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EUA manda Doha ao
espaço
e detona o encontro da OMC
O representante dos
EUA, velho lobista do Goldman Sachs, exigiu do mundo inteiro, em especial
dos países emergentes, abertura total de seus mercados aos produtos
norte-americanos
Fracassou
em Genebra, na conferência de ministros da Organização Mundial do Comércio (OMC),
que se encerrou nesta quarta-feira dia 2, a enésima tentativa de tirar a
assim chamada “Rodada de Doha” do estado de coma em que se encontra há oito
anos, e que já tem data para finar, o ano que vem. O convite para o velório
partiu do novo representante do Comércio dos EUA, o ex-prefeito de Dallas e
lobista da Goldman Sachs, Ron Kirk, que exigiu do mundo inteiro, e
especialmente dos “países emergentes em rápido crescimento”, isto é, Brasil,
Índia, China e África do Sul, uma abertura “adicional” – além do que já
havia sido acordado - dos seus mercados internos aos produtos industriais
norte-americanos.
Recebida pelo plenário como “ideia absurda”, a arrogante convocação de Kirk
foi pouco depois respondida pelo ministro das Relações Exteriores
brasileiro, Celso Amorim, que praticamente falou em nome de todos. “É
irracional esperar que a conclusão de Doha possa envolver concessões
adicionais dos países em desenvolvimento”.
PROTESTO
Enquanto os EUA se isolavam da imensa maioria dos povos -, nas ruas de
Genebra milhares de manifestantes repudiavam o encontro, com faixas e
cartazes “OMC cozinha crises”, “OMC mata camponeses”, “Parem o capitalismo:
não à OMC”. Há dez anos, uma multidão tomou Seattle, na conferência da OMC,
pondo em questão o modelo neoliberal.
E na conferência, com a mesma “lógica” com que os EUA transformaram sua
hiper-emissão de dólares em guerra cambial aos demais países com papel sem
lastro, Kirk assinalou no seu discurso porque os países emergentes de “mais
rápido crescimento” deveriam ser depenados, em prol da sobrevivência dos
decadentes monopólios norte-americanos. É desses emergentes, conforme o FMI,
que virá, daqui até 2014, 58% do crescimento econômico internacional e,
portanto, devem ser invadidos pelos produtos norte-americanos. É a isso que
ele chamou de cumprimento da “promessa de desenvolvimento de Doha”: “Os EUA
têm deixado claro que nós precisamos atingir uma significativa abertura de
mercado” do Brasil, Índia, China e outros países.
Num mundo que chegou às portas de um novo 1929, e desandou o coro da
“liberalização do comércio – privatização - desregu-lamentação financeira”,
a “Rodada de Doha” é quase um fantasma, alimentado pela inércia. No período
inicial da implantação da OMC, os estudos oficiais apontavam que dois-terços
do crescimento previsto do comércio internacional iriam para os países
ricos. Na “Rodada de Doha”, não é muito diferente: como apontou Amorim, os
países menos desenvolvidos já fizeram as maiores concessões no que já foi
acordado. O suposto crescimento para os mais pobres seria mínimo – se é que
haverá algum – inclusive vários dos mais pobres ficariam ainda em pior
situação, como na África subsaariana.
No impasse anterior, em junho de 2008, a Índia não arredou pé de assegurar o
direito de autodefesa perante importações predatórias, a fim de proteger os
camponeses pobres do dumping agrícola e garantir a segurança alimentar do
país, mas Washington se manteve irredutível. Nesta reunião, a Índia
denunciou outra faceta dessas manobras dos EUA: a pretensão impor “taxação
verde”, que irá funcionar como anteriormente as “cláusulas sociais” ( e
desde que se inventaram as tais cláusulas, o que mais fizeram foram arrancar
direitos, flexibi-lizar, etc). Agora, seriam taxados produtos de países que
Washington considere que estejam sob meta de redução de emissões de carbono.
E logo o maior poluidor do planeta é que se arvora em “juiz”.
WALL STREET
Como se os monopólios arrombados dos EUA e o Tesouro sob endividamento
recorde estivessem com esse fôlego todo, Kirk insistiu em que “não será um
país” ou “um pequeno grupo de membros” que vai “ditar” ou “fazer acontecer”
– o que deve ser uma prerrogativa das máfias de Wall Street, Washington,
Dallas e Miami. Aliás, no “livre-comércio” de Kirk, nessa hora nem tem OMC,
é “negociação bilateral”. O jogo dos EUA, ele esclareceu, é por “substância”
mais do que “por prazo”. A ação deletéria nas negociações também foi
registrada pelos europeus. “Doha não parece estar plenamente na agenda dos
Estados Unidos”, apontou a ministra do Comércio Exterior da França”,
Anne-Marie Idrac. “Desde o colapso das negociações em julho de 2008, a crise
está longe de amainar”. A China aproveitou para desancar a proposta dos EUA
de deixar o câmbio à mercê dos especu-ladores.
ANTONIO PIMENTA |