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Preposto da Alstom detalha o esquema de corrupção em SP
Em depoimento ao MP, o “consultor” que fazia as “entregas” detalha o pagamento
de propina que garante até hoje contratos da multi em SP
Em
depoimento ao Ministério Público de São Paulo, vazado pela imprensa na última
semana, o representante da MCA Uruguay (uma “offshore” de lavagem de dinheiro),
Romeu Pinto Júnior, confirmou que os contratos de consultoria com a Alstom eram
somente fachada. A verdadeira finalidade da empresa era o pagamento da propina
que garantia contratos da multinacional francesa com o governo do Estado.
O esquema
De acordo com o promotor Silvio Marques e o
procurador Rodrigo de Grandis, responsáveis pela investigação, “o declarante
[Romeu Pinto Jr.] afirma que não prestou os referidos serviços relacionados nos
recibos emitidos pela MCA Uruguay” para a múlti.
Entre outubro de 1998 e fevereiro de 2002, a
Alstom depositou cerca de US$ 1.006.516,02 (R$ 1,86 milhão hoje) nas contas da
MCA que foram entregues para Pinto Junior para fazer a distribuição no Brasil.
“O declarante recebeu os valores mencionados
no Brasil, na sua casa, mas não ficou para si com qualquer quantia, pois teve de
indicar as quantias para pessoas indicadas por Jaffré. O declarante recorda-se
que entregava os valores em restaurantes a motoboys indicados por doleiros”, diz
o trecho do depoimento.
O empresário brasileiro afirmou que esta
offshore, tipo de empresa que paga menos impostos por funcionar em paraísos
fiscais, foi aberta pelo ex-diretor financeiro da Alstom, falecido em 2007, e
que chegou a vice-presidência da multi francesa, Phillipe Jaffré.
Pinto Junior lembra que foi contratado por
Jaffré para ajudar a implementar um contrato com a Eletropaulo de R$ 110
milhões, que estava parado, a ser executado a partir de 1998, quando ainda era
estatal. A MCA receberia 7,5% do valor de todos os contratos que a Alstom
assinasse com a Eletropaulo (estatal, na época), de acordo com Pinto Junior,
para serem distribuídos entre tucanos paulistas.
As contas
No último dia 5, a juíza Maria Gabriela
Spaolonzi, da 13ª Vara de Fazenda, determinou, a pedido de Marques e de Grandis,
o bloqueio de contas secretas na Suíça atribuídas a Robson Marinho, conselheiro
do Tribunal de Contas do Estado de São Paulo (TCE) - ex-tesoureiro da campanha
do PSDB em São Paulo e chefe da Casa Civil do governo Mário Covas -, e Jorge
Fagali Neto, irmão do atual presidente do Metrô.
Segundo a Justiça suíça, que já tinha
bloqueado as contas, elas foram criadas para receber dinheiro lavado da Alstom.
Investigações na França e na Suíça revelaram a prática da multinacional francesa
de pagar propina a governos, principalmente da América Latina, para conseguir
contratos.
No caso do governo tucano, em São Paulo,
bilhetes entre executivos da multinacional revelaram os detalhes da operação. Em
um deles, enviado por Andre Botto, diretor da Cegelec – subsidiária da Alstom -
na França, para um cidadão de nome M. Chamussy, se refere a um contrato de R$
110 milhões a ser firmado com a Eletropaulo. Escrito em 23 de setembro de 1997,
nele Botto informa que o suborno foi acertado num “patamar de 7,5 (%)”. “Se
trata da remuneração para o governo local. Ela está sendo negociada via um
ex-secretário do governador (RM)”. De acordo com as investigações, “RM” é Robson
Marinho. Cabia a “RM”, neste caso, segundo a correspondência, distribuir a
quantia entre o partido, o Tribunal de Contas do Estado e também à Secretaria de
Estado de Energia.
Os contratos
Um levantamento da bancada do PT na
Assembléia Legislativa, mostra que, de 1993 a 2003, o governo paulista do PSDB
assinou 96 contratos com a Alstom de valores que chegam a R$ 5,2 bilhões. A
maioria destes contratos, com as empresas Metrô, CESP, Força e Luz, CPTM, CTEEP,
Dersa, Eletropaulo, Emae, Prodesp e Sabesp, foram firmados na gestão do
ex-governador Geraldo Alckmin (PSDB).
Mas, mesmo com as decisões das justiças
brasileira e suíça, a Alstom continua a ter contratos em São Paulo. Em 2008, o
atual governador do estado José Serra (PSDB) assinou um dos contratos mais
rentáveis da história da empresa no Brasil: o contrato para fornecer
equipamentos para as linhas 1, 2 e 3 do Metrô de São Paulo no valor de 280
milhões de euros (cerca de 730 milhões de reais no câmbio de 12/08).
ALEXANDRE SOUZA |