|
O nebuloso “plano de banda larga” do ministro Hélio Costa
O engenheiro eletrônico Virgilio Freire, especialista em telecomunicações,
afirma que o “Plano Alternativo” do Sr. Helio Costa & Telefónica & Oi & Embratel
& Claro &TIM está baseado em duas premissas: o máximo de lucros para as
operadoras e os investimentos e as despesas para o governo, com o comando do
Plano pelas teles
VIRGILIO FREIRE *
O Ministério das Comunicações apresentou com grande pompa e circunstância seu
“Plano Nacional de Banda Larga”, um calhamaço de 200 páginas, distribuído a
todos os jornais, revistas, TVs, rádios, etc. A partir do final de outubro deste
ano, Hélio Costa, obedecendo às “recomendações” das Operadoras, abandonou a
Comissão do Plano Nacional de Banda Larga e resolveu apresentar corajosamente ao
Presidente Lula um “Plano Alternativo” elaborado pelas Operadoras Telefônicas,
evidentemente baseado em duas premissas: o máximo de lucro para as operadoras e
o mínimo de investimentos por parte das mesmas, deixando para o Governo as
despesas e investimentos e ficando as Operadoras com o comando do Plano.
Estas Grandes Operadoras são a Telefónica, Oi, Embratel, Claro e TIM, e o
documento contou ainda com a ajuda do sonolento CPQD – Centro de Pesquisas e
Desenvolvimento – que era da Telebrás, e atualmente é uma Fundação (não tem
patrão, e consequentemente não tem objetivos, nem produz nada de útil).
O Ministro levantou-se durante a reunião do Comitê Gestor do Plano Nacional de
Banda Larga e declarou que o Ministério se retirava da reunião, em protesto por
discordar da proposta de utilizar uma empresa estatal. Segundo ele, as atuais
operadoras Telefónica e Oi é que devem prestar os serviços de Banda Larga.
Além de se retirar da reunião, convocou a Oi, a Telefónica, e a Embratel, a
elaborar um plano alternativo a ser apresentado ao Presidente Lula.
(Imagine um Plano Nacional de Banda Larga prestado pela Telefónica, Oi, TIM,
Claro, Embratel, com os péssimos níveis de qualidade de serviço adotados
atualmente...)
Documento não diz qual a velocidade
de banda larga que pretende oferecer
O documento, amplamente divulgado pelo Ministério das Comunicações, ao longo de
quase 200 páginas, não diz uma vez sequer a velocidade de Banda Larga que
pretende oferecer aos cidadãos brasileiros. Nem uma única vez.
Em vez disso, propõe duas pérolas, citadas abaixo:
Na página 36, item 2.3, o Minicom propõe que
Acesso Banda Larga: Um acesso com escoamento de tráfego tal que permita
aos consumidores finais, individuais e corporativos, fixos ou móveis,
usufruírem, com qualidade, de uma cesta de serviços e aplicações baseada em voz,
dados e vídeo.
Entendeu? Eu não. Não diz nada. “Usufruírem com qualidade” – o que é isso?
Em Banda Larga, a velocidade proposta e fornecida é parte importante da
Qualidade, bem como a Confiabilidade, ou seja, o percentual do tempo em que a
rede funciona.
A definição acima equivale a dizer: Uma auto-estrada é uma série de pistas
por onde trafegam os veículos – quantas pistas? A que velocidade? Sem respostas
a essas perguntas, alguém consegue dizer se a estrada será boa ou má, lenta ou
rápida?
E o pior é que na página 17, do Sumário Executivo, propõe “Aumentar em dez
vezes a velocidade mínima de oferta dos serviços de acesso à banda larga até
2014”.
Mas qual é a “velocidade mínima de oferta dos serviços de acesso à banda
larga”, cara-pálida?
A Telefónica tem uma, a Oi tem outra, as operadoras de celulares 3G têm outra,
etc. Então este parágrafo é uma ficção. Não existe este animal, “velocidade
mínima de oferta dos serviços de acesso à banda larga”. Cada empresa tem
uma. O parágrafo está ali para inglês ver e para enganar os trouxas.
No item 4, pg. 111, o documento volta a insistir:
“Pelos motivos expostos na seção 3.1.2, as metas estabelecidas neste PNBL se
baseiam no diagnóstico das restrições que se impõem ao avanço da infra estrutura
de banda larga.
“Uma meta caráter geral é a de, até 2014, aumentar em dez vezes a velocidade
mínima dos serviços de acesso banda larga fixa. Com base na atual distribuição
de velocidades de acesso, anteriormente apresentada nas Figuras 21 e 22, a meta
é de que tais velocidades sejam dez vezes maiores, até o ano de 2014. Essa meta
permitirá ao Brasil trazer a qualidade da oferta de serviço banda larga fixa a
uma velocidade compatível com a demanda das aplicações...”.
O mesmo mantra é repetido na página 156. Qual a velocidade mínima?
“Investimentos” com dinheiro público
Veja no quadro
abaixo como varia de país a país a velocidade proposta atualmente para os Planos
Nacionais de Banda Larga – todos os países que se propõe a implantar um Plano
deste calibre definem bem claramente a velocidade que fornecerão a seus
cidadãos, e o percentual de domicílios atendidos – somente assim se consegue
calcular o custo, estimar as necessidades de Mão de obra, organizar o projeto,
etc.

Observe que as
velocidades variam muito, em função dos recursos que os governos se dispõem a
destinar ao setor, desde a Finlândia, que vai oferecer 1 MB a todos seus
cidadãos até 2010, evoluindo até 100 MBps até 2016 (lembre que o Speedy hoje
oferece menos de 10% disto, ou seja, no máximo 8 MBps).
A Austrália,
considerada o melhor e mais realista plano de banda larga no mundo atual, irá
levar 100 MBps por fibra ótica a 90% dos domicílios, escolas e empresas até
2017. Os restantes 10% serão atendidos via rádio, já que o país é vasto e seria
caríssimo levar fibra até 100% dos domicilio, como no Brasil.
E, no entanto,
no capítulo 7 o documento calcula os investimentos necessários!
Qual a química que permite calcular investimentos em Banda Larga sem saber a
velocidade que vai ser oferecida?
É o mesmo,
desculpem insistir, que calcular o preço de uma estrada sem saber se vai ter
duas, três ou quatro pistas. Qualquer pessoa com dois neurônios sabe que é
essencial saber o tamanho do projeto para calcular o custo.
Na página 165
os brilhantes autores do “Plano” calculam que as Empresas Privadas iriam
investir R$ 2,8 Bilhões por ano, até 2014, num total de 14 Bilhões de Reais.
E, no entanto
na página 166 dizem que vão investir 49 Bilhões – adivinhe de onde vem
o dinheiro para chegar aos 49 Bilhões... acertou! Do BNDES, ou seja, não é
dinheiro privado, é do Governo.
No total de 74
Bilhões, a iniciativa privada se propõe a investir apenas 14 Bilhões.
Ainda assim sob algumas condições, da qual a mais estapafúrdia seria obrigar
todas as empreiteiras e contratadas do Governo a lançar fibras óticas em TODAS
AS NOVAS ESTRADAS DO BRASIL.
Plano para inglês ver e as teles
lucrarem
Na pagina 25,
há um parágrafo hilário, que diz que “O papel do setor privado como
investidor e a atuação do Estado de forma complementar estão em linha com as
políticas públicas de diversos outros países”.
Na Austrália,
na França, na maioria dos países é o Governo Federal que está investindo pesado,
e conseqüentemente assumindo o comando do Plano – já que quem põe o dinheiro é
que tem o direito de fiscalizar e gerenciar.
E no plano
apresentado por Helio Costa de forma alguma “O papel do setor privado como
investidor e a atuação do Estado de forma complementar” ocorrem – como dito
anteriormente, o Estado entra com 81% dos investimentos, as empresas privadas
com 19% e estas propõe na página 169 que a gestão do Plano seja feita em
conjunto pelo governo e pelas teles - que entram com apenas 19% do dinheiro...
Na página 38
do documento os próprios autores reconhecem a incompetência - ou inapetência –
em atender a demanda de banda larga no Brasil. Veja a linha vermelha, que mostra
a taxa de crescimento dos acessos de banda larga, caindo vertiginosamente ano a
ano.
E, no entanto
estas mesmas empresas querem liderar um Plano Nacional de Banda Larga?

Não são
capazes de atender o mercado atual, aos preços proibitivos atuais, como farão
para instalar, operar e atender mais 90 milhões de acessos? Isto é dez vezes o
mercado atual, e prometem instalar, operar e manter tudo isso até 2014? Em cinco
anos? Só a ANATEL, e o Ministro Helio Costa acreditam nisto – lembre que para
implantar 9 milhões de acessos as Operadoras Privadas levaram 5 anos.
Nessa marcha,
para implantar 90 milhões, vão levar 50 anos... e usando dinheiro do BNDES.
Imagine o número de profissionais treinados, a quantidade de equipamentos
necessários, os veículos, os instrumentos de teste, os instaladores, etc. Só um
esforço brutal e coordenado pelo Governo Federal conseguirá juntar os esforços
para chegar a este objetivo – como já provamos no desenvolvimento dos veículos
flex e na exploração do pré-sal.
Destes 90
milhões de novos acessos, nada menos do que 53 milhões serão através das
operadoras celulares. Como o prazo é de cinco anos, elas terão de implantar
10 milhões de acessos banda larga por ano. Até hoje implantaram a módica
quantidade de 7 milhões, em cinco anos.
Não têm
pessoal, instrumentos, equipamento, técnicos, para tamanho desafio. Com um
agravante – as velocidades obtidas via radio ficam em torno de 3 MBps, bem
abaixo do padrão que está se impondo no mundo, de pelo menos 10 MBps – e quanto
mais longe da antena, menor a velocidade – isto o estudo não diz.
Portanto,
mesmo que fosse possível implantar estes 53 milhões de acessos via radio, a
maioria dos clientes ficará frustrada por receber uma velocidade pouco superior
à da Internet discada. Será uma “Banda larga Para Inglês Ver” – e para as Teles
lucrarem, e a ANATEL fingir que não vê...
Note que estes
acessos irão cobrir os 5.565 municípios brasileiros, 56 mil escolas públicas,
ate 2010!
Você acredita
que isto é possível? Entregue às atuais operadoras? Ou precisamos repensar a “teoria
do Estado Mínimo” dos tucanos de FHC? Que copiaram suas idéias de Ronald
Reagan e Margareth Thatcher, governantes de dois países falidos.
A Grã Bretanha
seguiu os preceitos do liberalismo econômico de Adam Smith, e hoje não tem uma
só fábrica de veículos, nenhuma de aviões, não tem indústria naval, e está
falida. A França, que sabe dosar adequadamente a intervenção estatal, fabrica
submarinos atômicos, caças a jato, os trens mais rápidos do mundo, e de quebra o
Estado Francês mantém os mais incríveis museus conhecidos.
No lugar da Telebrás, Minicom propõe
que seja montada empresa privada controlada pelas teles
O Plano do
Minicom reconhece a necessidade de uma forte indústria que forneça os
equipamentos, fibras, torres, antenas, para este esforço – e mais uma vez
propõe que seja montada uma empresa privada gigante para assumir a tarefa –
na certa controlada pela Andrade Gutierrez, Grupo Jereissati, Telefónica, etc.
E, no entanto,
o modelo de uma indústria que funcione como subsidiária de uma Operadora
Nacional funcionou durante um século nos Estados Unidos, onde a Western Electric,
posteriormente Lucent, era subsidiária da AT&T, que chegou a ser a maior empresa
do mundo, com um milhão de empregados e cem milhões de telefones.
A indústria
que vai suprir o nosso Plano Nacional de Banda Larga só vai conseguir funcionar
de forma eficiente e livre de interferências dos interesses empresariais
sobrepondo-se aos interesses nacionais se for constituída como subsidiaria da
Telebrás.
Da mesma
forma, o atual CPQD, que já foi o Centro de Pesquisas e Desenvolvimento da
Telebrás, deveria voltar a ser da Telebrás, a fim de ter um rumo, que hoje não
tem, por ser uma Fundação. Ficaria comprometido com os objetivos e políticas da
Telebrás e dos interesses brasileiros.
Alem de todos
os incentivos, empréstimos, redução de impostos, proteções, etc., o brilhante
documento do Minicom propõe que o Estado atue de forma autoritária em beneficio
das empresas monopolistas de Telecom “a fim de assegurar a inclusão de dutos
e fibras óticas como itens obrigatórios nas obras públicas de infra-estrutura,
incluindo as de transportes, habitação, saneamento e energia, dentre outras, em
muito contribuiria para a criação de um ambiente de compartilhamento”.
Ou seja, toda
e qualquer obra no Brasil teria de instalar fibras e dutos, de graça, para as
operadoras usarem. Realmente o melhor dos mundos – para as Teles...
Em resumo, o
Plano Nacional de Banda Larga do Sr. Helio Costa & Telefónica & Oi & Embratel
etc. apresenta nas suas 195 paginas o seguinte conteúdo:
* 26 páginas
detalhando a Motivação, Objetivos, Princípios, etc. (nada de aproveitável).
* 80 páginas
simplesmente relatando o que é a Internet, o que outros países estão fazendo, e
o que o Brasil está fazendo. Mostra como estamos atrasados e descobre o óbvio,
as razões pelas quais estamos atrasados.
* 4 páginas
definindo de forma simplificada algumas metas improváveis e irrealistas.
* 105 páginas
detalhando (veja que interessante) todas as ações do Governo Federal, Estadual,
Municipal, da ANATEL, para que as Teles atuais possam fazer o milagre de
implantar 90 milhões de acessos de banda larga em 5 anos.
* 6 páginas
com um cálculo cabalístico dos investimentos, sem dizer como foi feito o cálculo
mágico, sem sabermos a velocidade que será fornecida ao personagem mais
importante desta história, o consumidor e usuário.
* 4 páginas
propondo que no final de tudo o Plano seja coordenado por um Comitê Gestor, onde
as Teles, claro, terão papel preponderante.
* 5 páginas de
Anexos.
* 7 páginas de
referencias bibliográficas.
Ou seja, das
195 paginas do documento, apenas 10 contêm algo que possa ser analisado. E essas
dez páginas não fazem sentido, não constituem um Plano, não definem o que vai
ser feito, quando, por quem e como. As outras 185 páginas são para “encher
linguiça”.
Fica claro que o Governo
Federal é que tem de fazer. Para benefício do cidadão brasileiro e de nossa
sociedade. Será um segundo “pré-sal”, de que todos nos orgulharemos e que ficará
de herança para nossos filhos.
VIRGILIO FREIRE é
engenheiro eletrônico com especialização e pós-graduação em telecomunicações,
ex-diretor da Embratel, da Telebrás e da Telesp, ex-diretor de Sistemas
Celulares da Nortel, ex-presidente da Lucent e da Vésper, implantou e operou
sistemas de telecomunicações na África, Israel, Kuwait, Estados Unidos e em 20
Estados do Brasil.
O texto foi condensado e pode
ser encontrado na íntegra no blog do autor: virgiliofreire.blogspot.com
|