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Light diz à
Aneel que não estava preparada para o verão carioca
Desde a
segunda-feira, 23 de novembro, o Rio de Janeiro sofre com a interrupção de
energia
Há
mais de uma semana a Light não consegue garantir a distribuição de energia no
Rio. As desculpas foram muitas - desde o roubo de cabos a “questões de
segurança” até chuva, vento e árvores caídas-, mas, em relatório feito por
exigência da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), a empresa confessou
que trabalha com equipamentos no limite. Disse ainda que não estava preparada
para o aumento do consumo no verão carioca, apesar de ser um aumento que ocorre
todo ano, e de ter sido advertida pelo Conselho de Consumidores de que este ano
o consumo seria maior.
Para o professor de energia elétrica da Uerj, David Martins Vieira, o problema é
a sobrecarga do sistema. Sem investimento na ampliação da rede, qualquer aumento
de consumo deixa o sistema no limite. “São casos típicos de sobrecarga. Se forma
uma tsunami de energia. Estamos vivendo uma onda de calor, tivemos um aumento no
consumo de eletrodomésticos e os fios que interligam as residências e as
empresas são os mesmos. A rede precisa ser ampliada sempre”, afirmou.
Na madrugada da última segunda-feira (30) depois de percorrer diferentes bairros
cidade e da baixada, o apagão chegou aos moradores do Alto da Boa Vista, Barra
da Tijuca, Cachambi, Bangu, Realengo e trechos da Penha e de Brás de Pina. Para
o público, a Light “informou” que a falta de luz foi “provavelmente” causada
pela quantidade de árvores existentes nas regiões atingidas.
Segundo a Aneel, a Light tem indicadores de duração (DEC) e frequência (FEC) de
interrupções de energia acima da maior parte das distribuidoras do país. Mas, a
empresa não só descumpre as metas como foi multada em R$ 3,9 milhões pela
agência esta semana por não garantir a continuidade do serviço no ano passado.
O deputado federal Brizola Neto (PDT/RJ), indignado com o desencontro de
informações, enviou ofício para a Light, através da Comissão de Minas e Energia
da Câmara dos Deputados, pedindo dados sobre os indicadores de qualidade das
diversas áreas do Estado, o seu cumprimento e se – como prevê resolução n°
24/2000 da Aneel – foram pagas indenizações ao consumidor pelo seu
descumprimento. “A caixa preta da Light vai ser aberta”, comentou o deputado em
seu blog Tijolaço.
De acordo com Brizola Neto, estas mesmas perguntas foram feitas pessoalmente à
diretoria da Light. “A Light ficou de mandar os dados recentes para a Comissão
de Minas e Energia da Câmara. Até ontem [segunda-feira, dia 30] à noite não
tinham mandado, ao que sei. Isso não pode ser uma caixa preta. Estou cada vez
mais propenso a criar uma lei obrigando a auditagem e a publicação destes
índices. Não podemos viver um blecaute de informações sobre um serviço tão
essencial”, afirmou.
No atual modelo de regulação, as informações com as quais a Aneel trabalha são
entregues pela própria empresa. A agência não confere se as informações são
fidedignas ou um falseamento para aumentar tarifas. Essa realidade foi constata
pelo Tribunal de Contas da União (TCU), denunciada na CPI das Tarifas de
Energia, da Câmara dos Deputados, e causou um prejuízo estimado de R$ 1 bilhão
por ano, entre 2002 e 2007, aos consumidores atendidos pela Celpe.
Assim, a cada dia a Light dá uma justificativa diferente. Na segunda-feira (23)
- quando trechos de ruas do Leblon, Ipanema e Lagoa, na Zona Sul, ficaram até 24
horas sem luz -, a empresa disse que suspendeu o fornecimento de energia “por
questões de segurança da rede”. No final da tarde, o superintendente Carlos
Piazza disse que faltou luz por que cabos subterrâneos haviam sido roubados. O
problema se estendeu pela terça-feira e atingiu também bairros das zonas Norte e
Oeste, do subúrbio e no município de Duque de Caxias, na Baixada Fluminense.
Na quarta-feira (25), o bairro da Gávea, também na Zona Sul, outras partes de
Duque de Caxias, e mais sete bairros ficaram sem luz. Desta vez, a justificativa
da Light foi o vento que teria provocado queda de galhos sobre a rede elétrica.
Na quinta-feira (26), trechos de quatro bairros do Rio estavam sem luz, assim
como parte dos municípios de Nova Iguaçu e, novamente, Duque de Caxias. Agora, a
falta de energia foi atribuída à chuva. Enquanto a empresa se esforçava por
sustentar que a energia tinha sido restabelecida, moradores da Ilha do
Governador, Ramos, Vaz Lobo e Vicente de Carvalho, no subúrbio, Jacarepaguá, na
Zona Oeste, Vidigal, Botafogo e Jardim Botânico, na Zona Sul, e da Tijuca, na
Zona Norte, continuavam sem luz.
Até a noite de quinta-feira (26), a Ilha do Governador e o Alto da Boa Vista
ainda permaneciam com ruas completamente apagadas.
Na sexta-feira (27), o Leblon voltou a ficar no escuro.E, no sábado (28), foi a
vez da a Avenida Marechal Rondon ficar sem energia. No domingo (30), mais oito
bairros ficaram às escuras. Agora, para a população, a Light disse que o
problema foram as árvores.
“A empresa não pode trabalhar com os limites tão apertados. Ela tem que ter o
sistema configurado para essas situações. Às vezes, nesse período há picos de
calor mais elevados do que no verão. A Aneel não está aceitando essa
justificativa”, afirmou o diretor-geral da Aneel, Nelson Hubner. De acordo com
Hubner, uma equipe da agência está no Rio para checar as causas dos apagões da
Light. O relatório, disse, deve ser finalizado em 15 dias.
MARIANA MOURA |