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Oswaldo
Aranha: “Getúlio, o destino da Pátria se espraiará na afirmação renovada das
tuas ideias”
Publicamos
hoje os principais trechos do discurso de Oswaldo Aranha no funeral do
presidente Getúlio Vargas. O orador, velho amigo e companheiro de Getúlio, seu
secretário de Estado, seu ministro várias vezes, seu embaixador na ONU e nos
EUA, era, sem dúvida, a pessoa mais indicada para falar do grande homem que se
fora. Trata-se de um improviso, um improviso emocionado, pronunciado em São
Borja, a 25 de agosto de 1954.
Oswaldo
Aranha foi, talvez, o companheiro mais próximo de Getúlio, a quem conheceu desde
a juventude e foi seu substituto no governo do Rio Grande do Sul durante as
eleições de 1930 e depois durante a própria Revolução de 30. Foi de Aranha, como
governador interino, o telegrama em resposta a Washington Luiz, quando este,
depois da enxurrada de fraudes na eleição de 1º de março de 1930, comunicou que
seu candidato, Júlio Prestes, vencera Getúlio:
“Presidente da República - Palácio do Catete - Rio. Agradeço o telegrama de
Vossa Excelência, cujos termos farei publicar por virem tranquilizar a opinião
pública do país, pela confirmação feita com a autoridade do supremo magistrado
da República, de que ‘o brasileiro, consciente dos seus direitos, só será
governado pelo eleito de sua vontade soberana’. Não era outra a nossa convicção
quando nos empenhamos nesta luta eleitoral, confiantes na cultura e na
civilização do nosso povo e dos seus governantes. Fechar as urnas, negar
boletins, não instalar mesas, recusar fiscais, adulterar resultados, afugentar
eleitores, comprar votos, falsear alistamento, invadir as mesas com policiais,
arrebatar livros eleitorais e procurações de candidatos, fazer eleição
antecipada, não aceitar votação em cartório, sonegar, enfim, ao cidadão o
direito de votar ou forçá-lo contra a sua consciência, são fatos degradantes
que, verificados, tínhamos antecipadamente certeza que não influiriam no
resultado do pleito, repugnando a qualquer caráter medianamente honesto e
merecendo a condenação de todos os brasileiros. Tenho, infelizmente, de fatos
similares, denúncias documentadas em relação a muitos Estados, especialmente São
Paulo, Maranhão, Ceará, Pernambuco, Rio Grande do Norte, Santa Catarina, Paraná
e Sergipe (....). Estamos confiantes e tranquilos, desejosos de concorrer, com
honestidade e firmeza políticas, para o êxito desta campanha cívica de grande
alcance para a nossa civilização, como Vossa Excelência muito bem afirma, em seu
telegrama. Correspondendo ao pedido de Vossa Excelência, transmito o resultado
até o momento conhecido aqui: Getúlio Vargas, 278.321 votos e Júlio Prestes,
789, faltando alguns municípios e seções de outros. Aguardando as informações
prometidas por Vossa Excelência, transmitirei tudo quanto possa interessar à
apuração da verdade eleitoral nesta campanha”.
Oswaldo
Aranha foi também o enviado de Getúlio ao Rio, quando o chefe da revolução ainda
estava a caminho da então capital federal, para dizer à junta - que,
antecipando-se à sua chegada, havia deposto Washington Luiz - que a única
negociação possível era o reconhecimento do presidente que havia sido eleito
pelas mais legítimas assembleias populares, até então, da História do Brasil.
Logo depois, no final de novembro de 1930, quando as primeiras medidas do novo
governo foram contestadas pela oposição, Aranha cunhou uma frase célebre, que
definia o projeto da revolução: “Até aqui o povo obedecia ao governo; agora, é o
governo que obedece ao povo”.
Independente de algumas debilidades – Aranha tinha, por exemplo, esperanças
injustificadas em relação aos EUA – ele permaneceu leal a Getúlio durante toda a
sua vida, encerrada em 1960, no que foi uma comoção nacional, na qual o
presidente da época, Juscelino Kubitschek, e o vice-presidente, João Goulart,
também presidente do partido ao qual pertencia, prestaram-lhe pessoalmente as
suas homenagens, à frente de milhares de pessoas.
Em
homenagem aos 55 anos do sacrifício daquele que foi a maior figura da nossa
História, apresentamos aos nossos leitores a oração de um homem no momento em
que rendia tributo ao seu melhor amigo, reconhecendo nele a sua imensa grandeza.
C.L.
OSWALDO ARANHA
Getúlio.
Não era possível os
teus restos serem recolhidos ao seio maternal da tua terra, sem que antes, tendo
contigo vivido os últimos dias de tua vida, eu procurasse, ante a eternidade que
nos vai separar, conversar contigo, como costumávamos conversar nos nossos
despachos, sobre a vida, as criaturas e os destinos do Brasil. Não sei se neste
instante poderei conversar contigo como outrora conversávamos. Eu estou, como
todos os brasileiros, confrangido, dolorido, ferido na alma, ao ver que te
arrancaram a vida aqueles que te deviam conservar para melhor sorte do povo e do
Brasil.
Quero que Deus me
dê, neste instante, um pouco da tua tranquilidade, um pouco da tua mansidão, um
pouco da tua bondade e generosidade, para que nós possamos suportar neste
transe, quando já no horizonte do Brasil, na sorte do povo e no futuro da nossa
Pátria, já se carrega de nuvens negras da insegurança e da violência. Disseste
que “só o amor constrói para a eternidade” e este teu amor será aquele
que vai construir o Brasil. Não há quem tenha forças nem poder para trocar o
amor que está no coração dos brasileiros e não tenha forças e poder para mudar
os destinos desta Pátria contrariamente as suas tradições, pelos golpes da
ilegalidade, da traição e das armas.
Neste momento, Getúlio, conversando com
aquela intimidade boa e generosa, com que nos entendíamos, quero te dizer que o
povo todo chorou, chora e chorará por ti, como nunca imaginei pudesse um povo
chorar. Se é verdade aquilo que se disse, quando morreu um grande homem da
História que orgulha todos rio-grandenses, quando morreu Castilhos; se é verdade
o que disse Pereira da Cunha, numa hora de emoção, declarando que se houvesse um
processo para a cristalização da lágrima, o túmulo dele não seria de mármore, eu
te diria que se houvesse esse processo para a cristalização da lágrima, tu não
te enterrarias no fundo da terra de São Borja e do Rio Grande, mas na mais alta
montanha da geografia política do Brasil, porque nunca se chorou tanto, nunca se
sofreu tanto, nunca um povo foi tão dominado pela dor, ao perder um filho, como
neste instante o povo brasileiro diante de tua morte.
Saímos juntos daqui, há vinte e tantos anos;
íamos todos levados pelo teu sonho e teu ideal. A tua filosofia era inspirada
nos humildes, nos necessitados, na assistência de quantos viviam à margem da
sociedade brasileira, espalhados por esta imensidão, por essas terras
abandonadas e abandonados eles também em suas terras, os trabalhadores. Todos
tínhamos um sonho só: era integrar o Brasil em si mesmo, era fazer com que o
Brasil não fosse de poucos, mas de todos; era fazer com que o Brasil não
pertencesse às classes dominantes, aos potentados ou poderosos e que entre nós
existisse, pela condição humana de pobres e ricos, maior igualdade e fôssemos
todos igualmente brasileiros. A preocupação dominante da tua vida eu não direi
que era fraternal, direi que era material, porque eu o testemunhei: o teu ideal
era dividir igualmente entre todos os seus filhos o carinho, o amor e a
possibilidade de assistência, de vida e de futuro. O que mais te feria eram as
discriminações, as separações, era este contraste horrível que só não emociona
os homens que não têm formação cristã e faz com que enquanto uns vivam no gozo,
no luxo e na grandeza, outros se afundem na fome, na miséria e no desespero.
Saímos daqui, há
vinte e poucos anos. Voltamos juntos e tenho consciência de que se tu voltas,
neste momento, para a terra de São Borja, para um túmulo e eu não volto para a
cidade de Alegrete, ainda é por causa do teu amor, da tua generosidade e do teu
desprendimento, porque sei, tenho consciência e devo dizer a todos e a todo o
País, que tu morreste para que nós, os que te assistiam, os teus amigos, não
morressem contigo. Devo declarar que se ainda vivemos é porque tu te antecipaste
na morte para nos deixar na vida.
Todos os meus apelos
eram no sentido de que a tua vida era da maior necessidade para o Brasil.
Praticaste não o ato de renúncia da tua vida, praticaste a grande opção, que só
os fortes sabem fazer, a opção altruística que, entre a vida e os seus prazeres
e a morte, decide-se pela última.
Se ele tivesse
querido, nesta hora, meus Senhores, seria mais forte do que nunca, em vida; mas
não mais forte do que é agora na morte, porque a morte é eterna e a vida
passageira. Ele seria mais forte, porque tinha no seio das forças armadas e no
coração do povo, que é invencível, os elementos para resistir, dominar e vencer.
Mas procurou vencer-se a si mesmo, não derramar o sangue daqueles que sabia,
como disse momentos antes, os melhores, os bons, os amigos. Não foi, como se
disse, o suicídio de um grande homem, tu te mataste para evitar que o novo
Brasil se suicidasse e para que, de ti, da tua morte e do teu sangue, surjam,
como numa transfiguração, o futuro e o destino, e nós, nos contemplando,
possamos ter, neste momento, a convicção de que deste, com o teu sangue, a
certeza que o Brasil surgiu de ti, da tua filosofia, que será cada vez maior.
E ai daquele que
quiser mudar o curso dos destinos da nossa Pátria! Este destino surgirá como uma
emanação deste túmulo e se espraiará pelo tempo dos tempos e por todos os
horizontes, numa afirmação renovada das tuas ideias e dos teus sentimentos.
Quando se quiser escrever a História do Brasil, queiram ou não tem-se que molhar
a pena no sangue do Rio Grande do Sul, e ainda hoje, quem quiser escrever e
descrever o futuro do Brasil, terá que molhar a pena no sangue do teu coração.
Quando há vinte e
tantos anos, assumiste o governo deste País, o Brasil era uma terra parada, onde
tudo era natural e simples; não conhecia nem o progresso nem as leis de
solidariedade entre as classes, não conhecia as grandes iniciativas, não se
conhecia o Brasil. Nós o amávamos de uma forma estranha e genérica, sem
consciência da nossa realidade. Tu entreabriste, para o Brasil, a consciência
dos problemas, a perspectiva dos nossos destinos. Ao primeiro relance, viste que
a grande maioria dos brasileiros estava à margem e a outra parte estava a
serviço das explorações estrangeiras.
E, então, este
espírito que conhecemos, retemperado no drama da fronteira, se alarmou nos seus
estudos e se multiplicou na generosidade de seus sentimentos. Trouxeste uma
cruzada que não se encerra contigo, mas contigo se multiplicará: uma cruzada que
não está marcada no tempo e não tem horizonte fixado, que é a reintegração dos
brasileiros pelos brasileiros no seu próprio destino. Até então o Brasil não era
nada, esperava por tudo. Não havia consciência do nosso progresso. Tu ofereceste
realidade, penetraste nela, tudo deste pelo novo Brasil que há de surgir, que há
de crescer e se multiplicar e, quando integrado na sua grandeza, entre as
maiores nações do mundo que fatalmente viremos a ser, o teu nome estará, não
neste túmulo, mas no topo de um pedestal, onde a gratidão de todos os
brasileiros te elevará como reconhecimento.
Getúlio.
Não tenho nem ideia,
nem pensamento, nem forças para falar. Estou vivendo, nesta hora, ao teu lado, o
turbilhão das minhas emoções, que se agrupam entre espasmos de dor e lágrimas,
entre conjeturas de dúvidas e olhando para ti sei que estou olhando para o
Brasil e vendo que tu, ao entrares para a eternidade, tornaste maior o teu nome
na História.
Neste instante,
quando ainda agitados pelo remorso ou atormentados e com as mãos tintas da
traição, ou, receosos diante da afronta que se fez ao povo brasileiro com o teu
afastamento, a maior das afrontas que registra a História do Brasil, porque se
verificou não uma eleição com a sua morte, mas a consagração definitiva do amor
do teu povo pelo teu amor pelo Brasil; neste instante, diante do teu túmulo, não
há lugar para exaltações, para paixões, que ofenderiam a tua bondade, de que
tanto se abusou neste País. Diante de ti não há lugar para recriminações. Há,
sim, para afirmar ao Brasil inteiro a mensagem de um homem que não queria
morrer, mas continuar os seus ideais. Nós queremos, seguindo as tuas lições, um
entendimento, mas fique bem claro que os entendimentos têm que se fazer entre os
humildes, entre os trabalhadores, entre o povo e os homens capazes de assumir
responsabilidades, mas, jamais, com os traidores.
A traição não teve guarida no teu coração, não
pode ter no nosso. Assim, como detestamos a traição, perdoaremos os traidores.
Sigam o seu destino, perseguidos como Judas, pelo tempo dos tempos, recebendo o
castigo da reprovação pela torpeza que cometeram apesar do dever e dos
compromissos de honra assumidos. |