|
Honduras: simulacro de eleição foi só
abstenção recorde e repressão
Resistência ao
Golpe apurou que o arremedo de eleição contou apenas com 35% dos eleitores.
Tropas da ditadura espancaram repórter da Reuters, prenderam mais de 30
cidadãos, inclusive dois observadores, e um hondurenho foi assassinado
O arremedo de
eleição em Honduras do último domingo foi marcado por uma abstenção recorde na
capital Tegucigalpa e no país inteiro; mais de 30 prisões na segunda maior
cidade do país, San Pedro Sula, inclusive a de dois observadores; muitos
manifestantes espancados e até mesmo um jornalista da Reuters; uma emissora de
TV fechada; sindicatos e universidades sob mira de fuzis; e pelo menos um morto.
Como assinalou o presidente legítimo Manuel Zelaya, a eleição não resolveu nada,
só acrescentou mais um problema, o da fraude eleitoral. Durante a Cúpula Ibero-
americana realizada no final de semana no Estoril, em Portugal, o presidente
brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva reafirmou que não havia porque “repensar”
sobre Honduras: “trata-se de firmar posição contra um processo eleitoral
coordenado por golpistas” – o que serve de “alerta a outros aventureiros”. Dias
antes, o chanceler Celso Amorim havia dito que reconhecer eleições sob golpe era
admitir a “tese do golpe preventivo”. Na segunda-feira, uma carreata comemorou
na capital o atendimento do povo à convocação da Frente de Resistência ao Golpe
para um “toque de recolher cívico” na hora da farsa eleitoral.
AUSÊNCIA DE
65%
A Frente
anunciou que a abstenção chegou a 65% dos votantes, a maior da história
hondurenha, ou seja, o comparecimento foi de apenas 35%, baseando-se nos relatos
vindos do país inteiro. Também comunicou que não iria reconhecer o governo
manufaturado por essa via, e que a luta por Zelaya e pela convocação de uma
Assembléia Constituinte continuava. O presidente legítimo confirmou, com base em
atas de mais de 2 mil postos de votação, que lhe foram passados, que a ausência
de eleitores fora de 65%. No entanto, após mutismo de quatro horas, o tribunal
eleitoral dos golpistas inverteu tudo, declarou um comparecimento de 65% - 10%
maior do que na eleição de Zelaya – e até mesmo “a falta de tinta marcadora de
dedo” por causa da “afluência em peso dos eleitores”.
Curiosamente,
a TV Globo, e o site da casa, o G1, através do enviado José Roberto Burnier,
descreveram outra coisa no domingo. “Burnier visitou locais importantes de
votação, e conta que o movimento estava pequeno na primeira parte do dia,
aumentando um pouco à tarde. Em um dos redutos de Zelaya, na periferia de
Tegucigalpa, algumas pessoas foram aos locais de votação para dizer que não
iriam votar. Mesmo no reduto de Michelleti o movimento era pequeno”. No
“Fantástico”, manifestantes, em bairros populares, fizeram questão de gesticular
com um “não”, à pergunta de se haviam votado. Relatava ainda o G1: “enviado da
TV Globo conta que o movimento é fraco nas urnas”. Uma hora e meia antes de as
urnas fecharem – a votação acabou sendo esticada por mais uma hora -, informava
Burnier que “o grande temor que se têm no governo interino de Roberto Michelleti
é que o índice de abstenção seja alto”.
Mas nem mesmo
um comparecimento menos desastroso dos eleitores, sob coação da ditadura, como
faziam o Stroessner ou o Salazar, mudaria o fato de que se tratava de uma
eleição “com vício de origem” – debaixo de golpe, seqüestro do presidente e sua
expulsão do país, ainda de pijama. De um jeito ou outro, uma fraude. Mas a
grande maioria da América Latina, assim como o Brasil, não reconhece o regime
golpista, nem seu rebento, a “eleição de domingo, 29” - como Argentina, Uruguai,
Chile, Bolívia, Equador, Venezuela, Nicarágua, El Salvador. A União Européia
recusou enviar observadores à eleição. A ONU retirou o apoio; sequer o Centro
Carter (do ex-presidente dos EUA) aceitou enviar observadores. A maioria dos que
foram era do “Instituto Republicano Internacional”, presidido por John McCain,
de ongs financiadas pela Usaid e por várias fachadas da CIA, e de ex-presidentes
neoliberais escorraçados de seus países. Também teve aquele deputado
pernambucano, que já estivera lá degustando uns canapés com Michelleti, que
ouviu de mesários que o comparecimento estava sendo forte.
Já o governo
dos EUA passou a assumir abertamente a sustentação dos golpistas, com o cínico
pretexto de que a fraude eleitoral iria abrir caminho para a restauração da
democracia, sem que fosse preciso devolver o poder ao presidente legítimo. O
“mediador” indicado pelos EUA, o presidente da Costa Rica Oscar Árias, também
saiu em defesa da tese de Washington. Chegou ao extremo de dizer que o fato de o
Brasil reconhecer o resultado da eleição no Irã, e não reconhecer a eleição em
Honduras era um “duplo padrão”. Teve de ouvir que o governo que promoveu a
eleição no Irã era reconhecido internacionalmente, e que o que assaltou o poder
em Honduras não era reconhecido por país nenhum. Panamá, Colômbia e Israel já
disseram que “vão reconhecer”. No final do domingo, o candidato do Partido
Nacional, Porfírio “Pepe” Lobo se declarou vencedor, e o preferido de Michelleti
– e, dizem, da Embaixada dos EUA -, Elvin Santos, concedeu a derrota.
ANTONIO PIMENTA
|