultados dos bancos’, diz Daniel Alperto, diretor-gerente do banco de investimentos Westwood Capital LLC. ‘[o TLGP] reduziu o custo de financiamento deles e garantiu que o mercado contasse exatamente com a liquidez de que necessitava’.

Desde então as empresas já emitiram US$ 339 bilhões em títulos com os mais variados vencimentos sob o TLGP.

Um exemplo dos custos de financiamento menores propiciados pela assistência do governo americano: em 25 de novembro o Goldman emitiu US$ 5 bilhões em títulos com vencimento em junho de 2012. O título tinha juro anual de 3,25%. No mesmo dia em que os títulos garantidos pelo governo foram vendidos, a dívida do Goldman a vencer em setembro de 2012 era negociada no mercado aberto com juros de 8,15%. (....) No total, o Goldman deve embolsar uns US$ 2,33 bilhões com os juros menores de todas as dívidas que emitiu com garantia do governo.

A FDIC terá de arcar com a despesa se qualquer uma dessas empresas não pagar as dívidas, mas isso é considerado uma possibilidade remota se a economia não piorar muito mais” (Mark Gongloff, “Banks Profit From U.S. Guarantee”, The Wall Street Journal, 28/07/2009). 

DRENAGEM 

Desse jeito, com tanto dinheiro, tanta proteção e tantas garantias, não há como não lucrar - mas isso significa que o lucro foi obtido, além da maquiagem dos balanços, com uma drenagem monstruosa dos recursos da população norte-americana, e, realmente, não apenas da população norte-americana. Também significa que, se essa drenagem se tornar insustentável politicamente, os lucros vão acabar rápido.

Essa parece ser, inclusive, a tendência principal. A revolta geral nos EUA, constatada por vários observadores, em relação aos privilégios concedidos aos bancos, que já era grande, está crescendo cada vez mais. Não é para menos, diante dessa descrição de Krugman, um homem muito longe de qualquer coisa que possa ser intitulada como “esquerda”:

Ao longo da última geração - depois da desregulamentação bancária dos anos Reagan - a economia dos EUA tem sido “financeirizada”. O negócio de movimentar dinheiro para todos os lados, de fatiar, de picar e reembalar títulos financeiros, subiu muito em importância, comparado com a produção real de bens materiais úteis. O setor oficialmente rotulado como ‘títulos financeiros, contratos de commodities e investimentos’ cresceu excepcionalmente rápido, de somente 0,3% do PIB dos EUA no final da década de 70 para 1,7% do PIB em 2007.

Tal crescimento seria bom se a financeirização realmente cumprisse com suas promessas – se as instituições financeiras ganhassem dinheiro pelo direcionamento do capital para seus usos mais produtivos, desenvolvendo meios novos de diluir e reduzir os riscos. As instituições financeiras, nós sabemos agora, direcionaram vastas quantidades de capital para a construção de casas invendáveis e shopping centers vazios. Elas aumentaram o risco ao invés de diminuí-lo, e concentraram esse risco, ao invés de dilui-lo. Com efeito, a atividade [financeira] estava vendendo drogas perigosas para consumidores incautos.

Note-se que durante muito tempo os economistas conservadores, inclusive os keynesianos do tipo de Krugman - isto é, keynesianos do tipo imperialista - sempre rejeitaram falar em “financeirização” da economia. Somente Marx abordou o problema, com seu conceito de “capital fictício” - e Marx, para esses economistas, era um espectro a rondar as suas academias.

Portanto, não deixa de ser um avanço que alguns deles, agora, em meio à catástrofe, reconheçam pelo menos uma parte do problema. Mas, provavelmente, qualquer um poderia chegar facilmente a essa conclusão depois do que houve a partir do último trimestre do ano passado. O impressionante é que foi necessária uma catástrofe para que eles reconhecessem o óbvio – o parasitismo, saque, pilhagem que se constitui no centro da vida econômica dos EUA.

Nesse sentido, é interessante a descrição que Krugman faz do Goldman Sachs:

O papel do Goldman na financeirização dos EUA foi similar àquele de outros jogadores, exceto por uma coisa: o Goldman não acreditava em seu próprio entorpecente. Outros bancos investiram pesadamente no mesmo tóxico devastador que estavam vendendo por atacado ao público. O Goldman, notoriamente, ganhou montes de dinheiro vendendo títulos lastreados por hipotecas subprime, e depois ganhou mais dinheiro ainda vendendo títulos lastreados por hipotecas de curto prazo, pouco antes de seu valor desabar. Todas essas operações foram perfeitamente legais, mas o resultado foi que o Goldman fez seus lucros transformando o resto de nós em otários”.

Por último, Krugman faz uma observação reveladora do que pode ser esperado do futuro imediato, exceto se a equipe econômica do governo Obama, quase toda originária da Kissinger Associates - um sub-ramo ideológico dos Rockefellers - mudar de rumo, o que é difícil, ou a própria equipe econômica for mudada, o que é mais fácil.

Vale lembrar que a última expansão equiparável da rede de proteção ao sistema financeiro foi a criação do seguro federal de depósitos, na década de 30, e regulado por leis muito mais rígidas. O intuito era proteger os bancos sem que eles abusassem de seus privilégios. Desta vez, novas regras ainda estão sendo rascunhadas e o lobby financeiro já está lutando contra as mais elementares regras de proteção ao consumidor”.

A paciência do consumidor e do contribuinte – isto é, do povo -, mesmo nos EUA, não é infinita. E, também, o governo Obama, por mais que seja temeroso, não é o governo Bush. Evidentemente, continuar nesse caminho, por mais que em algumas áreas sejam tomadas medidas progressistas e populares, é o chamado suicídio político.


Primeira Página

 

Página 2

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