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Interesses
econômicos por trás do golpe em Honduras
A autora do
texto abaixo, jornalista Frida Modak, foi secretária de imprensa do presidente
Salvador Allende. Em 2008, ela foi a organizadora da antologia “Salvador Allende:
Pensamiento y acción”, compilação dos mais importantes textos e discursos
daquele grande presidente chileno, assassinado em 11 de setembro de 1973, na
resistência ao sanguinário golpe de Estado tramado pela CIA - e ordenado
diretamente pela Casa Branca, ocupada por Nixon, como hoje sabemos, depois da
divulgação dos documentos secretos norte-americanos daquela época.
Honduras, para a
maioria das pessoas, é um país pouco conhecido, no máximo lembrado por seu
trágico passado de “república bananeira” - isto é, pelas ditaduras ferozes
impostas pela United Fruit, monopólio dos EUA que dominou a América Central
durante décadas, acumpliciado com as oligarquias vende-pátria locais. Não por
acaso, um europeu como o romancista francês Georges Arnaud, inicia seu “O
Salário do Medo”, uma história passada em um dos países da América Central,
pelas frases: “A Guatemala não existe. Eu sei porque estive lá.” - mantida por
Clouzot em sua versão cinematográfica do livro, estrelada por Yves Montand em
1953.
Independente do
sub-reptício elitismo de Arnaud, a verdade é que aqueles países, durante o
domínio da United Fruit, na prática não tinham Estados nacionais, Estados
próprios, Estados que defendessem os seus interesses nacionais. Pelo contrário,
o que se chamava de Estados naqueles países era a quadrilha posta no poder pela
United Fruit e pela casta dominante nos EUA.
Porém, esta não
é mais a realidade - nem na Guatemala, nem na Nicarágua, nem no Panamá, apesar
de todas as vicissitudes da história desses países.
Honduras, no
entanto, permaneceu provavelmente como o mais atrasado dos países da região.
Entende-se, portanto, porque as mudanças propostas pelo presidente Mel Zelaya,
apesar de, às vezes, pelo nosso critério de brasileiros, nos parecerem
moderadas, encontraram tanta oposição da oligarquia local, até chegar ao mero e
descarado golpe de Estado.
Em seu artigo,
Frida Modak aborda exatamente este problema - a começar pelo petróleo
hondurenho, pelo interesse de Bush, Cheney e sua matilha nessa riqueza, e a
reação dúbia do novo governo dos EUA, além dos interesses internos contrariados
pela política social de Zelaya.
O texto, com
tradução de Katarina Peixoto, foi publicado originalmente pela Agência
Latinoamericana de Información (ALAI) e pela Agência Carta Maior.
C.L.
FRIDA MODAK *
Completou-se um mês do golpe de Estado em Honduras e,
como em toda a ditadura, se mantém o Estado de Sítio, as garantias individuais
existem só no papel e os poderes Legislativo e Judiciário são um apêndice do
regime de fato. Os hondurenhos, assim como a quase totalidade dos povos
latinoamericanos, já viveram essa realidade antes e a rechaçam.
A comunidade
internacional também rechaçou o golpe de 28 de junho e adotou acordos claros de
condenação aos golpistas, demandando a restituição em seu cargo do presidente
constitucional Manuel Zelaya. Mas as coisas já não são tão claras nem
categóricas e os motivos são alheios aos interesses do povo hondurenho e dos
latinoamericanos em geral. Da mesma maneira, as justificações dadas pelos
golpistas não são verdadeiras porque o golpe serve aos interesses do grupo de
poder encabeçado pelo ex-vice-presidente dos EUA, Dick Cheney, cujos operadores
há tempo pululam pela região e buscam infiltrar-se nos governos.
O grupo de Cheney,
do qual são parte também os Bush, se interessa fundamentalmente no petróleo, por
isso invadiram o Iraque e o Afeganistão, avançaram contra o Irã e tentam
derrubar o presidente Hugo Chávez, fazem o mesmo com Evo Morales, atacam o
presidente equatoriano Rafael Correa e desejam o petróleo cubano da zona do
golfo do México.
Honduras tem muito
petróleo, como disse Gerardo Yong no dia 19 de julho. As prospecções foram
feitas por uma empresa norueguesa há um ano, convocada pelo presidente Zelaya
que, como já foi informado, acionou judicialmente as empresas estadunidenses que
vendiam petróleo caro a seu país e se juntou ao grupo Petrocaribe, criado pela
Venezuela.
A empresa norueguesa
que fez as prospecções e as financiou, entregou um relatório ao governo de
Zelaya e ficou com uma cópia que pode negociar com empresas que estejam
interessadas na informação sobre essas reservas. Para além disso, porém, e isso
se sabia, se fosse aprovada a consulta destinada a determinar se deveria ser
instalada a quarta urna nas eleições de novembro, na qual se votaria sim ou não
à convocação de uma Assembléia Constituinte, o projeto de Zelaya na eventual
nova Constituição era estabelecer que os recursos naturais do país não poderiam
ser entregues para outros países.
Em conseqüência, o
pretexto para o golpe de Estado foi a consulta sobre a quarta urna, mas o
objetivo foi evitar que se pudesse ditar uma Constituição que impedisse
apoderar-se do petróleo hondurenho. Nessa conspiração, estiveram Otto Reich e
sua “fundação” Arcadia, e o embaixador estadunidense em Honduras, Hugo Llores,
nomeado pelo governo de Bush e Cheney. Mas também participaram do complô os
donos dos meios de comunicação, porque se estimava que a nova Constituição
deveria promover uma distribuição igualitária do espectro radioelétrico,
garantindo a participação dos grupos comunitários. Daí a desinformação que sai
hoje de Tegucigalpa.
AS MEDIAÇÕES
Na reunião da
Assembléia Geral da OEA, realizada em São Pedro Sula, Honduras, viu-se que a
secretária de Estado dos EUA não gostou da intervenção do presidente Zelaya em
defesa da revogação da expulsão de Cuba desse organismo. Dado o escasso
conhecimento da sra. Clinton sobre a América Latina e estando ela rodeada de
funcionários do “establishment” e de outros mais perigosos, como John Negroponte,
sua reação ao golpe hondurenho foi superficial, assim como foram vagos os
comentários iniciais feitos pelo presidente Obama.
Quando toda a
América Latina e o Caribe, a Assembléia Geral das Nações Unidas e a União
Européia já tinham condenado categoricamente o golpe e pediam a restituição de
Zelaya, os EUA modificaram seu discurso e o Departamento de Estado propôs a
mediação do presidente da Costa Rica, Oscar Arias, em um contexto que pedia, na
verdade, o cumprimento dos acordos das entidades internacionais. Arias, que não
foi “o” pacificador da América Central, porque foram muitos, e que recebeu um
prêmio Nobel da Paz destinado originalmente a Costa Rica por ser um país sem
exército, aceitou a mediação e entregou uma proposta que foi rechaçada pelos
golpistas porque defendia a restituição de Zelaya na presidência. Então,
elaborou outra fórmula, que satisfaz melhor os interesses estadunidenses, na
medida em que converte Zelaya em uma figura decorativa e antecipa as eleições de
novembro, com o que se passa um borrão, zera-se a conta, e o golpe de Estado
desaparece em um passe de mágica.
Esta segunda
proposta tropeça no mesmo obstáculo; o regime de fato sequer aceitou a
restituição de Zelaya no cargo de presidente e deu início a uma farsa mediante a
qual “consultarão” os outros poderes. O Legislativo se reuniu e tratou de vários
pontos da proposta, menos o relativo à restituição do presidente. O poder
Judiciário tampouco aceitou esse ponto, sobretudo pelo fato de que o presidente
da Corte Suprema já reconheceu que ele também poderia ocupar a presidência de
acordo com a “Constituição”, justificando o golpe como “um caso de necessidade”.
Neste contexto, o
secretário geral da OEA buscou outros mediadores: os ex-presidentes Ricardo
Lagos, do Chile, e Julio Maria Sanguinetti, do Uruguai, aos quais se somaria o
peruano Rafael Pérez de Cuellar, ex-secretário geral da ONU. Ao escrever estas
linhas ainda não havia sido formulada a idéia, mas outra equipe mediadora
implica dar mais tempo ao regime de fato e, com isso, pode-se terminar
avalizando a trapaça para chegar às eleições de novembro ou antecipá-las,
deixando o golpe de Estado no limbo.
OS GOLPISTAS
Como se tornou
visível, os golpistas vivem em um passado muito passado. Quando se reuniram no
Congresso para “substituir constitucionalmente” a Zelaya, a sessão parecia com a
de uma confraria de séculos atrás, com todo um cerimonial que já não é empregado
em parte alguma. Seus chanceleres dão uma idéia do segmento social que
representam. Ortez, o primeiro deles, retratou a todos quando disse a respeito
de Barack Obama: “esse negrinho não sabe onde fica Tegucigalpa”. Mudaram-no de
lugar, mas quando foi falar do secretário geral da ONU, repetiu a dose: “esse
chinesinho que não me recordo como se chama”.
Ortez já está em sua
casa, mas por ser imprudente e não porque suas palavras não representem o
pensamento da soberba oligarquia hondurenha que tomou o poder, entre os quais há
muitos com aparência de “negrinhos” e “chinesinhos” que não se vêm a sim mesmo
como tais, mas sim ao povo que desprezam. Portanto, o desafio que representa a
reação popular ao golpe é intolerável.
O grupo golpista é
liderado por Roberto Micheletti, um empresário do setor de transporte que fez
fortuna. Nunca conseguiu que seu partido, o Liberal, o nomeasse candidato à
presidência; perdeu em todas as oportunidades que tentou e tem a fama de homem
bruto. Na Secretaria de Defesa dos Direitos da Mulher há três denúncias contra
ele, sendo que nenhuma delas foi levada adiante pelo órgão.
Um dos incidentes
ocorreu na reunião de seu partido que definiu o candidato presidencial do
Partido Liberal para as eleições de novembro. Micheletti não só perdeu, como foi
vaiado pelos assistentes. Como prêmio de consolação, deram a ele a presidência
do Congresso e quando ia subir no palanque do encontro, uma jovem do grupo de
protocolo, chamada Suyapa, pediu que ele esperasse um momento porque não tinham
terminado de colocar as cadeiras. Irritado pelas vaias que havia levado,
Micheletti desferiu um tapa na cara de Suyapa, causando-lhe um corte na boca.
UM MÊS DE
PROTESTO POPULAR
Desde o momento em
que os hondurenhos se inteiraram do golpe de Estado, é preciso recordar que os
meios de comunicação foram censurados, e os protestos têm sido permanentes. Os
manifestantes estão na rua todos os dias e não estão dispostos a ceder. A
imprensa dos EUA reconheceu isso e realizou pesquisas rápidas junto aos
manifestantes. Eles responderam que Zelaya foi o primeiro presidente que havia
se preocupado com eles e que com quem podiam falar sem termos sobre seus
problemas e aspirações. O resultado dessas pesquisas foi publicado pelo
Washington Post.
Em Honduras, que tem
um pouco mais de 7 milhões de habitantes, a maioria é pobre, mas há cerca de 1,5
milhão que são absolutamente pobres. O governo de Zelaya começou a se ocupar
dessa parcela da população através do programa Rede Solidária, coordenado pela
esposa do mandatário. Para determinar o grau de pobreza, tiveram que fazer uma
medição baseada em averiguar se comiam. E se a resposta fosse afirmativa,
perguntar o quê e quantas vezes ao dia.
Também foi preciso
estabelecer onde e como viviam, se era em casas, se essas casas tinham portas e
janelas, se tinham algum serviço, porque não tinham trabalho nem endereço fixo.
Cerca de 200 mil famílias já tinha sido incorporadas ao programa e, desde o
início do golpe, não recebem ajuda alguma. Inclusive é possível que alguns nem
saibam o que ocorreu; outros saberão por causa da repressão.
No entanto, apesar
do Estado de Sítio e do toque de recolher, aumenta a cada dia o número dos que
chegam a El Ocotal, na Nicarágua, para somar-se ao acampamento daqueles que
apóiam o presidente Zelaya, que se encontra ali, depois de ter ingressado em
território hondurenho (e retornado). O presidente solicitou às Nações Unidas o
status de refugiado e a ajuda correspondente a todos os que estão ali para
acompanhá-lo, porque se regressarem a Honduras estão ameaçados com uma
condenação a seis anos de prisão por “traição à pátria”, a qual, pelo visto, só
pertence aos golpistas.
Ao longo desta
semana, estão convocadas greves e muitas outras manifestações de protesto. A
pergunta que fica é até que ponto podem seguir sendo ignoradas e reprimidas em
defesa de interesses alheios e de um governo ilegítimo. Ainda mais quando essa
manipulação aponta também para toda a América Latina e para as instituições
criadas recentemente: Unasul, Mercosul, Alba, Petrocaribe, Banco do Sul, Grupo
do Rio e alguma outra que me escapa agora, na medida em que priorizam os
interesses da região.
* Frida Modak é
jornalista, foi secretária de imprensa do presidente Salvador Allende, no Chile. |