|
Um obituário atrasado
Claude Lévi-Strauss viveu o suficiente para ver a corrente que
patrocinou - e fundamentou - sair de moda quase da mesma forma que
entrou: pela mão da mídia e de acadêmicos que, depois do XX Congresso do
PCUS, em 1956, fizeram de sua própria confusão uma virtude intelectual.
É forçoso observar que seus escritos eram mais interessantes que aqueles
de seus discípulos, os denominados “estruturalistas” - onde o manejo de
palavras como “significante”, “signo”, “semiótica”, “signo”, “sintagma”,
e algumas outras, substituíam qualquer análise de qualquer problema,
fundindo a pobreza de pensamento, frequentemente beirando o absoluto,
com um inabalável pedantismo.
Ao ler, por exemplo, a coletânea “As Estruturas Narrativas”, de um dos
expoentes da corrente, o franco-búlgaro Tveztan Todorov, descobrimos que
é meramente cosmética a diferença na análise de obras literárias tão
diferentes quanto a “Odisseia”, de Homero; o “Manuscrito Encontrado em
Saragoça”, de Potocki; o “Decameron”, de Bocaccio; “As Mil e Uma
Noites”; “A Demanda do Santo Graal”; “O Diabo Apaixonado”, de Cazotte -
e até best-sellers como “No Orchids for Miss Blandish”, de James Hadley
Chase, “The Canary Murder Case”, de S. S. Van Dine e “Murder on the
Orient Express”, de Agatha Christie. O “toque de profundidade” na
análise era dado por frases como “A Literatura é, e não pode ser outra
coisa, senão uma espécie de extensão e de aplicação de certas
propriedades da Linguagem” (uma citação de Valery, que, enquanto
pensador, como demonstram os seus “Cahiers”, não era nada brilhante) ou
“O romance policial por excelência não é aquele que transgride as regras
do gênero, mas o que a elas se adapta”, da lavra do próprio Todorov.
Lévi-Strauss não era tão indigente assim, mas, ao extrapolar para fora
da linguística as concepções do suíço Ferdinand de Saussure, foi
diretamente responsável pela fabricação de uma série de mediocridades -
a maior parte delas, reacionaríssima.
Ele, certamente, jamais compreendeu a que política o “estruturalismo”
servia - e é provável que isso fosse justamente o que não queria saber.
Entretanto, tomemos “O Pensamento Selvagem”, um de seus melhores livros,
publicado no início da década de 60. Há nele várias observações
interessantes. Porém, o autor transforma num pressuposto, num “a
priori”, aquilo que deveria provar: que o pensamento - e, inclusive, a
“ciência” (o uso da palavra não é uma figura de linguagem) - dos
agrupamentos humanos que ainda estão em selvageria, está em pé de
igualdade com o pensamento – e com a ciência - dos agrupamentos humanos
que já saíram desse estágio primitivo, isto é, nós. Argumentando também
pelo outro lado, ele chega à conclusão de que nosso pensamento atual não
é fundamentalmente diferente do pensamento dos homens em estado
selvagem. Por consequência, supõe-se, não existiriam estágios mais
avançados e mais atrasados (“superiores” e “inferiores”) de civilização
ou de cultura. Partindo de onde deveria, supostamente, chegar,
Lévi-Strauss chega, exatamente, aonde partiu, sem que para isso tenha
saído do mesmo lugar. E não poderia ser de outro jeito, pois esse ponto
de partida é apenas um preconceito.
Evidentemente, no homem que já superou a selvageria há muito, ainda, de
seu estágio selvagem - e o processo cultural (tanto quanto o econômico e
o político) do ser humano ainda não alcançou o patamar que corresponda
plenamente à sua humanidade. Mas isso jamais pode conduzir à negação da
história, que é evidente na concepção que resumimos (apesar de
Lévi-Strauss jamais ter assumido explicitamente essa negação).
Não é por acaso, portanto, que jornais reacionários dedicaram tantas
páginas ao falecimento de Lévi-Strauss - que morou no Brasil entre 1935
e 1938, quando a oligarquia, derrotada em 30, organizava uma
universidade em oposição ao sistema universitário federal, que o
presidente Getúlio Vargas começava a construir.
Alguns discípulos de Lévi-Strauss postularam que sua doutrina era um
novo humanismo porque, nela, o homem não era mais sujeito. Estranha
concepção humanística, mas a segunda parte é verdadeira: o
“estruturalismo” não admite sujeito, seja individual ou coletivo. Tudo,
na vida do homem, é descrito em termos de elementos que jamais variam.
Apenas a articulação entre esses elementos é que varia - e a essa
articulação é dado o nome de “estrutura”. Significativamente, nem os
“estruturalistas” chamam de história a essa variação do que não varia
(preferem chamá-la “eixo diacrônico”, enquanto uma dada “estrutura”
corresponde ao “eixo sincrônico”).
Na década de 60, o “estruturalismo” tinha uma influência quase
esmagadora no meio acadêmico e nos cadernos culturais. Os marxistas
haviam sido golpeados por Kruschev - e, no Brasil, eram tempos de
ditadura. Assim, o “estruturalismo” ocupou o espaço vazio proporcionado
pela reação. Houve até alguns contrabandos, entre alguns que
permaneceram se dizendo marxistas: em 1976, na sua Conferência de
Granada, Louis Althusser repetiu de forma clara o que os
“estruturalistas” sempre afirmaram de forma obscura: “[a prática]
é um processo sem sujeito nem fim” (cf. Althusser, “A
Transformação da Filosofia”, trad. João Araújo, Ed. Mandacaru, 1989,
pág. 26).
Porém, os tempos mudaram, a reação, sobretudo nos EUA, degenerou ainda
mais, e foi necessário recrutar porta-vozes que dispensassem tanto glacê
escolástico. Nesse momento, saíram de cena os pupilos de Lévi-Strauss e
entraram os brucutus neoliberais e “neoconservadores” - agora, por sua
vez, com a crise, varridos progressivamente para debaixo do tapete.
C.L. |