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Moratória de US$ 59 bi
da Dubai World gera
novo abalo em cadeia
“Debacle da dívida em
Dubai jogou os títulos num turbilhão”, admitiu David Buik da BGC Partners.
Inadimplência na vitrine do turismo de luxo põe em cheque apregoadores do
“fim da crise” sem a retomada da produção
A
Durante anos considerada a “jóia da coroa” do emirado de Dubai, e alavanca
para o projeto de tornar o pequeno enclave em um paraíso da especulação no
Oriente Médio, o conglomerado Dubai World declarou moratória de sua dívida
de US$ 59 bilhões por seis meses, abalando bolsas de valores européias e
bancos, e dando um frio na espinha dos otimistas que já andavam garantindo
que “a crise acabou”.
Através da Dubai World - não confundir com Disney World - o emirado ergueu
alguns dos mais mirabolantes projetos imobiliários do planeta, arranha-céus,
ilhas artificiais em forma de palmeira, shoppings com aqúarios gigantes com
tubarões, e todo tipo de excentricidade para novos-magnatas.
LONDRES
Para evitar que algum sobrinho de sheik pulasse do heliporto de algum dos
fabulosos arranha-céus, o emir declarou a moratória na véspera do feriado de
quatro dias que encerra a peregrinação a Meca, o Eid Al Adha. Entre os
principais credores da Dubai World, estão o Barclays, BNP Paribas, Deutsche
Bank, HSBC, Citibank, Goldman Sachs e Mitsu-bishi Financial. Nos EUA, o
abalo foi amortecido por que o anúncio caiu durante a comemoração do Dia de
Ação de Graças. A Bolsa de Londres não teve tanto sorte: queda de 4% no dia
26. As ações do Barclays, BNP Paribas e Deutsche Bank caíram de 3.7% a 5.3%.
Não por acaso, os especialistas em miragens, no governo de Dubai, fizeram o
anúncio da moratória apenas algumas horas depois de anunciarem mais um
futuro tombo na praça: o Al Hilal Bank e o National Bank of Abu Dabi
captaram US$ 5 bilhões com emissão de títulos prestes a micar.
Como efeito colateral, a fabricante de carros de luxo Porsche sofreu queda
em seus papéis de 7%, pois uma holding do emirado vizinho, o Qatar, detém
10% das suas ações. As ações da Daimler, por sua vez, caíram 4,7% uma vez
que outra financeira, desta vez de Abu Dabi, outro dos sete emirados que
constituem os Emi-rados Árabes Unidos, detém 9,1% do seu controle. E os
abalos seguem se propagando. No dia 1º de dezembro, quando a Bolsa do Qatar
reabriu, após o Eid Al Adha, o principal índice ciu 6,4%. A de Abu Dabi,
outro emirado vizinho, despencou 8,3% e a da própria Dubai desabou 7,3%.
“Certamente a debacle da dívida de Dubai e a incerteza que criou teve um
efeito severo nos mercados de capitais e jogaram os títulos em um
turbilhão”, filosofou David Buik, da BGC Partners, espelunca especializada
em derivativos. Um relatório publicado na sexta-feira pelo Banco de
Investimentos Credit Suisse estima que os bancos europeus seriam os mais
prejudicados no caso de que Dubai não pagasse suas dívidas, com uma
exposição avaliada em US$19,6 bilhões. No entanto as avaliações chegam a
apontar para uma exposição de até US$40 bilhões, segundo a BBC.
PARAÍSO
As dezenas de ilhas artificiais, complexos de hotéis e lojas, prédios
espelhados ou de aço escovado, exibidos pela mídia como o novo suprasumo da
indústria do turismo – a exemplo da quadra de tênis mais alta do mundo,
plantada a 210 metros de atitude -, a badalação da mídia, serviam para
passar a idéia de um paraíso da modernidade, ostentação e luxo, capaz de
assegurar ganhos extraordinários aos especuladores, enquanto o sheik
Mohammed bin Rashid Al Maktoum, pretendia tornar Dubai em um centro da
finança internacional. A Dubai World também andou investindo em cassinos em
Las Vegas (neste caso acumulou bilhões em perdas numa parceria com a empresa
de significativo nome MGM Mirage), lojas de departamento em Nova Iorque, e
outras jogadas que deram com os burros n’água, ou melhor, com os camelos na
areia.
Para completar, em poucos lugares do mundo havia se formado uma bolha
imobiliária do porte da de Dubai. Quando estourou a bolha dos derivativos
com base nas hipotecas nos EUA, os mastodontes prediais de Dubai foram à
lona, chegando a ser cotados pela metade do que valiam um ano antes. O que
arrastou os títulos que se sustentavam em torno dos valores inflados
anteriores à crise. Cada vez ficou mais difícil encontrar compradores para
os espigões metidos a modernos, acelerando a queda de preços. Desde setembro
que o fantasma da quebradeira de Dubai andando fazendo aparições nas
revistas especializadas, mas, finalmente no dia 25, alegando não ter como
pagar uma dívida de cerca de US$ 3,5 bilhões no começo de dezembro, o
emirado anunciou que passaria a uma ação “pró-ativa”, isto é, a moratória.
SUSANA SANTOS |