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Operação
Sarkozy: Como a CIA alçou um dos seus agentes à presidência da França (1)
Nicolas
Sarkozy deve ser julgado pelas suas ações e não pela sua personalidade. Mas,
quando as suas ações surpreendem até os seus próprios eleitores, é legítimo nos
debruçarmos detalhadamente sobre a sua biografia e nos questionar sobre as
alianças que o conduziram ao poder. Este artigo descreve as origens do
presidente da República Francesa. Todas as informações nele contidas são
verificáveis, com exceção de duas imputações, pelas quais o autor assume a
responsabilidade exclusiva
THIERRY MEYSSAN*
Os franceses, cansados das demasiado longas
presidências de François Mitterrand e de Jacques Chirac, elegeram Nicolas
Sarkozy contando com a sua energia para revitalizar o país. Eles esperavam uma
ruptura com anos de imobilismo e ideologias ultrapassadas. Tiveram uma ruptura
com os princípios que fundaram a nação francesa. Ficaram estupefatos porque este
“hiper presidente” era atingido por um novo dossiê a cada dia, atraia a direita
e a esquerda em torno de si, abalou todas as referências até criar uma completa
confusão.
Assim como as
crianças que acabam de fazer uma grossa asneira, os franceses estão demasiado
ocupados em procurar desculpas para admitir a amplitude dos danos e a sua
ingenuidade. Recusam-se, portanto, a ver quem realmente é Nicolas Sarkozy, o que
deveriam ter percebido há muito.
O homem é hábil.
Como um ilusionista, ele desviou as atenções ao oferecer a sua vida privada como
espetáculo e posar nas revistas populares, até fazer esquecer seu percurso
político.
Que se compreenda
bem o sentido deste artigo: não se trata de criticar o sr. Sarkozy pelas suas
ligações familiares, de amizade e profissionais, mas de criticá-lo por ter
escondido suas ligações aos franceses que acreditaram, erradamente, estar
elegendo um homem livre.
Para poder entender
como um homem em que todos vêem hoje um agente dos Estados Unidos e de Israel
conseguiu tornar-se o chefe do partido gaullista, e depois presidente da
República Francesa, é preciso olhar para o passado. Temos que abrir um amplo
parêntese no decorrer do qual apresentaremos os protagonistas que hoje estão
perpetrando sua vingança.
SEGREDOS DE
FAMÍLIA
No fim da Segunda
Guerra Mundial, os serviços de inteligência estadunidenses recorreram ao
padrinho italo-americano Lucky Luciano para controlar a segurança dos portos
americanos e para preparar o desembarque aliado na Sicília.
O responsável dos
contatos de Luciano com os serviços dos EUA é Frank Wisner Sr. E depois, quando
o “padrinho” é libertado e se exila na Itália, o encarregado de manter esses
contatos é seu “embaixador” corso, Étienne Léandri.
Em 1958, os Estados
Unidos, preocupados com uma possível vitória da FLN na Argélia, fato que abriria
a África do Norte à influência soviética, decidem instigar um golpe de Estado
militar na França. A operação é organizada em conjunto pela Direção de
Planificação da CIA – teoricamente dirigida por Frank Wisner Sr. – e pela OTAN.
Mas Wisner já havia afundado na demência, de modo que é o seu sucessor, Allan
Dulles, que supervisiona o golpe. A partir de Argel, generais franceses criam um
Comitê de Salvação Pública que exerce uma pressão sobre o poder civil parisiense
e o obriga a votar plenos poderes ao general De Gaulle, sem ter necessidade de
recorrer à força.
Ora, Charles De
Gaulle não é o peão que os anglo-saxões acreditavam poder manipular. Num
primeiro momento, ele tenta resolver a contradição colonial concedendo uma
grande autonomia aos territórios do ultramar no seio da União Francesa. Mas, já
é demasiado tarde para salvar o Império francês porque os povos não acreditam
mais nas promessas da metrópole e exigem a sua independência. Depois de dirigir
vitoriosamente ferozes campanhas de repressão contra os independentistas, De
Gaulle rende-se à evidência. Fazendo prova de uma rara sabedoria política, ele
decide conceder a cada colônia a sua independência.
Esta reviravolta foi
considerada pela maior parte daqueles que o levaram ao poder como uma traição. A
CIA e a OTAN apóiam então todo tipo de conspirações para eliminá-lo, inclusive
um golpe de Estado que fracassa e umas quarenta tentativas de assassinato.
Entretanto, alguns dos seus partidários aprovam a sua evolução política. Em
torno de Charles Pasqua eles criam o SAC, uma milícia para protegê-lo.
Pasqua é ao mesmo
tempo um gangster corso e um ex-combatente da Resistência Francesa contra o
nazismo. Ele casou-se com a filha de um contrabandista de bebidas canadense que
fez fortuna durante a época da Lei Seca. Pasqua dirige a sociedade Ricard que,
depois de ter comercializado o absinto, uma bebida proibida, se faz de uma
reputação respeitável vendendo anis. Entretanto, a sociedade continua servindo
de cobertura para todos os tipos de tráficos relacionados com a família
italo-nova-iorquina dos Genovese, a do próprio Lucky Luciano. Não resulta então
surpreendente que Pasqua apele a Étienne Léandri (o “embaixador” de Luciano)
para recrutar braços fortes e constituir a milícia gaullista. Um terceiro homem
desempenha um grande papel na formação do SAC, o antigo guarda costas de De
Gaulle, Achille Peretti – também ele um corso.
Sob essa proteção,
De Gaulle traça com desenvoltura uma política de independência nacional. Sempre
afirmando pertencer ao campo atlântico, ele questiona a liderança
anglo-saxônica. Opõe-se à entrada do Reino Unido no Mercado Comum Europeu (1961
e 1967); recusa a mobilização dos capacetes azuis da ONU no Congo (1961);
encoraja os Estados latino-americanos a libertarem-se do imperialismo americano
(discurso do México, 1964); expulsa a OTAN da França e retira-se do Comando
Integrado da Aliança Atlântica (1966); denuncia a Guerra do Vietnã (discurso de
Phnon Pehn, 1966); condena o expansionismo israelense durante a Guerra dos Seis
Dias (1967); apóia a independência de Quebec (discurso de Montreal, 1967); etc.
Simultaneamente, De
Gaulle consolida o poderio da França dotando-a de um complexo militar-industrial
incluindo a força de dissuasão nuclear, e garantindo seu aprovisionamento
energético. Afasta os inconvenientes corsos do seu entorno confiando-lhes
missões no estrangeiro. Assim, Étienne Léandri torna-se o representante
comercial do grupo Elf (hoje Total), enquanto que Charles Pasqua torna-se o
homem de confiança dos chefes de Estado da África francófona.
Consciente de que
não pode desafiar os anglo-saxões em todos os terrenos ao mesmo tempo, De Gaulle
alia-se à família Rothschild. Escolhe como primeiro-ministro o diretor do banco,
Georges Pompidou. Os dois homens formam uma equipe eficaz. A audácia política do
primeiro nunca perde de vista o realismo econômico do segundo.
Quando De Gaulle se
demite, em 1969, Georges Pompidou ocupa brevemente a presidência antes de morrer
vítima de um câncer. Os gaullistas históricos não admitem a sua liderança e
inquietam-se com a sua tendência anglófila. O denunciam como traidor quando
Pompidou, secundado pelo secretário-geral da presidência francesa, Edouard
Balladur, permite entrar “a pérfida Albion” no Mercado Comum Europeu.
A FABRICAÇÃO
DE NICOLAS SARKOZY
Apresentado este
cenário, retornemos ao nosso personagem principal, Nicolas Sarkozy. Nascido em
1955, é filho de um nobre húngaro, Pal Sarkösy de Nagy-Bocsa, que chegou à
França fugindo do Exército Vermelho, e de Andrée Mallah, uma judia originária de
Tessalónica. Depois de terem três filhos (Guillaume, Nicolas e François), o
casal divorcia-se. Pal Sarkösy de Nagy-Bocsa casa-se novamente com uma
aristocrata, Christine de Ganay, com quem terá dois filhos (Pierre-Olivier e
Caroline). Nicolas não será educado só pelos seus pais, mas será inserido nos
vaivens dessa família “reconstruída”.
Sua mãe tornou-se a
secretária de Achille Peretti. Depois de ter sido co-fundador do SAC, o
guarda-costas de De Gaulle havia trilhado uma brilhante carreira política. Fora
eleito deputado e prefeito de Neuilly-sur-Seine, o mais rico subúrbio
residencial de Paris, e depois, presidente da Assembléia Nacional.
Porém, em 1972
Achille Peretti enfrenta graves acusações. Nos Estados Unidos, a revista Time
revela a existência de uma organização criminosa secreta, a “União corsa”, que
controla grande parte do tráfico de entorpecentes entre a Europa e a América.
Trata-se da famosa “French connexion” que Hollywood levaria posteriormente às
telas. Baseando-se em audiências do Congresso e nas suas próprias investigações,
a Time cita o nome de um chefe mafioso, Jean Ventura, preso alguns anos antes no
Canadá, e que não é outro senão o representante comercial de Charles Pasqua para
a sociedade de bebidas alcoólicas Ricard. Evoca-se o nome de várias famílias que
dirigiriam a “União Corsa”, inclusive os Peretti. Achille nega, mas deve
renunciar à presidência da Assembléia Nacional e escapa inclusive a um
“suicídio”.
Em 1977, Pal Sarközy
separa-se da sua segunda esposa, Christine de Ganay, que estabelece então uma
relação com o segundo homem mais importante da administração central do
Departamento de Estado dos Estados Unidos. Christine de Ganay se casa com ele e
instala-se na América. Sendo o mundo tão pequeno, como é bem sabido, seu marido
não resulta outro senão Frank Wisner Jr., filho do anterior Frank Wisner. As
funções de Junior na CIA não são conhecidas, mas é claro que ele desempenha um
papel importante. Nicolas, que permanece muito próximo da sua mãe adotiva, do
seu meio irmão e da sua meia irmã, começa a voltar-se para os Estados Unidos
onde se “beneficia” dos programas de formação do Departamento de Estado.
Nesse período,
Nicolas Sarkozy adere ao partido gaullista. Ali se relaciona rapidamente com
Charles Pasqua, que não é só um líder nacional como também o responsável da
seção departamental de Hauts-de-Seine.
Em 1982, Nicolas
Sarkozy, tendo concluído seus estudos de direito e sendo já membro do Colégio de
Advogados, se casa com a sobrinha de Achille Peretti. Charles assiste à boda
como padrinho do noivo. Enquanto advogado, Mestre Sarkozy defende os interesses
dos amigos corsos dos seus mentores. Ele adquire uma propriedade em Córsega, em
Vico, e analisa até dar um som corso a seu nome substituindo o “y” por um “i”:
Sarkozi.
No ano seguinte é
eleito prefeito de Neuilly-sur-Seine em substituição do seu tio adotivo, Achille
Peretti, abatido por uma crise cardíaca.
Entretanto, Nicolas
não tarda em trair sua mulher e, desde 1984, mantém uma ligação clandestina com
Cecília, a esposa do mais célebre animador da televisão francesa da época,
Jacques Martins, que conheceu ao celebrar seu casamento na qualidade de prefeito
de Neully. Esta vida dupla dura cinco anos, até que os amantes deixem seus
consortes respectivos para construir um novo lar.
Nicolas é testemunha
de casamento, em 1992, da filha de Jacques Chirac, Claude, com um editorialista
do jornal francês Le Figaro. Incapaz de se conter, seduz Claude e mantém uma
breve relação com ela, enquanto vive oficialmente com Cecília. O marido enganado
suicida-se com o uso de drogas. A ruptura é brutal e irreversível entre a
família Chirac e Nicolas Sarkozy.
Em 1993, a esquerda
perde as eleições legislativas. O presidente François Mitterand se nega a
renunciar e começa a co-habitar com um primeiro-ministro de direita. Jacques
Chirac, que ambiciona a presidência e planeja então formar com Edouard Balladur
um dueto comparável àquele de De Gaulle e Pompidou, recusa-se a ser novamente
primeiro-ministro e cede o lugar a seu “amigo de trinta anos”, Edouard Balladur.
Apesar do seu passado turbulento, Charles Pasqua torna-se ministro do Interior.
Conservando firmemente o controle da maconha marroquina, ele aproveita seu cargo
para legalizar suas outras atividades tomando o controle dos cassinos, jogos e
corridas na África francófona. Ele também estabelece ligações na Arábia Saudita
e em Israel e torna-se oficial de honra (officier d’honneur) do Mossad. Nicolas
Sarkozy, por sua vez, é ministro do Orçamento e porta-voz do governo.
Em Washington, Frank
Wisner Jr. assumiu a sucessão de Paul Wolfowitz como responsável pelo
planejamento político no Departamento de Defesa. Ninguém comentou as ligações
que o uniam ao porta-voz do governo francês.
É então que retorna
ao seio do partido gaullista a tensão que se experimentara trinta anos antes
entre os gaullistas históricos e a direita financeira, encarnada por Balladur. A
novidade é que Charles Pasqua, e com ele o jovem Nicolas Sarkozy, traem Jacques
Chirac para se aproximarem da corrente Rothschild. Tudo degenera. O conflito
atingirá seu apogeu em 1995 quando Édouard Balladur se apresenta como candidato
à presidência contra o seu ex-amigo Jacques Chirac, e resulta derrotado. O mais
importante é que, seguindo as instruções de Londres e Washington, o governo
Balladur abre as negociações para a entrada à União Européia e à OTAN dos
Estados da Europa Central e Oriental, já fora da tutela soviética.
Nada dá certo no
partido gaullista, onde os amigos de ontem estão agora dispostos a matar-se uns
aos outros. Para financiar a sua campanha eleitoral, Edouard Balladur tenta
apoderar-se das reservas secretas do partido gaullista, escondidas na dupla
contabilidade da petroleira Elf. Assim que morreu o velho Étienne Léandri, os
juízes examinaram os registros da empresa e os seus dirigentes são encarcerados.
Mas Balladur, Pasqua e Sarkozy nunca conseguiram recuperar o botim.
Continua na próxima
edição.
* Analista político, fundador do Réseau
Voltaire. Último livro publicado, L´Effroyable imposture 2 (a remodelação do
Oriente Próximo e a guerra israelense contra o Líbano). |