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CPI: tarifas de energia lesam usuários em R$
39,9 bilhões
“É necessário que as medidas para corrigir o problema sejam tomadas com a máxima
brevidade e que os consumidores sejam efetivamente ressarcidos dos valores pagos
a maior”, afirmou o deputado Alexandre Santos em seu relatório
A Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) das Tarifas de Energia Elétrica
aprovou no final da noite de segunda-feira (30/11), em seu último dia de
trabalho, o relatório final do deputado Alexandre Santos (PMDB-RJ). Segundo o
parlamentar, os prejuízos ao consumidor com erro de cálculo e “perdas técnicas”,
entre 2002 e 2009, podem chegar a R$ 40 bilhões. “É necessário que as medidas
para corrigir o problema sejam tomadas com a máxima brevidade e,
fundamentalmente, que os consumidores sejam efetivamente ressarcidos dos valores
pagos a maior”, afirmou o deputado em seu relatório. “Estamos entregando cópias
do relatório ao Ministério Público e ao TCU, que têm nos ajudado muito. Eles
terão que tomar as medidas cabíveis em defesa do consumidor”, completou
Alexandre Santos.
O relator esclareceu que do total, R$ 7 bilhões são referentes ao erro de
cálculo em favorecimento às distribuidoras - cerca de R$ 1 bilhão ao ano desde
2002, segundo o Tribunal de Contas da União (TCU). Ele explicou no relatório que
a definição dos preços da energia é feita com base nos custos das distribuidoras
e no número de consumidores. Acontece que a tarifa é definida no início do
contrato e no período dos reajustes o cálculo não leva em conta o aumento no
número de usuários: “A distorção ocorre quando a demanda do mercado de energia
cresce. A metodologia das distribuidoras não consegue capturar ganhos obtidos em
função do crescimento do mercado”.
Além de ser esfolado por conta de erro metodológico, o consumidor paga ainda
cerca de R$ 4,7 bilhões anuais – R$ 32,9 bilhões desde 2002 – às distribuidoras
de energia elétrica a título de “perdas técnicas” e “perdas comerciais”,
repassadas às tarifas, segundo o TCU. De acordo com Santos, as “perdas técnicas”
ocorrem quando o consumidor deixa de pagar pelo serviço mensal. Então, o valor é
dividido pelo “sistema” (entre os demais usuários). Contudo, quando o cliente
que estava inadimplente paga sua dívida, o valor que foi pago pelo “sistema” não
é devolvido pelas distribuidoras.
A CPI registrou que as tarifas de energia elétrica no Brasil estão entre as mais
caras do mundo. De acordo com o relatório, enquanto o reajuste tarifário foi de
400% de 1997 a 2007, a inflação medida pelo Índice Geral de Preços - Mercado (IGP-M)
foi de 236%. A tarifa para os consumidores industriais só perde para as da
Itália e Irlanda. Já as tarifas para os consumidores residenciais ocupam a
décima colocação entre as mais caras.
Os membros da CPI avaliaram que os lucros das distribuidoras nos últimos anos
podem representar indícios de favorecimento a essas empresas pela Agência
Nacional de Energia Elétrica (Aneel). De acordo com o relatório aprovado, o
lucro líquido das concessionárias teve aumentos que podem atingir a 4.000% entre
2002 e 2008, como no caso da Companhia Energética de Pernambuco (Celpe). Na
média, o rendimento ficou em cerca de 30% nesses anos. O presidente da CPI,
deputado Eduardo da Fonte (PP-PE), frisou que alguns dos ex-dirigentes da Aneel
autorizaram reajustes da ordem de 30% nas tarifas de energia e depois foram
trabalhar nas empresas beneficiadas.
O deputado Alexandre Santos apontou em seu relatório que “existe uma relação, no
mínimo, promíscua, entre ex-dirigentes da Aneel e as empresas do mercado”. A
recomendação da CPI ao Ministério Público é a de sejam investigados todos os
ex-superintendentes e ex-diretores da agência que não cumpriram a quarentena de
um ano sem trabalhar no setor privado após deixarem os seus cargos. Eles devem
ser investigados também pelo crime de tráfico de influência.
“Há indícios claros de que a atuação da Aneel foi deliberada no sentido de
repassar todos os riscos do serviço de distribuição aos consumidores, aumentado
com isso a margem de lucro dos concessionários”, diz o relatório.
Na véspera da votação, o deputado Eduardo da Fonte afirmou que a Aneel foi
“capturada” pelas concessionárias e citou ex-dirigentes que saíram da Aneel -
José Maria Abdo, ex-diretor-geral, e Cláudio Girardi, ex-procurador - com
“emprego garantido” em empresas beneficiadas durante sua gestão na agência. Após
autorização de repasse de quase R$ 300 milhões à tarifa cobrada pela Celpe,
controlada pelo Grupo Neoenergia, Abdo e outros dois colegas montaram uma
consultoria que foi imediatamente contratada pelo referido grupo.
Por seu lado, Girardi deu parecer favorável à Coelba, distribuidora de energia
da Bahia, numa disputa comercial contra outras duas empresas. Depois virou
advogado da Coelba.
Santos sugeriu que o Ministério de Minas e Energia conclua, dentro de 30 dias,
qual será a política de governo para devolver o dinheiro cobrado a mais dos
consumidores. Além disso, o relator recomendou que a Aneel estabeleça, em 60
dias, o mecanismo de devolução que será utilizado. Santos propôs que o
ressarcimento seja feito com dinheiro ou com compensações nas próximas contas de
luz.
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