|
Os desvãos da dupla moralidade midiática
EMERSON LEAL*
Os professores da PUC do Rio Grande do Sul -
Pedrinho Guareschi e Osvaldo Biz - lembram, em seu livro Mídia & Democracia,
que “A mídia no Brasil não é o quarto poder. É o primeiro, o que controla e
subjuga os demais (...). A mídia, principalmente a eletrônica, constrói a
realidade, impõe os valores, monta a pauta de discussão nacional e subjetiva
as pessoas”.
O fato de a mídia impressa ser algo que se rege
pelos princípios de uma empresa privada, não a isenta de responsabilidade
social. Já a mídia eletrônica - rádio e televisão - é um serviço público. Ou
seja, é uma concessão temporária, “não pode ter ‘donos’ e tem como tarefa
essencial ser educativa, formar para a cidadania, sendo uma nova ágora, onde
devem ser discutidos os grandes problemas nacionais”.
Contudo, o que se observa no Brasil é que tanto
a mídia impressa como a eletrônica fogem, como o diabo da cruz, de toda e
qualquer discussão que tenha como pauta definir os parâmetros de um controle
social sobre elas. Mais que isso, demonizam quem tiver a petulância de
chamá-las à responsabilidade. Neste contexto, como avançar no aprofundamento
de conceitos como a democracia e a cidadania? Difícil!
Para se ter uma idéia do papel nefasto da mídia
hegemônica no País, é só analisarmos este triste episódio que escancarou os
bastidores do Congresso Nacional. Mas, para entendê-lo há que o fazer com
critérios políticos - não moralistas, como insiste aquela mídia justamente
para moldar a opinião pública, esconder a realidade e construir a
(‘realidade’) que lhe interessa, como diriam os autores de Mídia &
Democracia.
Pois bem, todos sabemos que o nosso Parlamento
sempre funcionou assim. É só lembrar que, durante o governo FHC, seu grande
aliado no Congresso Nacional não foi outro senão ACM - o popular Toninho
Malvadeza. O corpo-rativismo - ontem como hoje - sempre funcionou,
objetivando manter privilégios. Mas, quando ‘reinava’ o Príncipe da Sorbonne
que, comprovadamente comprou a sua reeleição, rasgando a Constituição, a
mídia não demonstrou tanto zelo assim na defesa da ética e da moralidade,
como faz hoje.
Por quê? Simples! Por que a questão em tela é
política, e a mídia defende seus interesses. E seu interesse, hoje, é
desalojar o PT do poder, é destruir a candidatura Dilma Roussef e trazer de
volta os tucanos para continuar com a tarefa ‘hercúlea’ de desmontar o
Estado brasileiro para ficar mais fácil entregá-lo aos interesses externos.
Que o diga a CPI da Petrobrás, de responsabilidade de tucanos e
‘democratas’: querem entregar o pré-sal para os EUA; e os factóides que, dia
e noite, eles criam no Congresso Nacional com o único objetivo de desgastar
o governo Lula. Mas a mídia jura que o que ela quer mesmo é ajudar a
moralizar o Congresso Nacional.
O Estadão, por exemplo, que sempre foi o maior
porta-voz das oligarquias no Brasil, ostenta manchetes que dizem que o
arquivamento das denúncias contra Sarney custará caro ao Parlamento ‘que
insiste em sustentar oligarquias em detrimento da opinião popular’. E
esculhamba com o presidente Lula por ele se preocupar em “preservar o
Sarney”. Ou seja, uma análise baseada puramente na lógica formal e em
critérios moralistas justamente para construir a ‘realidade’que lhe
interessa.
Se este jornalão quisesse realmente diagnosticar
o problema, teria de mostrar para seus leitores como se trava a luta
política dentro do Congresso Nacional; como funciona nossa democracia do
poder econômico; quem e como é eleito um representante para o Parlamento;
como se constrói a governabilidade (que é imposta por essa mesma democracia
- frágil e incipiente).
Trocando em miúdos: a imprensa faz todo este
escarcéu porque quer passar a presidência do Congresso para as mãos do
tucano Marconi Perilo, que responde por inúmeros processos em Goiás por
irregularidades em sua administração quando governador.
E a presidência do Congresso, passando para as
mãos dos tucanos, o que vai acontecer mesmo, como num passo de mágica, é que
a mídia vai parar de falar em moralização do Parlamento. É assim, a luta
pelo poder. Que ninguém se iluda.
*Doutor em Física Atômica e Molecular e vice-prefeito de São Carlos.
E-mail: depl@df.ufscar.br
|