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Nos
limites de Obama
GILSON CARONI FILHO*
No início de 2009,
quando Barack Obama assumiu a Casa Branca, vários analistas afirmavam que
estávamos começando um novo período histórico, que marcava o fim do
unilateralismo do governo anterior, dando ensejo à efetivação de um sistema
global multipolar. Os argumentos eram muito convincentes. O mais poderoso
Império de todos os tempos deixava para trás a doutrina Bush, abandonando a
roupagem absolutista usada para negar os mais antigos direitos fundamentais do
homem: os direitos civis e políticos consagrados pelo Direito Internacional.
Na América Latina,
Bolívia, Venezuela, Equador, Chile, Brasil e Uruguai, entre outros, deixaram de
ser portos seguros para os desígnios do capital estadunidense, graças ao avanço
das forças progressistas na região. Redefinia-se um velho roteiro onde a direção
do impulso político no continente parava de ser orientada no sentido de
consolidação dos regimes que colaboravam com as grandes corporações, dando lugar
a governos que privilegiam os interesses de seus povos, redefinindo prioridades
na elaboração de suas políticas externas.
No primeiro discurso
após as eleições, Obama resumia o significado simbólico de sua chegada à
presidência: “se pessoas ainda têm dúvidas de que a América é o lugar onde as
coisas são possíveis, que ainda acreditam que os sonhos dos nossos fundadores
ainda estão vivos, se ainda questionam o poder da nossa democracia, esta noite é
a sua resposta.”
Os recentes
posicionamentos do governo norte-americano em Honduras, apoiando eleições que
legitimam o golpe, sob o pretexto de que “a maneira como a eleição será
conduzida vai inevitavelmente afetar condições para superar divisões políticas
do país”, demonstram que juízos históricos sobre inflexões desejadas têm-se
baseado em análises conjunturais que subestimam a força dinâmica interna da
direita estadunidense e sua capacidade para recuperar e reestabelecer a agenda
hegemônica imperial.
Há uma questão
central que não pode ser relegada a segundo plano. Na ausência de qualquer forma
de desafio organizado das classes trabalhadoras no interior dos Estados Unidos,
a margem de manobra dos segmentos dominantes do imperialismo para recuperar-se
de crises econômicas sem pagar nenhum dos custos políticos e sociais que todos
os seus competidores têm que enfrentar é uma vantagem comparativa colossal.
Além disso, como nos
lembra James Petras, o Império, devido ao seu alcance no exterior, continua numa
posição que lhe permite aproveitar os principais benefícios de outros países,
“através de seus contatos políticos-militares, mantendo assim, sua vantagem
sobre a Europa e Ásia em escala crescente”. É preciso uma leitura muito
apressada para falar em crise de hegemonia.
O recuo quanto ao
prazo de fechamento da prisão militar na Baía de Guantánamo, a instalação de
bases militares na Colômbia, a escalada bélica, com aumento de 10 a 15 mil
soldados para “terminar o trabalho” no Afeganistão, os discursos ambíguos sobre
o Iraque, além da falta de propostas concretas para a Conferência do Clima, em
Copenhague, não ferem apenas esperanças e ilusões. Soam como um sinal que não
pode ser desconsiderado por quem deseja uma nova ordem internacional.
Não serão discursos
protocolares, repletos de petições bem- intencionadas, que deterão o que os
Estados Unidos julgam ser sua “missão civilizadora”. Em uma América Latina que
grita e se revolta, a vitória golpista em Honduras se apresenta como uma
oportunidade histórica para a esquerda não sectária. Atualizando conceitos e
categorias, é hora de elaborar um programa que se apresente como inconfundível
estratégia contra-hegemônica.
Obama jamais
desconsiderou a correlação de forças internas que limitam as possibilidades de
uma reversão da política externa norte-americana. No mesmo discurso inaugural, o
presidente foi bem enfático ao afirmar que “estamos preparados para liderar
novamente”. Interpretar essa afirmação como lapso ou arroubo de um líder
inexperiente é perigoso demais para quem não quer que se confirme o velho axioma
segundo o qual a América Latina roda e roda sem sair do lugar. É preciso muita
atenção ao que dizem “os eleitos do mundo”. Uma coisa é certa: o humor, por
excessivo mau gosto, deve ser descartado de saída.
*É professor de Sociologia das Faculdades Integradas Hélio Alonso (Facha), no
Rio de Janeiro, colunista da Carta Maior e colaborador da Hora do Povo
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