Em
vídeo, Arruda é flagrado pela PF recebendo dinheiro
Cotado para
ser vice de Serra, governador pedia remessas de 15 em 15 dias, revelou o
secretário que colaborou com a polícia
Governador favorito da “Veja”, amigo de Serra –
ventilado para seu vice – e ex-líder tucano no Senado, José Roberto Arruda,
do DF, disse há algumas semanas em entrevista ao órgão dos Civitas: “[o
meu] é o limite ético. É não dar mesada, não permitir corrupção endêmica,
institucionalizada. [entregar a um parlamentar] a empresa de energia
elétrica, isso não é aceitável. Quando me pedem algo assim, eu aproveito que
tenho cara de bobo e finjo que não entendo”.
Foi esse cidadão ético que apareceu, nos vídeos
entregues à Polícia Federal, recebendo dinheiro de um sequaz – que estava
colaborando com os policiais. E, depois de pegar o dinheiro, diz Arruda:
“ahnnn, ótimo! [pausa] eu tô achando que devia passar lá em casa, porque
descer com isso é ruim...”.
A operação Caixa de Pandora, da PF, trouxe a
público na sexta-feira, através de dezenas de vídeos, depoimentos e
documentos apreendidos, um esquema de corrupção dentro do governo de
Brasília, chefiado pelo próprio governador, que determinava pessoalmente a
distribuição do dinheiro. Os policiais apreenderam documentos e computadores
em gabinetes, casas de deputados e secretários do governo. Até a residência
oficial do governador foi revistada, com autorização do STJ.
Durval Barbosa, Secretário de Relações
Institucionais do DF, gravou os encontros em troca de redução da pena.
DESPESAS
Um dos repasses, de R$ 400 mil, recebido por
Durval, foi entregue ao chefe da Casa Civil do DF, José Geraldo Maciel, como
diz o inquérito: “A autoridade policial noticia haver o colaborador (Durval
Barbosa Rodrigues) repassado ao DPF [Departamento de Polícia Federal], para
fins de registro, a soma de R$ 400 mil, valor que a ele (Durval) retornará
para seguir destino apontado por Arruda: entrega a Maciel [José Geraldo,
chefe da Casa Civil do GDF], para pagamento da ‘base aliada’. Ou seja, o
dinheiro será dissipado em diversos pagamentos menores a pessoas ainda não
identificadas”.
Em seu depoimento, o secretário revelou que o
governador pedia dinheiro mais ou menos de quinze em quinze dias para
despesas pessoais. Em um dos repartes, diz o depoimento, R$ 178 mil foram
divididos entre o governador, o vice, Paulo Octávio, o assessor de imprensa,
Omézio Pontes, e o chefe da Casa Civil, José Geraldo Maciel, ficando 10% à
espera de decisão.
Nos vídeos, aparece o presidente da Câmara
Legislativa do DF, Leonardo Prudente (DEM), recebendo dinheiro. Depois de
encher os bolsos internos e externos do paletó, ele se senta para colocar o
resto dentro das meias. Em outra gravação, deputados fazem uma reza, após
receber o dinheiro, dando glórias ao Senhor. Em nota conjunta com o
vice-governador Paulo Octávio, Arruda afirmou que está “perplexo” diante de
“um ato de torpe vilania”.
No entanto, depois da divulgação do vídeo em que
recebe dinheiro de Durval, Arruda afirmou que era dinheiro para comprar
panetones para comunidades carentes. Até agora a PF identificou desvios de
R$ 56 milhões – e apreendeu R$ 700 mil. Haja panetone!
A investigação da Polícia Federal demonstrou que
esta última versão de Arruda era uma fraude. Há dez dias, Durval foi chamado
à residência oficial do governador, em Águas Claras, onde Arruda lhe pediu
para assinar recibos sem datas que justificariam os gastos com os panetones.
Na ocasião, Durval indagou: “E como eu vou explicar a origem do dinheiro?”.
Um dos assessores de Arruda apontou uma saída: “Diz que foi uma vaquinha
entre amigos”.
Essa reunião em Águas Claras foi monitorada pela
PF. “Durval assinou os recibos com uma caneta que facilita a
identificação da data em que ela foi usada”. De posse de uma das vias
dos recibos, Durval foi para a sede da Polícia Federal. Ali, entregou os
papéis para serem submetidos à perícia do Instituto Nacional de
Criminalística. A conclusão foi de que a assinatura era recente. “A tinta
ainda estava fresca”, disse um policial.
Durval entregou 30 vídeos à PF. Segundo ele,
Arruda ficava com 40% do dinheiro e o vice-governador, Paulo Octávio, com
30%. O restante era dividido entre secretários, assessores e deputados
distritais. Os vídeos também mostram deputados distritais e aliados do
governador recebendo dinheiro e guardando maços de notas em bolsas, bolsos,
dentro das calças e das meias.
Em depoimento sobre o vídeo em que Arruda recebe
dinheiro, Durval relatou que o governador “pediu dinheiro para saldar
despesas pessoais naquela semana [o depoimento foi em 16 de setembro] e que
por isso precisava de um adiantamento de R$ 50 mil”, pedindo a ele,
Durval, que “reservasse uma quantia mensal para suas despesas pessoais”.
No inquérito, há outra menção a esse vídeo: “[Era] para as despesas dele
e da família, e nessa ocasião Arruda e o declarante conversaram sobre
diversos assuntos políticos, financeiros e de campanha eleitoral...”.
Os vídeos entregues à PF foram periciados e
anexados ao inquérito. Nas gravações, aparecem também recebendo dinheiro os
deputados distritais Júnior Brunelli (PSC) e Eurides Brito (PMDB), o
ex-administrador regional José Naves, o presidente do Na Hora (programa de
atendimento rápido para emissão de documentos), Luiz França, e Paulo
Pestana, diretor da agência de comunicação do governo.
O secretário de Saúde do DF, Augusto Carvalho,
tem o seu nome citado em conversa gravada pela PF. De acordo com transcrição
do diálogo entre Barbosa e José Geraldo Maciel, Carvalho recebia
“retribuição de contratos”.
Depondo ao Ministério Público, Durval revelou
que o presidente do PSDB-DF, Márcio Machado, candidato ao Senado na chapa de
Arruda, também recebia e repassava propina - especificou três pagamentos
feitos pelo presidente do PSDB: R$ 6 milhões ao deputado Benedito Domingos (PP);
R$ 200 mil para Adalberto Monteiro, presidente do PRP-DF; e R$ 100 mil para
Omar Nascimento, presidente regional do PTC.
CRIME
O presidente nacional da Ordem dos Advogados do
Brasil (OAB), Cezar Britto, e a presidente da seccional do DF da Ordem,
Estefânia Viveiros, defenderam a abertura de um processo de impeachment.
Segundo a Procuradoria, há crimes de formação de quadrilha, peculato,
corrupção ativa, corrupção passiva, fraude à licitação, crime eleitoral e
crime tributário.
Flagrado ao violar o painel de votação do Senado
em 2001, quando era do PSDB, Arruda fez um discurso inflamado, jurando pelos
filhos que era inocente. Evidenciada sua culpa, para escapar da cassação,
renunciou. Na entrevista à “Veja”, disse que “quando você está ali, no
Senado, você pensa que é Deus. No momento em que percebi que seria mais um
que erra e não assume, preferi outro caminho. Eu reconheci o erro, paguei um
preço muito alto por isso, que foi minha saída do Senado, e recomecei do
zero. E graças a esse reconhecimento consegui dar a volta por cima”.
SÉRGIO CRUZ