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A
mídia e seus chacais de guarda
Foi se criando uma
verdadeira casta de jornalistas, empregados dos maiores meios de imprensa no
Brasil, promíscuos com o poder, que renunciam a qualquer ataque aos interesses
do poder que dominou o país durante séculos: capital financeiro, grandes
monopólios, latifundiários, as próprias grandes empresas monopólicas da mídia, o
imperialismo norte-americano, o FMI, o Banco Mundial, a direita política –
Tucanos, DEM, FHC, Serra
EMIR SADER *
O que seria dos interesses das elites dominantes, se
não contassem com escribas, pagos pelas empresas de mídia privada, para tentar
fazer passar esses interesses como se fossem os interesses do país? Para isso
eles contam com equipes de “cães de guarda”, que defendem, com unhas e dentes,
os interesses das elites dominantes, especialmente concentrados na mídia.
Tentam, por exemplo,
identificar a liberdade com a liberdade do capital, condenando qualquer forma de
limitação à sua livre circulação. Tentar identificar liberdade com a existência
da grande propriedade privada, opondo-se a qualquer definição de critérios
sociais para a propriedade, especialmente a monopólica e a propriedade não
produtiva no campo, opondo-se a qualquer tipo de ação de socialização da
propriedade. Porque essas próprias empresas são monopolistas.
O filósofo francês
Paul Nizan escreveu um livro, em 1932, a que deu o nome de “Cães de guarda” para
se referir aos intelectuais que prestam serviço de promover legitimidade e dar
razões de sobrevivência ao poder das elites dominantes. “Eles adorariam ser
Zola, mas para acusar as vítimas...”, escreve Serge Halimi, no prefácio da
edição mais recente do livro, mencionando como esses guardiães da ordem
estabelecida adoram estar de acordo com seus patrões, acusando os pobres, os
marginalizados, as vítimas do sistema, como se fossem verdugos. “Quanto à sua
obra, ela se autodestrói um quarto de segundo depois do tiro de morteiro
midiático...”, acrescenta Halimi.
Na introdução do
livro de Halimi, “Os novos cães de guarda” – publicado no Brasil pela Jorge
Zahar -, Pierre Bourdieu recorda como trabalhos de denúncia desse tipo
contribuem a “arruinar um dos suportes invisíveis da prática jornalística, a
amnésia...” E se pergunta: “por que, de fato, os jornalistas não deveriam
responder por suas palavras, dado que eles exercem um tal poder sobre o mundo
social e sobre o próprio mundo do poder?”.
Mas, entrando já
diretamente nos chacais de guarda daqui – para não ofender aos cães -, se
tiverem paciência, olhem alguns dos livros que decretaram o fim do governo Lula
em 2005. Uma jornalista que insiste em fazer comentários sem voltar sobre o que
disse ontem, sustentava seu livro oportunista para ganhar dinheiro e agradar
seus patrões com a crise de 2005, apoiada por outro colunista que come nas
mesmas mãos, que reiterava essa morte do governo na contracapa do livro. Como
não têm compromisso algum com o que escrevem, que só se justifica pelos serviços
prestados a seus empregadores, fontes e outros representantes das elites
dominantes, seguem em frente como se não tivessem dito nada ontem, como seguirão
amanhã fingindo que não disseram nada hoje. Não são mais do que ventríloquos
dessas elites.
Indo mais longe: a
imprensa que convocou os militares a dar golpe militar, apoiou a derrubada do
governo legalmente constituído de Jango e sustentou o golpe militar, inclusive
reproduzindo as versões mentirosas que escondiam os sequestros, as torturas e os
fuzilamentos dos opositores, segue de acordo com as posições que tiveram. Um dos
jornais, que emprestou seus carros para que os órgãos repressivos da ditadura
atuassem disfarçados de jornalistas, nem sequer tentou se defender das
gravíssimas acusações, que fazem com que a empresa, os jornais que publicam e os
membros dos comitês editoriais, tenham as mãos sujas de sangue pelos sequestros,
torturas e execuções da ditadura. Ao não fazerem autocrítica, automaticamente
aceitam ter cometido esses crimes de lesa democracia e jornalismo minimamente
objetivo.
Essa mesma mídia
vive acusando o povo de “não ter memória”. Talvez seja essa a razão pela qual
elege e reelege os lideres políticos execrados diariamente pela mídia, porque
hoje não obedece a seus desígnios.
Mas são eles os
primeiros a cultuarem a falta de memória, a amnésia de todos, ao esquecer o que
disseram ontem. Estiveram a favor da ditadura, com que moral acusam governos e
partidos de não ser democráticos?
O que dizem os
empregados de uma empresa que praticamente nasceu durante a ditadura, foi o
órgão oficial da ditadura? Que legitimidade acreditam que podem ter órgãos dessa
empresa?
Um dos colunistas de
um dos jornais da imprensa de propriedade de uma das poucas famílias que dominam
de forma monopolista o ramo, se orgulha de nunca ter ido aos Fóruns Sociais
Mundiais, por ter ido a todos os Fóruns de Davos – onde manifestamente ele se
sente no seu mundo. Seria bom ele ouvir agora os arautos da globalização –
incluído seu prócer FHC – para saber o que pensam da crise atual, provocada por
suas políticas. Teria que se deslocar não a Davos, mas a algumas prisões, onde
alguns deles foram encarcerados, depois de reveladas suas trapaças – aliás,
nenhuma delas revelada pela imprensa, conivente e complacente com os ricaços de
Davos.
Um outro jornalista
disse, em outro momento da sua carreira, em conferência pública, que quando um
jornalista senta para escrever uma matéria, pensa, em primeiro lugar, no dono da
empresa; em segundo, nas fontes do que vai publicar; em terceiro na enorme
quantidade de desempregados do lado de fora da empresa. A esse filtro haveria
que acrescentar as agências de publicidade e os grandes grupos econômicos que
financiam os órgãos de imprensa e acabam pagando os seus salários.
Foi se criando uma
verdadeira casta de jornalistas, empregados dos maiores meios de imprensa no
Brasil, promíscuos com o poder, que renunciam a qualquer ataque aos interesses
do poder que dominou o país durante séculos: capital financeiro, grandes
monopólios, latifundiários, as próprias grandes empresas monopólicas da mídia, o
imperialismo norte-americano, o FMI, o Banco Mundial, a OMC, a direita política
– Tucanos, DEM, FHC, Serra, Tasso Jereissatti, Jarbas Vasconcellos.
Preferem, para
conveniência de seus empregos e dos interesses dos seus patrões, atacar o que
incomoda à direita – sindicatos, o MST, o pensamento crítico, as universidades
públicas, os partidos de esquerda.
Além dos casos
mencionados, há os pobres diabos que querem adquirir certo verniz “intelectual”
– não aguentam a inveja do pensamento crítico – e citam autores, viajam pelo
mundo em eventos sem nenhuma importância, escrevem em jornais e falam em rádios
e TVs, sem nenhum prestígio, colunas que ninguém leva a sério ou mesmo lê. Um
deles foi chefe de gabinete de um dos ditadores, depois foi demitido,
fotografado na cama para a Playboy, tentando mostrar méritos que não conseguiu
na política, e que circulava nos governos anteriores com toda promiscuidade
pelos ministérios e Palácio do Planalto – de que esse tipo de gente sentem uma
falta danada.
A ideologia do
“’quarto poder” se tornou antiquada, porque o monopólio da mídia privada detém
muito mais poder do que isso, termina dando direção ideológica e política aos
fracos partidos opositores. Claro que o que realmente não são é “contra-poder”,
porque na verdade fazem parte intrínseca dos poderes constituídos, como força
conservadora.
Como a notícia se
transformou definitivamente em uma mercadoria na mão dessa casta, perdeu toda
credibilidade. Conhece-se o caso de colunistas econômicos que fingem estar
preocupados com a situação de um setor do empresariado, ao vendem reunião e
assessoria com eles, em troca de defender mais explicitamente seus interesses.
Se devem às suas fontes, a tal ponto que a editoria econômica passou a ser a
mais comprometida com os interesses criados, de forma similar a como certa
cobertura policial se deve às fontes nas delegacias e nas polícias, sem as quais
ficam sem seus “furos”.
“Quem paga,
comanda”, recorda Halimi. E a mídia, como sabemos, é financiada não pelos
leitores com as compras na banca e as assinaturas, mas pelas agencias de
publicidade. E vejam quem são os grandes anunciantes, com os quais a mídia tem o
rabo preso – bancos, telefonias, fábricas de automóveis, etc. Não pelas
organizações populares, sindicatos, centros culturais, nada disso. Quem paga,
comanda. Já viram jornais, rádios, televisões, colunistas, fazendo campanha de
denúncia – com um pouquinho da sanha que têm contra o governo e a esquerda –
contra os bancos, suas falcatruas, contra as grandes corporações multinacionais,
contra a lavagem de dinheiro nos paraísos fiscais? Não, porque seria tiro no pé,
atentado contra os que financiam a essa mídia.
Perguntado sobre
como a elite controla a mídia, Chomsky respondeu: “Como ela controla a General
Motors? A questão nem se coloca. A elite não tem que controlar a General Motors.
Ela lhe pertence”. Albert Camus disse que a mídia francesa se tornou “a vergonha
do país.” E a nossa? O Brasil e seu povo têm orgulho ou vergonha dessa mídia que
anda por aí?
A lei apresentada
pelo governo argentino para regulamentar o audiovisual – umas das razões da
brutal ofensiva da imprensa de lá contra seu governo – determina que as empresas
da mídia têm que declarar publicamente suas fontes de financiamento – quem as
financia, com que quantidades de dinheiro. Poderiam aproveitar e declarar
publicamente quanto ganham os magnatas dessa casta midiática, enquanto a massa
dos jornalistas ganha uma miséria, é terceirizada e passível a qualquer momento
de ser mandada embora, se não cumpre à risca as orientações que os chacais lhes
impõem. Um jornalista norte-americano citado por Halimi, disse: “Sobre as
questões econômicas (impostos, ajuda social, política comercial, luta contra o
déficit, atitude em relação aos sindicatos), a opinião dos jornalistas de renome
tornou-se muito mais conservadora à medida que suas rendas foram aumentando”.
Quem discorda dos
consensos que tentam impor nos seus desagradabilíssimos e redundantes programas
de entrevistas ou suas colunas de merchandising, como se sabe, é chamado de
“populista”, de “demagogo”, de “aventureiro”. Que são, como também se sabe, os
governantes que fazem políticas sociais e têm alto nível de apoio da população.
Por isso chamam sempre os mesmos, seus amigos, operadores das bolsas de valores,
empresários que passam a lhes dever favores, para dizer as mesmas baboseiras que
a realidade não se cansa de desmentir.
“Mídias cada vez
mais concentradas, jornalistas cada vez mais dóceis, uma informação cada vez
mais medíocre” – conclui Halimi. E cita um político de direita francês, Claude
Allègre, sobre as possibilidades do meio midiático se reformar: “Eu vou lhes dar
uma resposta estritamente marxista, eu que jamais fui marxista: porque não há
interesse... Por que vocês queriam que os beneficiários dessa situação sintam
necessidade de mudá-la?”. E, para concluir, conforme se aproxima a Conferência
Nacional de Comunicação, declaração do também conservador jornalista francês
Jacques Julliard: “Uma das reformas mais urgentes neste país, seria aquela que
pudesse dar às mídias um mínimo de seriedade e de dignidade. Sobretudo de
dignidade!”.
* Mestre em filosofia política, escritor e
professor de sociologia da UERJ. O artigo foi publicado originalmente no Blog do
Emir, com o título “Os chacais de guarda”. |